A Crítica - acritica.com
Autor: Waldick Júnior
11 de Abr de 2026
Na semana do Acampamento Terra Livre, o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, avalia que o governo Lula demarcou muito menos terras do que o previsto, mas ressalta que o movimento deve apoiar a reeleição
(Fotos: Ronaldo Tapirapé e Ney Araújo)
A edição 2026 do Acampamento Terra Livre, encerrada na sexta-feira (10), foi marcada pela cobrança do movimento indígena para o avanço da demarcação das suas terras. O coordenador-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Toya Manchineri, destacou para A CRÍTICA que o avanço do governo nesta pauta é insatisfatório.
Embora a expectativa fosse de pelo menos 100 terras homologadas e demarcadas nesta gestão, até o momento o total não passa de 20. Houve avanços em outras etapas do processo, como a aprovação de relatórios e a abertura de novos procedimentos demarcatórios, mas o líder indígena avalia que muito mais poderia ter sido feito.
À reportagem, Toya Manchineri falou sobre as demandas atuais do movimento indígena, a importância de eleger parentes nas eleições deste ano, a luta contra projetos que impactam seus territórios e a falta de prioridade global para a pauta climática diante dos gastos com guerras, entre outros temas. Confira.
O que diferencia o ATL deste ano e qual a principal reivindicação?O diferencial desse ano é que nós tivemos mais problemas para conseguir trazer a maioria da nossa delegação. O espaço também foi bastante reduzido para a gente aqui, e muitas lideranças não puderam vir. Com relação às nossas principais reivindicações, continua sendo a demarcação dos territórios indígenas. Nesses quase quatro anos de governo, poucos territórios foram demarcados. Algumas foram reconhecidas nos relatórios, mas é necessário ainda fazer um grande esforço para a gente conseguir fazer a demarcação, que o Estado brasileiro reconheça esses territórios que estão para ser demarcados.
Quantas pessoas participaram desta edição e por que houve dificuldade para levá-las ao ATL?Eu não tenho esse dado fechado, mas deve ser em torno de umas 5, 6 mil pessoas. A gente não conseguiu captar os recursos a tempo para tirar as lideranças dos territórios. O pouco que nós captamos, a gente investiu em ônibus e alimentação, inclusive aqui no ATL. Nós tivemos, por exemplo, no estado do Acre, que fica lá na fronteira do Brasil com o Peru. As lideranças indígenas vieram de ônibus. Foi contratado um ônibus, e a organização local fez outras parcerias com outras instituições para garantir a alimentação de lá até aqui, e o retorno também. A Coiab contribuiu com a questão da alimentação. Agora, o que sai realmente bastante caro são algumas comunidades que moram no estado do Amazonas. Por exemplo, Atalaia do Norte, São Gabriel da Cachoeira e até Manaus, porque não tem estrada, e aí tem que pagar passagem de avião, e as passagens são bastante caras. Isso dificultou a gente também para ter mais lideranças no ATL.
O movimento indígena ajudou o presidente Lula a se eleger em 2022. Já neste quarto ano de mandato, qual a relação do movimento com o governo? Qual é a atenção da gestão às pautas indígenas?Na eleição passada, a maioria dos povos indígenas votou com o presidente Lula, apostando na sua eleição para modificar a situação do governo anterior. Algumas questões a gente conseguiu, como a retomada dos conselhos, dos locais de deliberação, e também o acordo que foi feito com o governo, a participação indígena, tanto no recém-criado Ministério dos Povos Indígenas, como também na Funai e na Secretaria Especial dos Povos Indígenas. Isso foi feito: 98% dos cargos dessas duas instituições hoje são ocupados por lideranças indígenas, às vezes de carreira, outros não, mas estão fazendo o trabalho no governo.
Agora, com relação à demarcação dos territórios indígenas, a visão do governo de transição era de que, durante os quatro anos de governo Lula, seriam em torno de 100 terras indígenas homologadas e demarcadas. Durante todo esse processo, nós já estamos para terminar os quatro anos, e temos poucos, acho que no máximo 15 territórios indígenas demarcados, e mais 12 relatórios de terras indígenas aprovados. Isso é muito pouco pela projeção que tinha sido no governo de transição.
Mas, mesmo assim, o governo Lula, o Partido dos Trabalhadores, ainda é o melhor governo para os povos indígenas.
O movimento deve repetir o apoio ao presidente Lula na eleição deste ano, considerando que a disputa parece ser contra a família Bolsonaro, cuja gestão anterior era aversa às demandas indígenas?Com relação a apoiar a candidatura do governo Lula, nós, lideranças indígenas da Amazônia e do Brasil, em sua maioria, vamos apoiar a reeleição do governo Lula, por ele ter trazido de volta toda a participação indígena nos lugares estratégicos, e ter cumprido com parte do acordo, porque também a gente vê a questão da própria democracia em risco. A entrada de um governo que não olha a democracia como um pilar é tanto ruim para a sociedade não indígena como para a sociedade indígena, principalmente em se tratando do Congresso hoje, porque você tem uma grande maioria de deputados da direita e da extrema-direita que vai trabalhar contra os direitos dos povos indígenas, garantidos na Constituição de 88. Cabe a nós, enquanto lideranças indígenas, fazer também esse trabalho para que a gente consiga reeleger o governo Lula.
