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Morador do Lago Sul usa 829 litros de agua por dia

OESP, Metropole, p.C4
05 de set de 2005

Morador do Lago Sul usa 829 litros de água por dia Desperdício é grande: consumo diário recomendado é de 150 litros por pessoa
Lígia Formenti
Uma das áreas residenciais mais ricas do País, o Lago Sul, em Brasília, exibe uma estatística que revela a quanto pode chegar o desperdício. Nas casas luxuosas erguidas no bairro, o consumo diário de água é equivalente a 829 litros por pessoa. Oito vezes mais do que o registrado numa área pobre próxima da cidade, o Riacho Fundo. Lá, cada habitante consome diariamente 107 litros de água. O consumo no Lago Sul também é 5,5 vezes superior ao recomendado por organismos internacionais: 150 litros diários por morador.
Ao passar pelas ruas do Lago Sul, não é difícil entender para onde vai tanta água: manutenção de piscinas, lavagem de carros e de pátios, além da irrigação dos jardins. "Não adianta, quanto melhor o nível econômico, maior o consumo", constata o diretor-presidente da Agência Regional de Água e Saneamento do Distrito Federal, David de Matos.
Ele conta que, há alguns anos, foi criada uma sobretaxa a ser paga por imóveis considerados grandes consumidores. "Isso não trouxe mudanças importantes. Para tal público, contas de água mais caras não intimidam nem um pouco", reconhece Matos.
Por enquanto, o desperdício traz reflexos apenas na conta de água de moradores do Lago Sul. Mas há risco de isso mudar. O Distrito Federal e seu entorno registram um aumento populacional de 2,6% ao ano. A região, no entanto, carece de boa oferta de água. "Não temos rios de grande porte próximo de Brasília. A captação vem de uma distância razoável", observa Matos.
Atualmente, a principal fonte de captação de água é a Bacia do Descoberto, perto de Águas Lindas, um município que registra crescimento populacional de 14% ao ano, um dos maiores do País. O aumento é rápido e desordenado - casas são erguidas sem rede de esgoto, pondo em risco o futuro abastecimento. Na tentativa de evitar a contaminação da principal área de captação, foi feito um contrato com o Banco Mundial (Bird).
O consumo do Lago Sul, local que abriga embaixadas e residências de ministros, é também muito superior ao gasto médio de Brasília: 220 litros por pessoa. E quase o dobro do que é registrado no Plano Piloto, 449 litros diários.
Matos considera importante ampliar a conscientização da população, sobretudo nas áreas mais ricas, para racionalizar o uso de água. Mas ele reconhece que se trata de uma tarefa difícil. "Ninguém quer abrir mão do conforto de um banho demorado ou do prazer de jogar futebol em seu gramado. Mas desde que esteja verde."
Ele observa também ser importante iniciar a cobrança do consumo da água - hoje, moradores pagam apenas pelos custos que a concessionária tem para levar a água até a torneira de suas casas. Em 1997, a água passou a ser considerada bem econômico.
A cobrança pelo seu consumo, no entanto, ainda depende da regulamentação do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.
SEM AUTORIZAÇÃO
Além do consumo excessivo, algumas áreas nobres de Brasília apresentam outro problema: o uso de água de poços que não tiveram outorga. Pelas contas da Agência, existem no Distrito Federal cerca de 8 mil poços. Apenas 10% registrados.
"Este é um problema não só para o consumidor direto, mas para toda a região", diz. Poços abertos de forma irregular têm potencial para contaminar todo o lençol freático da região.

Índice é maior que o registrado em algumas cidades dos EUA A coordenadora do Programa de Mananciais do Instituto Socioambiental, Marussia Whately, classifica como "exorbitante" o nível de consumo de água verificado no Lago Sul. Um índice superior ao de alguns bairros de São Paulo, como Higienópolis, e de algumas cidades americanas. "Em alguns Estados dos EUA, o país do desperdício, o nível chega a 600 litros diários por pessoa", diz. A diferença de 200 litros é mais do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para uma pessoa.
Para Marussa, o índice assusta por duas razões. Além de ser altíssimo, é registrado numa região onde a oferta de mananciais não é farta. "Preocupa ainda o fato de as áreas de mananciais que servem o Distrito Federal já apresentarem ocupação desordenada."
Isso pode fazer com que na região se repita o problema enfrentado hoje por São Paulo, com as Represas Billings e Guarapiranga. "O crescimento desordenado compromete a qualidade da água e promove a impermeabilização do local."
Para ela, é difícil mudar o padrão de consumo, por isso a cobrança prevista pelo uso será essencial. "É preciso atribuir valor econômico ao que é base de todas as atividades."

OESP, 05/09/2005, p. C4

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