CB, Brasil, p. 10
03 de Mai de 2009
A morte lenta da floresta do mar
Série de reportagens na costa nordestina revela como o descaso ambiental provoca a degradação dos recifes de corais e compromete a qualidade de vida do homem
Leonardo Cavalcanti
O mar manda mensagens. Algumas explícitas, outras cifradas. Mas todas trazem o mesmo alerta: a degradação e o descaso com os oceanos estão no limite. Em busca desses sinais marinhos, o Correio traçou um roteiro jornalístico inédito e, de hoje até o próximo domingo, apresenta o quadro da devastação do litoral nordestino. O diagnóstico da destruição foi montado a partir de entrevistas e mergulhos com pescadores - acostumados a ver os primeiros indícios dos estragos causados pelo homem -, pesquisadores dedicados ao estudo dos efeitos das alterações ambientais, moradores da zona costeira e turistas.
De Brasília à costa potiguar, descendo até o sul da Bahia, a reportagem percorreu, em 20 dias, 7.180km e recolheu provas de crimes contra o oceano e a degradação dos recifes, considerados a maior reserva de biodiversidade marinha e comparados a matas tropicais. "Assim como as árvores são as bases de uma floresta, os corais são a base dos ecossistemas recifais e funcionam como termômetros da destruição causada pelo homem", explica Mauro Maida, professor do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco.
Tais termômetros estão próximos à costa, ainda na plataforma continental, a menos de 30m de profundidade e mostram como a falta de áreas protegidas afeta a biodiversidade marinha. No Brasil, apenas 0,05% da área total da zona econômica exclusiva no oceano é oficialmente resguardada pela legislação, o que faz do mar um ambiente refém de todo tipo de ataque ambiental.
No Atlântico Sul, os recifes são encontrados apenas no Nordeste brasileiro, o trecho selecionado pela reportagem. Até o próximo domingo, serão mostradas causas e consequências da destruição, como o turismo descontrolado - o primeiro tema a ser abordado pela série -, que prejudica os recifes de corais de Maracajaú (RN), Tamandaré (PE), Fernando de Noronha (PE), Maragogi (AL), Porto de Pedras (AL) e Arraial d'Ajuda (BA).
Pescadores
Amanhã serão revelados os riscos assumidos por pescadores que avançam mar adentro atrás de peixes cada vez mais escassos na costa. Na sequência, o lucrativo tráfico internacional de corais e como os ataques de tubarões em Pernambuco estão relacionados à degradação. O Correio também irá mostrar os efeitos da poluição marinha provocada por agrotóxicos da cana-de-açúcar, o lamento de pescadores e as consequências das mudanças climáticas no oceano. Por último, serão apresentadas soluções encontradas por quem resiste a aceitar o descaso e tenta reduzir os efeitos dos crimes cometidos pelo homem contra o mar.
Destruição sem controle
Maracajaú (RN) - Desmatamento, sedimentação, produção cada vez maior de lixo, ocupação desordenada e exploração pesqueira são as maiores ameaças ao ambiente marinho no Nordeste. Estudo preparado por um grupo de cientistas do Global Coral Reef Monitoring Network (GCRMN) - entidade composta por governos e ONGs -, responsável pelo monitoramento dos recifes no mundo, mostra que os impactos causados pelo homem chegam ao extremo.
Numa escala de zero a 5, onde o maior número indica o risco mais acentuado, os pesquisadores listaram causas que vão desde o branqueamento provocado pelo aumento da temperatura do mar até o turismo desordenado. As ameaças como o desmatamento e a sedimentação, por exemplo, receberam nota 5, tanto no litoral baiano quanto em Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
No Brasil, o levantamento sobre os riscos para os recifes foi realizado pelos pesquisadores Beatrice Padovani, da Universidade Federal de Pernambuco, e Zelinda Leão e Ruy Kikuchi, ambos da Universidade Federal da Bahia. Na América Latina, os trabalhos tiveram a coordenação de cientistas da Costa Rica, Panamá, Venezuela e Colômbia - país visitado pela equipe do Correio, em novembro de 2008.
Umas das ameaças é o turismo praticado por pessoas que não receberam a devida informação sobre os recifes. Os pesquisadores deram notas de risco 4, na Bahia, e 3, em Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. "Os problemas vão desde o óleo das embarcações até o pisoteio dos turistas. É quase uma covardia", afirma Liana Mendes, professora de zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
"A maior dificuldade é que a maioria dos turistas tem as primeiras informações ao chegar aos recifes. Uma informação eficiente poderia contribuir para a redução de condutas inadequadas", diz Clébia Silva, mestre em desenvolvimento e meio ambiente pela UFRN. Em fevereiro, ela apresentou uma tese sobre a imagem que o turismo e a comunidade têm dos recifes de Maracajaú, praia a menos de 100km de Natal.
Investimentos
O mesmo problema de falta de informações a turistas foi encontrado por outros pesquisadores nas áreas de proteção ambiental e parques protegidos em Tamandaré e Fernando de Noronha, em Pernambuco, Maragogi e Porto de Pedras, em Alagoas, e Arraial d'Ajuda, na Bahia. O Ministério do Meio Ambiente (MMA) tem um programa que financia o monitoramento de recifes e faz campanhas de alerta. "Precisamos contar mais com os parceiros locais. O ministério não tem condições de manter em cada localidade um programa de sensibilização sem a ajuda de órgãos públicos e organizações não governamentais e operadoras de turismo, por exemplo", afirma Ana Paula Prates, gerente de Biodiversidade Aquática e Recursos Pesqueiros do MMA.
A professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco Fernanda Amaral acredita que, mesmo com os danos causados, há esperança. "Apesar do impacto que o turismo pode ter, é possível, com planejamento adequado, promover experiências proveitosas para a população local, o turista e a indústria turística." (LC)
CB, 03/05/2009, Brasil, p. 10
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