OESP, Agricola, p.G6-G7
03 de Dez de 2003
MS incentiva lavoura de grãos em área de pasto
Governo quer elevar safras de alimentos e recuperar áreas de pastagem degradadas
O governo de Mato Grosso do Sul está oferecendo incentivos fiscais para produtores rurais que desejarem expandir as áreas de lavouras no Estado. O objetivo é dobrar nos próximos anos a área cultivada, de 2 milhões de hectares. O programa visa preferencialmente o cultivo em áreas de pastagens degradadas. O Estado tem o maior rebanho bovino do País, com 23 milhões de cabeças, mas 9 milhões dos 16 milhões de hectares com pastagens precisam ser reformados. O Programa de Expansão de Áreas Agrícolas de Mato Grosso do Sul (Expansul), lançado este ano pelo governo, prevê o plantio de culturas de soja, milho, algodão e trigo, entre outras, sobre os pastos exauridos.
A idéia é, também, atrair agricultores de outros Estados, incluindo São Paulo. O projeto estimula o plantio direto, que evita a erosão e ajuda a repor os nutrientes no solo. O pecuarista que arrenda o pasto para o cultivo de lavoura, além de obter renda com a cessão das terras, pode aumentar significativamente o número de cabeças por hectare quando formar a nova pastagem.
O "empréstimo" das terras de pecuária para a agricultura ajudará o Estado a situar-se também entre os principais produtores de grãos do País. A área plantada deve subir nesta safra dos atuais 2 milhões para 2,4 milhões de hectares. Nos próximos dois anos, serão incorporados outros 800 mil hectares. A expectativa é a de que a produção de grãos passe dos 17,2 milhões de toneladas no ano passado para 20 milhões de toneladas este ano.
O balanço de contratos para a safra 2003/2004, divulgado pelo Banco do Brasil, indica que o crescimento pode ser ainda maior. Foram liberados R$ 502,8 milhões, 168% mais que em 2002, e a área financiada subiu de 590 mil hectares para 845 mil hectares no período. A cultura que apresentou a maior elevação foi a soja, passando de 521 mil para 745 mil hectares.
O superintendente de Agricultura e Pecuária do governo estadual, Benedito Mário Lázaro, prevê uma grande expansão na cultura da oleaginosa. "Na safra de verão do ano passado plantamos 1.400 hectares, e nesta vamos cultivar 1.800. Até 2006 chegaremos a 3 mil hectares só com a soja." Os bons preços da soja no mercado internacional e a disponibilidade de terras com baixo custo de arrendamento estimulam novos plantios. "O melhor é que estamos ampliando a fronteira agrícola sem desmatamento, aproveitando apenas as áreas de pastagens degradadas", disse.
Impostos[/INTERTITULO] - O programa de incentivos prevê a devolução de parte do ICMS pago na venda dos grãos. O cálculo leva em conta apenas o incremento na produção, ou seja, aquilo que o produtor plantou a mais em relação à ultima safra. O interessado deve seguir as recomendações técnicas para a cultura atestadas por um agrônomo. Quem não possui terras deve se inscrever na Bolsa de Parcerias e Arrendamento para ter direito ao benefício. "Isso é necessário para que possamos ter o controle das áreas novas ou do aumento na área já cultivada", explica Lázaro. O produtor de soja recebe 50% de retorno para o grão comercializado dentro do Estado e 75% para o produto vendido fora do Estado, incluindo a exportação.
O incentivo para o milho é de 75% qualquer que seja o local de comercialização, mesmo porcentual oferecido para o trigo, o arroz, o feijão e outros produtos. O ICMS do Estado varia conforme o produto, mas o incentivo equivale a 5 sacas por hectare de milho, de 2,5 a 3 sacas por hectare de soja, 2 sacas por hectare de feijão, 2,5 sacas por hectare de trigo e 25 arrobas por hectare de algodão. O programa está em vigor para as safras 2003/2004 e 2004/2005, mas pode ser ampliado se a reforma tributária não impedir.
Agricultores do Sul[/INTERTITULO] - Segundo o secretário da Produção e do Turismo do Estado, José Antonio Felício, além de estimular os produtores locais, o programa quer atingir os agricultores paranaenses, catarinenses e gaúchos. Quando esses produtores migraram para o Centro-Oeste e Norte do País para desbravar novas fronteiras agrícolas, em décadas passadas, eles pularam Mato Grosso do Sul. "Isso aconteceu, talvez, porque aqui era uma região já ocupada pelo gado", diz. O governo sul-mato-grossense quer, agora, recuperar o tempo perdido. "Em maio deste ano, apresentamos nosso programa a cinco grandes cooperativas paranaenses. Hoje, quatro delas já estão aqui', contou.
Além dos incentivos fiscais e do valor mais baixo das terras, o Estado oferece como vantagem adicional a melhor infra-estrutura, comparada à do Centro-Oeste. "Estamos mais próximos dos dois principais portos do Brasil, o de Santos e o de Paranaguá, e nossas estradas são melhores."
