O Globo, Amanhã, p. 12-13
29 de Jan de 2013
Morte acidental
Dez mil albatrozes morrem por ano no Brasil vítimas da pesca com espinhel. Ao tentarem capturar as iscas de barcos pesqueiros profissionais, as aves ficam presas no anzol e se afogam. Risco de extinção ameaça 17 espécies
MARTHA NEIVA MOREIRA
Especial para O Globo
revistaamanha@oglobo.com.br
Era início de uma manhã gelada de agosto, em plena costa do Rio Grande do Sul, quando o oceanógrafo Fabiano Peppes levou um susto. Por volta das 6h, ao acompanhar a operação de recolhimento dos 1.200 espinhéis lançados ao mar pela tripulação do navio pesqueiro Oceano Brasil no dia anterior, ele ficou surpreso ao constatar que, na ponta dos anzóis, não havia atuns ou espadartes, como esperado. Só albatrozes. Quarenta, precisamente.
Uma semana antes, Peppes embarcara com a missão de monitorar a pesca não intencional dessas aves oceânicas, consideradas as maiores do mundo, com envergadura que pode chegar a 3,5 metros. Chegam a morrer por ano, acidentalmente, cerca de 100 mil albatrozes, dos quais 10 mil apenas no Brasil.
Em todo o mundo, 300 mil aves oceânicas morrem em incidentes decorrentes da pesca, o que signfica que os albatrozes são as vítimas em um terço dos registros.
As aves morrem afogadas, no momento em que mergulham para pescar o alimento e ficam presas a um dos cerca de três mil anzóis que compõem os espinheis - instrumento de pesca feito de nylon, com 150 quilômetros de extensão. Mais comum do que se imagina, o incidente é uma forte ameaça à vida das 22 espécies que existem no planeta. Especialmente às 17 que habitam as ilhas isoladas do hemisfério Sul.
Dessas 22 espécies, seis delas são encontradas no Brasil e todas constam da Lista Nacional de Espécies Ameaçadas. O albatrozde-tristão, especialmente, é considerado criticamente ameaçado. As aves são atraídas pelas iscas expostas nos espinhéis, como lulas, pequenos peixes e krills. Só há 11 mil indivíduos, a maior parte deles na Ilha de Gough, território remoto no Atlântico Sul, entre o Brasil e a África.
O Projeto Albatroz, criado há 22 anos pela bióloga carioca Tatiana Neves, visa a preservar a biodiversidade marinha e combater a morte acidental dos albatrozes que ocorrem na costa brasileira, como o albatroz-de-sobrancelha-negra, vigeiro ou errante, de-nariz-amarelo-do-Atlântico, de-tristão, pardela-preta e pardela-de-óculos. A implementação da Política Nacional para Conservação dos Albatrozes e Petréis, em 2006, junto com o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, é uma das principais iniciativas do projeto.
Ela estabelece 39 normas para a pesca profissional, como adoção de equipamentos que espantam as aves, regime de pesos de chumbo maior nas linhas de pesca, e a largada noturna - ou seja, o espinhel só pode ser jogado durante a noite, quando os albatrozes estão dormindo. As medidas contribuem para reduzir a morte acidental, hoje em nove aves por mil anzois jogados ao mar. A meta é chegar a uma ave a cada um milhão de anzois.
- Dá uma sensação muito ruim pescar por engano uma ave tão bonita e forte. Eu costumava capturar de 30 a 40 albatrozes por viagem - lembra, com tristeza, Jorge Machado, pescador aposentado e parceiro do Projeto Albatroz, que está hoje na presidência do Sindicato dos Pescadores de São Paulo.
A cada 20 iscas perdidas, um albatroz é capturado. Os piores meses para essas aves gigantes são o período que vai de agosto a setembro.
É quando os albatrozes chegam na costa do Rio Grande do Sul, vindos de ilhas distantes como Malvinas, Geórgia do Sul, Tristão da Cunha e Gough, além da Austrália e Nova Zelândia. As aves migram em busca de alimentos para seus filhotes, atraídos pelas águas geladas da corrente das Malvinas, rica em nutrientes. Macho e fêmea se alternam para conseguir alimento, em uma viagem que pode durar até 15 dias. Quando voltam para a ilha, regurgitam o que conseguiram pescar e dão aos filhotes.
- Quando é a albatroz fêmea que vai em busca de alimentos, a situação é pior. Se ela morre afogada, morre também o filhote. Neste caso, o macho que está cuidando do ninho vai embora, abandonando a cria. Por isso, é tão importante combater a pesca-acidental - explicou Tatiana Neves.
Ela contou que os pequenos albatrozes deixam o ninho com cerca de um ano de vida e só voltam, dependendo da espécie, cinco anos depois para reconhecer a ilha onde nasceram, identificarem um par e se reproduzirem, no mesmo local, dois anos depois. Eles são monogâmicos normalmente, mas o casal não permanece junto todo o tempo. Após a reprodução voam solitários pelo oceano, sendo capazes de migrar distâncias incríveis, geralmente circundando o continente antártico.
Os animais costumam viver em mar aberto, onde se alimentam e dormem. Recebem, pelo tempo que passam voando, o apelido de passageiros do vento.
O uso do toriline - uma espécie de espantalho marinho, como chamam os pescadores os cabos com fitas coloridas que espantam os albatrozes - é uma das normas adotadas hoje para conter a morte acidental das aves.
- Ele foi desenvolvido na Austrália e é usado por barcos pesqueiros japoneses. São postes de oito metros de altura fincados na popa do barco, onde são presas linhas de pesca de130 metros de comprimento. A parte que fica fora da água ganha fitas coloridas. No Brasil, um pescador do Rio Grande do Sul teve a ideia de pregar as fitas encontradas em floricultura.
Elas balançam com o vento e as cores assustam as aves - disse Tatiana.
O equipamento reduz em 60% a pesca acidental.
Até meados de 2012, entre as 35 embarcações monitoradas pelo Projeto Albatroz, todas usando o toriline, não havia registros de captura da ave.
O TORILINE pode ser de um ou dois postes. Eles são posicionados na ponta da embarcação, diretamente acima ou próximo ao ponto onde as iscas são lançadas na água. Em cada um é anexado um cabo de 90 metros de comprimento. Nesses cabos, a cada intervalo de um metro, são afixadas de seis a oito fitas coloridas, de mais ou menos um metro de comprimento cada. Ao balançarem e espantarem as aves, os espinheis, com pesos de chumbo na ponta, têm a chance de afundar.
O Globo, 29/01/2013, Amanhã, p. 12-13
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.