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Morre Afonso Alves da Cruz, sertanista ícone do Xingu

Carta Capital - https://www.cartacapital.com.br
Autor: Felipe Milanez
02 de out de 2017

Faleceu no dia 28 de setembro, em Altamira (PA), o sertanista Afonso Alves da Cruz. Ele tinha 82 anos, sofria de Parkinson e teve um AVC. Poucos dias antes, havia caído em sua casa e fraturado um fêmur.

Nas últimas semanas, segundo relata sua filha Elba, ele andava sonhando constantemente com seus antigos amigos indígenas, já falecidos. Vinham visitá-lo nos seus sonhos, conversar com ele em Kayapó, chamá-lo para juntar-se a eles no mundo espiritual.

Os sonhos haviam se tornado constante e Afonsinho falava deles, como os indígenas contam no centro das aldeias, com detalhes. Nos últimos dias de vida, ele preferiu não fazer a cirurgia que os médicos diziam que deveria ser feita para salvar-lhe o fêmur quebrado.

E Afonsinho, convalescendo numa cama no hospital, decidiu entrar em um jejum espiritual, como sabem fazer os mais fortes indígenas. Ele decidiu jejuar, não aceitar alimentos nem água, e ficar em silêncio, falando muito pouco, aguardando a passagem.

Essa morte corajosa me lembra uma descrição feita por Darcy Ribeiro relatando o fim de Kosó, um índio kaapor, muito amigo seu, que entrou em depressão pela morte de seu filho, ouviu, então, seu pai falecido chamá-lo em um sonho e foi encontrar-se com ele. "Deitou-se na rede e, em vez de dormir, se fez morrer. Este é um talento índio extraordinário, registrado mais de uma vez", descreveu o antropólogo brasileiro no livro Confissões.

Como a passagem de Kosó, em 2009 descrevi em uma reportagem na revista RollingStone a morte de Ururu, velha mulher indígena sobrevivente do genocídio do povo Akuntsu, em Rondônia, que também trancou-se em si mesma, até a alma abandonar o frágil corpo. Nesse caso, decidiu uma das últimas seis sobreviventes - hoje são apenas três mulheres - deixar-se morrer em sua própria terra, longe dos hospitais. Já que a vida e a cultura do seu povo havia sido destruída, ao menos a morte ela decidira guardar para si.

Para compreender esse "talento extraordinário" e raro dos indígenas, segundo Darcy Ribeiro, e essa força espiritual que Afonso Alves da Cruz aprendeu, deve ser buscada na sua longa trajetória de luta e defesa dos povos indígenas na Amazônia, sobretudo, na região do rio Xingu, onde ele sempre viveu.

Afonsinho, como era conhecido, foi um ícone do indigenismo. Sertanista, ele se especializou no trabalho de localização e contato de povos indígenas em isolamento, uma tarefa difícil e com alto risco de vida.

A sua trajetória de vida, com mais de 50 anos de trabalho para o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), inicialmente, e a partir de 1967, na Funai, se confunde com a história do indigenismo, e da contradição da violência do Estado brasileiro contra os povos indígenas com a luta de verdadeiros heróis que deram a vida em sua defesa.

Nasceu no Seringal Flor de Ouro, no rio Xingu, no Estado do Pará já próximo ao Mato Grosso. Sua família mudou-se depois para o Seringal Belo Horizonte, onde seu pai produzia o alimento do seringal com plantações de mandioca e cuidava da roça.

Com seis anos de idade, viu seu pai morto, atingido por uma flechada dos indígenas Assurini. Em seguida, a família mudou-se para Altamira. Suas lembranças dessa época descrevem uma brutal violência dos patrões seringalistas contra os seringueiros e contra os povos indígenas: ele recordava a história de que o patrão Inácio Silva havia organizado um ataque que matou, ao menos, nove indígenas kayapó.

Cerca de dez anos depois, ainda menor de idade, Afonsinho foi trabalhar com os kayapó no posto Gorotire, do SPI, a convite do sertanista Cícero Cavalcanti - seu cunhado trabalhava nesse mesmo posto. Fez uma espetacular transição, que para ele sempre foi tranquila: de uma família seringueira, cujo pai foi atacado por índios, ele escolheu como profissão justamente a defesa dos índios. Cavalcanti teve que refazer o registro, aumentando dois anos a sua idade para Afonsinho poder trabalhar formalmente.

Após alguns meses servindo no Gorotire, foi deslocado para ajudar com a situação de recente contato com os temidos kayapo do grupo Kubenkranken. Os Kubenkranken atacavam constantemente seringueiros, e haviam sido vítimas de um massacre ordenado pelo seringalista do Seringal Porto Seguro, numa expedição punitiva com mais de 25 homens (não se sabe quantos indígenas foram mortos).