Agricultor diz que soja é certeza de lucro
Custo de produção de R$ 1 mil/ha é mais que compensado pela colheita de 50 sacas/ha
No sul e sudeste do Estado, é época de plantio e as pastagens vão cedendo lugar às lavouras de soja e milho. O plantio direto é feito sobre a palhada do trigo cultivado no inverno ou em áreas que tinham pasto formado com braquiária. O tratorista Júlio Gomes da Silva aplica herbicida sobre o pasto de colonião da Fazenda São Judas Novo, em Nova Andradina. A área de 100 hectares será cultivada com soja. Assim que o capim estiver bem seco e assentado no solo, uma máquina especial para plantio direto vai distribuir as sementes.
"Saímos de 25 mil hectares de lavouras no ano passado para 50 mil este ano e vamos chegar a 80 mil no próximo", assegura o presidente da Cooperativa Agrícola Sul-Mato-Grossense (Copasul), Gervásio Kamitani. Ele contabiliza apenas o plantio dos 950 associados da cooperativa, com sede em Naviraí, a 365 quilômetros de Campo Grande.
A região é a preferida pelos paranaenses. "Muitos deles arrendaram terras e se tornaram nossos cooperados", conta. Os plantios espalham-se pelos municípios de Dourados, Deodápolis e Maracaju. Os associados cultivaram 6.600 hectares de soja na safra 2000/2001 e vão plantar 33 mil hectares na 2003/2004. Este ano, eles produziram 1,4 milhão de sacas de soja e 1 milhão de sacas de milho. Para atender ao aumento na produção, a Copasul investiu R$ 6 milhões na compra de um armazém para 30 mil toneladas e na construção de dois silos, cada um com capacidade para 400 mil sacas, ou 24 mil toneladas.
Maior armazenamento[/INTERTITULO] - Os dois novos depósitos, com estrutura em cone, serão inaugurados no início de dezembro. A capacidade de armazenamento passou de 40 mil para 125 mil toneladas. Gervásio acredita que os novos silos podem ficar pequenos já nos próximos anos. Os armazéns são usados pelos associados para guardar os grãos - soja, milho e trigo - à espera da comercialização. "Quem pode segurar consegue preços melhores", disse.
Na época da safra, por exemplo, a soja estava cotada em R$ 33,00 a saca. Na semana passada, o preço tinha subido para R$ 46,00. As pastagens em volta de Naviraí estão virando culturas da oleaginosa. O próprio Gervásio arrendou 1.900 hectares da empresa Mate Laranjeira para transformar o pasto de colonião em lavoura. "Plantei 1.250 hectares de soja e 650 de algodão." A opção pela fibra tem uma explicação: a cooperativa possui uma fiação própria. A unidade produz 300 toneladas de fios por mês para indústrias de jeans e malharias de São Paulo e Santa Catarina. O objetivo é dobrar a produção.
O algodão é cultivado em 3.500 hectares, principalmente nas áreas inferiores a 500 hectares, consideradas pequenas para o cultivo da soja. A Copasul desenvolve parceria com assentamentos para o plantio da fibra. A região tem 3 mil famílias assentadas. "Estamos selecionando 25 agricultores para dar assistência técnica e acompanhamento a eles, com o compromisso de comprar o algodão."
A produtividade nos assentamentos é de 150 arrobas por hectare, menor que a dos produtores tecnificados, que produzem 200 arrobas, mas a cultura é semi-orgânica e utiliza mão-de-obra familiar.
Ganho garantido
Os cooperados plantam também trigo e milho safrinha no inverno, mandioca e feijão, mas o forte é a soja.
Com o custo médio de produção em torno de R$ 1 mil por hectare e uma produção nunca inferior a 50 sacas por hectare, o ganho é garantido mesmo que os preços baixem para R$ 30,00 a saca. A boa distribuição dos 1.800 milímetros anuais de chuvas cria condições muito favoráveis à cultura e não tem havido problemas com pragas.
O pecuarista Ivolim Monteiro de Carvalho, um dos primeiros criadores de gado a fazer cruzamento industrial de vacas nelores com touros red angus em Naviraí, não resistiu ao apelo da soja. Tratores e máquinas acabaram com as pastagens de colonião formadas há 20 anos e substituíram o capim pela leguminosa.
As plantinhas verdes começam a surgir na terra. Carvalho arrendou os 260 hectares de pasto da fazenda Recanto das Netas para o agricultor Emílio Denczuk, produtor de soja. "A pastagem estava degradada e eu precisava reformá-la, mas vou fazer isso sem custo e ainda tendo lucro", diz. Após três anos de arrendamento, ele vai receber o solo adubado, corrigido e pode formar um novo pasto. "Vou ganhar mais do que com o gado."
A dúvida de Carvalho é se ele volta a formar pasto ou continua recebendo pelo arrendamento da área para cultivo agrícola. Outra opção é plantar sua própria soja. Denczuk já sabe que, se isso ocorrer, ele terá de procurar outra área.
OESP, 03/12/2003, p. A12
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