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Mudando o rumo: consumir significa destruir

CB, Opinião, p. 13
Autor: BICALHO, Joana
12 de fev de 2007

Mudando o rumo: consumir significa destruir

Não há muitos anos, o discurso ecológico era criticado por grande parcela da população em decorrência da postura romântica naturalista, que propunha, praticamente, não tocar a natureza. Com a ampliação do conhecimento acerca das questões ambientais, um modo mais realista de ver o meio ambiente entrou em pauta. Os trabalhos em ecodesenvolvimento, na década de 60, e a criação do termo desenvolvimento sustentável como meta individual e global, na década de 90, fizeram surgir nas discussões políticas, empresariais e sociais a importância do equilíbrio entre desenvolvimento e conservação do meio ambiente, a fim de atender às presentes e futuras gerações.

Lentamente, percebe-se chegar nova visão mundial acerca do valor dos recursos naturais. A compreensão de que o ecossistema é patrimônio comum da humanidade exige a formação de novos hábitos e atitudes de respeito ao meio ambiente. O homem, hoje, é considerado parte da natureza, não mais o seu dono; assim, conservá-la, representa garantir a própria sobrevivência.

A proposta atual é trabalhar em nova educação e postura de vida, levando em conta o consumo responsável. Desse modo, a expressão consumo consciente passa a fazer parte de livros, artigos e matérias e alerta para o aspecto de que consumir significa destruir. Luta-se pela já famosa equação dos 3R: reduzir, reutilizar e reciclar. A ordem é usar, ou comprar, pensando nas próximas gerações.

Até poucos dias atrás, pensava-se que as futuras gerações, às quais cientistas e jornalistas se referiam, diziam respeito a muitas décadas ou centenários à frente. Mas a grande surpresa é, após o maior encontro de cientistas ocorrido em Paris, França, no último 2 de fevereiro, concluir que já estamos vivendo o início do temido apocalipse, com dados aterrorizantes: em 2040, a temperatura média da terra passará de 15 graus, o que provocará derretimento de geleiras e elevação do nível dos mares, deixando o equivalente a toda a população do Brasil desabrigada.

Se, hoje, não conseguimos perceber bem a diferença entre as estações climáticas, a estimativa é que trombas-d'agua, calores intensos, furacões, ciclones e inundações estejam, a cada dia, mais presentes. A falta de água e a perda de cultivos pela seca ou pelas inundações levarão mais de 1 bilhão de pessoas a passar fome nos próximos 50 anos. A qualidade de vida de adultos e crianças será rigorosamente reduzida em razão de doenças, excesso de calor e frio, crimes, fome e dificuldade de acesso a recursos básicos.

A reversão desse quadro exige urgente responsabilidade individual e força-tarefa em grupo para diminuir a emissão de gás carbônico na atmosfera: é preciso reduzir o uso de veículos automotores e ampliar a consciência quanto ao uso de produtos industrializados.

Gestores e funcionários de empresas e órgãos públicos buscam compreender a origem dos produtos que consomem, utilizando suas canetas para licitar e comprar materiais de menor impacto ambiental, reduzir o consumo, exigir de seus fornecedores posturas ambientalmente corretas e valorizar empresas com práticas de produção que respeitem a sociedade e o meio ambiente, privilegiando, assim, processos, procedimentos e logística não poluentes. Da mesma forma, estimulam funcionários a reduzir o consumo e reutilizar materiais, e destinam sobras e descartes a ONGs e cooperativas, movimentando um mercado secundário virtuoso e gerando empregos.

Consumidores passam a ler mais atentamente os rótulos ao mesmo tempo em que percebem seu poder de compra. Julgam a qualidade das empresas pelo tratamento dispensado aos funcionários, pela conduta ética nos negócios e pelos cuidados com o meio ambiente. Sentem-se mais motivados quando, ao fazer uma compra, encontram, nos produtos que procuram, informações sobre a fabricação de maneira ambientalmente correta. Prestigiam ou punem empresas de acordo com o desempenho no âmbito da responsabilidade social. Questionam se há utilidade, antes de consumir os produtos, e levam em conta a durabilidade e a qualidade do item adquirido. Destinam os objetos indesejados ou sem uso a terceiros, diminuindo, assim, a necessidade de consumo e produção.

Políticas públicas e programas voltados para a sustentabilidade devem ser ampliados, o que inclui respeito ao meio ambiente, estímulo à inclusão social por meio de fornecedores, atuação eco-eficiente e, sobretudo, fiscalização e controle na aplicação da legislação ambiental brasileira, considerada uma das melhores do mundo.

Está na hora de perceber o custo ambiental na produção e no consumo de produtos e serviços, boicotando os que não atendem aos desejos e às necessidades das presentes e futuras gerações. Só assim incentivaremos empreendedores, governo e empresas ao mercado sustentável. Afinal, as escolhas de hoje estão diretamente relacionadas à qualidade de vida do amanhã - que já chegou.

Joana Bicalho
Mestre e doutoranda em marketing e comunicação para a sustentabilidade, professora do UniCEUB e da UnB, multiplicadora do Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial joanabicalho@uol.com.br

CB, 12/02/2007, Opinião, p. 13

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