O movimento indígena tem se levantado cada vez mais contra grandes projetos que impactam seus territórios. Na Amazônia, alguns exemplos são o edital agora suspenso para a concessão dos rios à iniciativa privada, potássio no Amazonas, mineração no Pará e petróleo no Amapá. Como está essa mobilização?Ela entrou em todas as tendas do ATL, inclusive na da APIB, que é a articulação maior, para ver quais são os mecanismos que nós vamos estar trabalhando para contrapor esses grandes empreendimentos que impactam direta ou indiretamente nossos territórios e nossa vida. A gente não é contra o desenvolvimento, mas desde que os empreendimentos respeitem tanto a vida como o direito dos povos indígenas de viver com qualidade de vida e de saúde em seus territórios.
É necessário que o Estado brasileiro possa, através dos empreendimentos, ou melhor, quando for fazer ou financiar um empreendimento, fazer essa consulta para os povos indígenas. E se os povos indígenas não quiserem, que não se façam esses empreendimentos, porque, no final, os grandes empreendimentos só vão enriquecer mais quem é rico, enquanto a população que tem menos recursos continua empobrecendo cada vez mais.
É o cuidado que a gente vai trabalhar para que essas coisas não venham a acontecer. Claro que somente as populações indígenas sozinhas não conseguem barrar grandes empreendimentos. Conseguimos barrar o empreendimento lá da Cargil, mas foi uma grande conversa que teve com o próprio governo, de reconhecer o estrago que ia ser feito e reconsiderar o decreto que ele tinha posto. Dessa forma ganha todo mundo: ganham os povos indígenas, ganha a sociedade, além dos nossos recursos naturais.
Os governos estão investindo cada vez mais em armamento e o debate sobre mudança climática está ficando de lado. As populações mais afetadas são as tradicionais, indígenas. Como vê essa troca da pauta climática pela guerra?A pauta climática nesse momento não é interessante para os governos nem para as indústrias, porque a pauta climática vai só tirar dinheiro das empresas para que elas façam a adaptação ou a mitigação dos impactos. A guerra não: na guerra, muita gente vai morrer, mas as empresas vão ganhar. Daí é que vem o interesse em relação a apoiar a guerra ao invés de preferir, por exemplo, a questão das mudanças climáticas, salvar a vida e dar dignidade para uma população que vive nos territórios.
Também cresce o debate sobre a exploração das terras raras. O mundo, nesse contexto de guerra, está ainda mais interessado nessas riquezas cuja exploração pode acabar pressionando cada vez mais os territórios indígenas. Qual é a importância de colocar os indígenas no centro da discussão?A importância de se colocar os povos indígenas em qualquer debate, seja sobre terra rara ou não, é porque estamos tratando de vida. Os povos indígenas dependem totalmente do espaço que eles dizem que é o território, que é a terra. Se as empresas conseguem poluir ao redor, nós vamos sofrer as consequências com a questão da alimentação, a escassez de alimentação, a poluição de águas. É um dos temas também que nós vamos estar puxando para debate, para entender melhor como funciona a questão da terra rara, quais são as empresas que têm interesse em explorar esse tipo de recurso, para que a gente possa construir estratégia, quem sabe não deixar acontecer, ou pelo menos minimizar os impactos sobre nossos territórios.
Como está sendo organizada a estratégia para eleger candidatos indígenas? Hoje, temos pré-candidatos a cargos que vão de deputado estadual e federal a senador.Esse ano vai ter um debate também sobre o tema. Quem vai promover vai ser a APIB, mas precisamos destacar a importância de começar a eleger deputados, vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, senadores, deputados federais, e quem sabe mais no futuro até mesmo presidente. Por quê? Porque tudo que se trata sobre o direito dos povos indígenas é construído no Congresso. E mesmo tu tendo bancadas de esquerda, como o PT, o PSOL, o PV e o PCdoB, que são mais próximas do movimento indígena, não é como ter um indígena representando os povos indígenas no Congresso. Para a gente é fundamental essa representatividade dos povos indígenas no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas, porque ele vai tratar sobre os principais temas que nos afetam, mas também cuidar de fazer as parcerias para que não aconteça o que está acontecendo hoje, com um número grande de projetos de leis que mudam a Constituição e que retiram direitos dos povos indígenas.
É necessário para essa eleição que todos nós, brasileiros, tenhamos consciência de que o Congresso do jeito que está não pode continuar, porque senão nós vamos ter novamente um país com o Congresso querendo mandar no Executivo e sendo pouco efetivo em projetos de leis que realmente vão beneficiar a população. A maioria dos projetos de leis só retira direitos das populações.
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