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Morcegões espalham lixo pelas ruas

OESP, Metrópole, p. C1
Autor: LUZ, Ana Maria Domingues
10 de Ago de 2010

Morcegões espalham lixo pelas ruas
Caminhões clandestinos circulam à noite atrás de material reciclável, deixam rastro de sujeira e empobrecem produção de cooperativas

Vitor Hugo Brandalise

À noite, uma frota de caminhões clandestinos de lixo percorre as ruas de São Paulo em busca de material reciclável. São os "morcegões", caminhões sem identificação que recolhem produtos recicláveis separados pelos moradores, para levar a centrais de triagem clandestinas.
Pelo caminho, deixam um rastro de sujeira nas ruas da capital. Também trazem prejuízo às 16 cooperativas conveniadas com a Prefeitura - os sacos de lixo abandonados nas ruas chegam a ter valor de 20% a 30% menor do que o material recolhido nos condomínios.
Os veículos irregulares - caminhões das décadas de 1970 e 1980, com placas apagadas ou escritas à mão - aproveitam-se da ineficiência da rede de coleta seletiva na cidade, que conta com 66 caminhões. Seriam necessários 500. "O resultado é que o material mais valioso não chega às cooperativas. É um dos motivos para a dificuldade que têm em se manter", afirma René Ivo, coordenador da Coleta Seletiva Solidária do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos.
Como nunca houve fiscalização específica, a Prefeitura não sabe o número de caminhões que circulam na capital - na estimativa das empresas de coleta, Loga e Ecourbis, são "ao menos cem". Para as cooperativas de reciclagem, "são centenas".
Das 22h de quarta-feira às 2h de quinta, o Estado flagrou cinco caminhões irregulares recolhendo lixo em áreas nobres da capital - Jardim Paulista e Cerqueira César, na zona sul, e Pinheiros e Vila Madalena, na zona oeste. Esses locais são procurados pelas características dos resíduos - mais alumínio e plástico - e por serem bairros em que a coleta seletiva é mais difundida (fazem parte das Subprefeituras da Sé e de Pinheiros, duas das que mais reciclam). Itaim-Bibi e Vila Mariana, na zona sul, são outros bairros visados, também pelas características do lixo.
Batizados de "morcegões" por atuarem à noite, os caminhões circulam diariamente - diferentemente da coleta seletiva oficial, que passa uma vez por semana. "Vêm toda noite e pegam o que interessa. Deixam o resto para trás, de qualquer jeito", diz o comerciante Joaquim de Araújo, de 55 anos, proprietário de um posto de gasolina nos Jardins.
Os caminhões - abarrotados até o topo e com duas ou três pessoas empoleiradas em cima - circulam em alta velocidade. Além do problema da segurança, seus ocupantes, geralmente menores de idade, abrem os sacos de lixo e pegam só o que interessa. Na frente de um flat na Rua Haddock Lobo, por exemplo, abandonaram revistas e embalagens no chão. Do outro lado da rua, o rastro de outro morcegão foram restos de lixo orgânico.
Nunca enfrentado. O problema - alvo de reclamação das cooperativas de reciclagem, que dizem ficar com "o lixo" do material reciclado - nunca foi enfrentado. "Não há mapeamento. Para entender o problema e depois enfrentá-lo, é necessário investigação", disse Elisabeth Grimberg, coordenadora executiva do Instituto Pólis. "É uma ponta desconhecida do problema com a coleta seletiva em São Paulo."
Segundo o Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb), não há previsão de operações específicas contra os clandestinos. "A maioria deles é contratada por estabelecimentos que são grandes geradores de lixo e não respeitam a legislação", informou, em nota. A fiscalização, nesses casos, atua somente em caso de denúncia ou flagrante.
Punição
R$ 250 é a multa para coleta irregular
R$ 12 mil é a multa para quem descarta lixo e entulho nas ruas

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100810/not_imp592868,0.php

Moradores reclamam de falta de ação da Prefeitura

Vitor Hugo Brandalise

Nos bairros mais visados pelos morcegões - os que têm lixo de mais "qualidade", com muito plástico e alumínio -, a presença dos caminhões à noite já virou rotina. "O problema é a sujeira que deixam. Acordei cedo na semana passada e vi todo o lixo da pastelaria do outro lado do quarteirão na frente da minha porta", afirma a dona de casa Salete Matheus, de 53 anos, moradora da Vila Madalena desde 1960.
Ao menos duas associações de bairro cobraram providências da Prefeitura. "É pauta de toda reunião. Levamos à gerência da Paulista e à Secretaria de Serviços, mas nada foi feito", contou Célia Marcondes, presidente da Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César. Em 2009, o Centro Cultural da Vila Madalena procurou a Subprefeitura de Pinheiros para alertar sobre os morcegões. "Mas não mudou nada", diz a diretora do centro, Vângela Veloso.
Segundo a Secretaria Municipal de Serviços, responsável por fiscalizar a coleta de lixo, embora não haja ações específicas para coibir os problemas, fiscais das subprefeituras "estão orientados a avisar o Limpurb para realizar flagrantes".

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100810/not_imp592883,0.php

Quem paga pelo serviço ilegal é o cidadão

Análise: Ana Maria Domingues Luz

Eles passam antes da coleta oficial e levam tudo o que lhes parece aproveitável. À primeira vista, são caminhões da "reciclagem", confundidos com os veículos das cooperativas de catadores ou das empresas coletoras oficiais. Se pensarmos apenas na reciclagem, poderíamos considerar que seu trabalho é bom para o meio ambiente. É verdade que, sem eles, uma quantidade maior de materiais recicláveis seria desperdiçado. No entanto, um segundo olhar mostra que os benefícios são muito menores do que os problemas.
Eles coletam sacos com lixo misturado, em que os recicláveis vêm mesclados com papéis higiênicos usados, restos de alimentos deteriorados e outros elementos contaminantes. Quem trabalha para eles é obrigado a manipular todo tipo de imundície.
Para que o lucro do dono do negócio seja maximizado, os gastos com a operação precisam ser reduzidos ao máximo. Por isso, muitos utilizam mão de obra infantil ou quase escrava, bem barata, para fazer esse serviço.
Quem paga para que a sujeira que os morcegões deixam em qualquer lugar seja retirada é o cidadão que paga impostos. Sim, porque, como sua atividade é oficiosa, quase sempre clandestina, não há pagamento de impostos nem fiscalização adequada. Eles não pagam, mas você, sim.
Eles trabalham no vácuo deixado pela coleta seletiva ineficiente e insuficiente que temos em nossa cidade. Sua atuação retira o ganha-pão das mãos das cooperativas de catadores do Município. Vamos torcer para que a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos ajude a solucionar esses problemas.

É presidente do Instituto Gea Ética e Meio Ambiente, especializado em Gestão de Resíduos, Cooperativas e Educação Ambiental

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100810/not_imp592879,0.php

OESP, 10/08/2010, Metrópole, p. C1

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