Nos Kubenkranken Afonsinho foi criado e cuidado pelo cacique Tikiri, que lhe ensinou a falar fluentemente kayapó - ele viria a tornar-se posteriormente irmão do grande líder kayapó Paulinho Payakã, que disse estar muito triste com a notícia do falecimento. Nesse momento, também aproximou-se do sertanista Chico Meireles, de quem tornou-se principal braço direito nas expedições de contato com indígenas isolados que resistiam ao avance dos seringais, das fazendas e dos garimpos.

Participou da longa expedição de contato com os Mekragnoti, em 1958. Ficou preso na aldeia por mais de dez dias, e recorda-se que por pouco os integrantes da expedição não foram mortos - no entanto, após mais de um mês sem noticias, haviam sido dado como mortos pela base do SPI onde estava Chico Meireles.

Em 1965, participa do contato com os Kararaô, outro grupo Kayapó. Os Kararaô haviam sofrido um massacre ordenado pelo seringalista Frizan, e corriam risco de extermínio. Contatá-los era a possibilidade, pensavam na época, de evitar que revidassem o ataque e fossem completamente exterminados pelos seringalistas.

Mas após o contato, acabaram quase sendo extintos em razão de epidemias e falta de atenção pelo Estado. A descrição precisa desse crime da ditadura contra os Kararaô está relatada no excepcional livro Os Fuzis e as Flechas, Cia das Letras, 2017, do jornalista Rubens Valente, a partir de documentos da época e das memórias de Afonsinho relatadas ao jornalista em longas entrevistas.

O sertanista liderou uma pequena equipe na expedição de contato com os Xikrin do Bacajá, em 1959, um povo que fala uma língua muito próxima aos Kayapó e também se autodenominam Mebengokrê. Os indígenas Xikrin haviam atacado um garimpo de ouro na Ilha da Fazenda (onde hoje pretende-se instalar uma mineradora canadense com o projeto Belo Sun), e os garimpeiros organizavam uma expedição para massacrar os indígenas. Tentando evitar esse mal pior, uma grande expedição foi formada por Chico Meireles, mas que não conseguiu encontrar os Xikrin. No entanto, poucas semanas depois, um pequeno grupo, liderado por Afonsinho junto de seus amigos Kayapó do Gorotire, chegou até os Xikrin antes dos garimpeiros que queriam exterminá-los. Mas tal como sucederia com os Kararaô, pouco tempo depois, o descaso do Estado com a saúde indígena também iria produzir uma mortandade absurda.

Os relatos de Afonsinho, que constam no livro Memórias Sertanistas (Sesc, 2015), são desesperadores. Não havia medicamento nem enfermeiros, e o SPI informou que não havia dinheiro para comprar remédio. Após o contato, Afonso foi deixado desamparado sem condições de garantir a integridade dos Xikrin. Tentava salvar vidas com o que tinha em mãos, que era nada, ou quase nada. Em poucas semanas, ele recorda terem morrido 55 indígenas.

Relata Afonsinho (página 129), uma cena desesperadora: "Eu fui na aldeia e vi uma criança mamando numa mulher morta. Tirei a criança e levei para o acampamento onde nós estávamos." A criança foi salva, adotada, e hoje vive no Rio de Janeiro. Os Xikrin, que vivem hoje na Terra Indígena Trincheira Bacajá e somam quase oitocentas pessoas, são severamente impactados por Belo Monte, pois o rio Bacajá desagua justamente na área da Volta Grande do Xingu.

A partir de 1970, Afonsinho foi utilizado pela Funai para acompanhar os trabalhos da construção da Rodovia Transamazônica, e utilizado pelos militares para tentar "pacificar" os Arara que resistiam à construção da estrada, que havia cortado seu território, inclusive atingindo diretamente uma aldeia.

Por anos os Arara desviaram de qualquer aproximação, até que, no final da década, atacam os funcionários da Funai, e Afonsinho é flechado duas vezes, sendo atingido no pulmão e no rim. Outros três colegas também foram feridos. Passou meses se recuperando em Belém, e em seguida, voltou a trabalhar nas frentes da Funai.

Passou então a ser um companheiro necessário nas equipes de campo do sertanista Sydney Possuelo. O contato com os Arara, da região do Laranjal, acontece em 1980, e a despeito das tentativas de controle epidêmico, muitos morrem numa epidemia de gripe. Em razão do ataque sofrido, Afonso não participou desse processo.

