JB, Pais, p.A2
26 de Nov de 2004
Movimentos sociais se distanciam do governo
Mais de 8 mil manifestantes criticam política econômica e reforma agrária
Hugo Marques
O centro de Brasília ficou vermelho ontem, com a marcha de mais de 8 mil manifestantes, a maioria do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Eles encerraram uma semana de conferências em Brasília com um protesto ao lado da sede do Banco Central. Lá, vaiaram a equipe econômica e queimaram uma bandeira que misturava as cores dos Estados Unidos com o símbolo do Fundo Monetário Internacional (FMI), com direito a chuva de papel picado que caía das janelas do BC.
A marcha do MST e de outras 43 organizações expôs o que pode ser o início de um distanciamento entre os movimentos sociais e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, conforme avaliação dos manifestantes. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), que participou da marcha de ontem, realiza nova manifestação contra a política econômica de Lula, entre os dias 13 e 15 de dezembro, marchando entre Goiás e o Distrito Federal, em favor da recuperação do valor do salário mínimo.
Para os manifestantes que participaram da semana de conferências em Brasília, o governo Lula está pior do que a gestão de Fernando Henrique Cardoso em relação à reforma agrária. Um dos descontentes é o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, que redigiu o programa nacional de reforma agrária adotado por Lula. Em um discurso para os mais de 8 mil sem-terra que participaram da Conferência Nacional Terra e Água, Plínio afirmou que se considera companheiro de Lula, mas criticou o governo.
- Não consigo acreditar que depois de dois anos tenhamos assentado menos que o governo anterior - afirmou.
O presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), dom Tomás Balduíno, afirmou que a conferência desta semana marca o ''descolamento'' dos movimentos sociais do governo.
- Pode ser que agora a massa popular caminhe para a oposição - disse dom Tomás.
Estavam com presença confirmada e não compareceram para as palestras os ministros do Meio Ambiente, Marina Silva, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, o mais afinado com os movimentos sociais. Dom Tomás lamentou a ausência de Lula na conferência.
- Se aqui tivessem presentes 12 mil empresários, será que Lula deixaria de vir? - perguntou dom Tomás à multidão, que o aplaudiu.
O principal líder do MST, João Pedro Stédile, afirmou que Lula continua sendo tratado como amigo, mas avisou que o movimento vai intensificar as manifestações contra a política econômica do governo. No manifesto entregue ao Banco Central e ao Palácio do Planalto, o Fórum Nacional pela Reforma Agrária, que congrega os movimentos sociais, diz textualmente que a politica formulada por Fernando Henrique Cardoso, principal causa da pobreza e da desigualdade, foi mantida pelo governo Lula.
Os líderes do MST sugeriram que cada sem-terra escrevesse uma carta a Lula, para demonstrar o sentimento frente à política de reforma agrária. O sem-terra José dos Santos Pereira, de Sandovalina (SP) afirmou que o governo de Fernando Henrique fez 96 assentamentos no Pontal do Paranapanema. ''Nada você fez'', escreveu José dos Santos para Lula.
Em várias cartas, os sem-terra revelam sua admiração e apoio a Lula, mas ao mesmo tempo expressam o medo do rumo da política econômica. A agricultora Rosimeire Amaral, do Pará, não usou meias palavras na carta ao presidente: ''Fique com a gente, o povão, não deixa o capitalismo te engolir.''
JB, 26/11/2004, p. A2
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