Em 1987, chefiando uma frente da Funai, ele fez o contato com um outro grupo Arara, da Cachoeira Seca do Rio Iriri, diferente daquele que o havia atacado. Nesse processo não morreu nenhum indígena sequer, decorrente de epidemia posterior, e a experiência serviu para a Funai mudar a política para índios isolados, nesse mesmo ano de 1987, com a prerrogativa do "não-contato". Essa mudança institucional foi liderada por Sydney Possuelo, e teve o apoio de Afonso.

Até o fim da sua vida, foi visto como um pai pelos Arara da Cachoeira Seca, tamanha era a sua dedicação em ajudar esse povo no difícil relacionamento com o avanço do colonialismo. Era extremamente dedicado em auxiliar os indígenas a construírem um modo de vida com autonomia, fazendo uso de novas ferramentas e mantendo a força de sua organização social e territorial. Mas sem apoio político, a terra indígena passou a ser cada vez mais invadida por madeireiros e grileiros, até ser homologada no limiar do golpe que derrubou Dilma Roussef, em 2016, como uma das condicionantes da construção de Belo Monte.

Nessa longa vida de dedicação a salvar os povos indígenas, Afonsinho sofreu com eles a violência do Estado. E, para ele, os piores momentos desse meio século de indigenismo e de invasão da Amazônia por projetos de desenvolvimento, foram justamente aqueles do final de sua vida, quando veio a construção da Usina Belo Monte, e uma autoritária reestruturação (talvez devesse chamar desestruturação) da Funai que o excluiu de qualquer atividade indigenista.

Nos últimos dias de 2009 ele foi demitido da Funai, justamente quando estava no posto Arara da T.I. Cachoeira Seca. Recebeu a notícia no início de 2010, quando retornava para Altamira de férias. Entrou em depressão profunda.

Sua demissão fazia parte de um plano de reestruturação, levado a cabo pela mesma gestão da Funai que liberou a construção de Belo Monte. Essa medida de desestruturação do órgão indigenista serviu ao menos para dois objetivos na região: ajudar a desarticular a resistência indígena ao projeto de construção da usina, e abrir espaço para uma ONG paulista, a qual a então diretora da Funai havia sido presidente, controlar o trabalho com povos indígenas isolados.

Chegaram então na Funai jovens formados em São Paulo, autointitulando-se modernizadores, que desde o alto de suas prepotências humilharam e isolaram Afonsinho, que entrou em depressão profunda. Ele nunca mais pode sequer voltar a visitar o posto que havia construído nos Arara - mas era constantemente visitado pelos indígenas que vinham a Altamira.

Em outubro de 2010, por ocasião do centenário do indigenismo no Brasil, um grupo de destacados sertanistas, reunidos em São Paulo, escreveu uma Carta de Protesto contra a demissão de Afonso Alves da Cruz, considerada por eles "injusta e desrespeitosa".

Na época, estive com Afonsinho em Altamira e escrevi também um artigo pedindo a recontratação do experiente e extraordinário sertanista. O então presidente da Funai havia dito, numa comunicação direta a mim, que não poderia retroceder nenhum passo na "reestruturação" (ele estava pressionado por um gigante acampamento indígena, que durou mais de seis meses, em frente ao Ministério da Justiça, enquanto a Funai estava ocupada por indígenas contrários à medida).

Posteriormente, novas críticas de sertanistas experientes pediram mudanças na área de índios isolados, alertando para o pior. Eles denunciavam a "deterioração da política de proteção aos índios isolados" desde mudanças na gestão da área, em 2011, por nomeações políticas sem respaldo técnico. O resultado dessa deterioração, agravada pelos cortes orçamentários, tem sido constantes massacres, alguns reportados nessa coluna como as mortes dos Korubo, em 2015, e o mais recente Massacre dos Flecheiros no rio Jandiatuba. Dezenas de indígenas em isolamento podem ter sido mortos nos últimos três anos.

No prefácio do livro Memórias Sertanistas, a antropóloga Betty Mindlin escreveu: "A vida de Afonso e suas realizações são excepcionais. Nada quebrantou sua lealdade aos índios, com os quais ficou até ser, injustamente, dispensado da Funai em 2009. O Brasil deve-lhe homenagens."

A casa onde ele vivia com sua família, no centro antigo de Altamira, foi destruída por Belo Monte, e o quintal onde ele adorava passar tempo admirando a mata foi levado pela usina.

Se faltou, em vida, reconhecimento pelo Estado brasileiro, este é apenas uma mostra da contradição da vida do sertanista: ele não servia ao Estado, mas sim aos povos indígenas.

Afonsinho teve o reconhecimento daqueles para quem se dedicou a vida toda: seus amigos Kayapó e Arara foram chorar por ele e seu espírito em seu leito de morte. E com eles aprendeu o caminho para realizar a passagem a um mundo espiritual, onde deve estar hoje na companhia daqueles com quem lutou lado a lado.

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