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Montadoras correm para lançar carros elétricos no próximo ano

OESP, Economia, p. B8
09 de Ago de 2009

Montadoras correm para lançar carros elétricos no próximo ano
Criação de veículos não poluentes mobilizou governos dos EUA, Japão e Europa, mas preço será alto no início

Cleide Silva

Abastecer o carro na tomada e rodar pelas ruas com a tranquilidade de não poluir o ar é um cenário que já se tornou realidade em alguns países, embora ainda em baixa escala. A lista vai aumentar a partir de 2010, quando várias montadoras prometem abastecer as lojas com modelos elétricos que, inicialmente, terão preços salgados.

Nenhuma fabricante quer ficar de fora desse nicho, que ganha importância principalmente nos Estados Unidos, Europa e Japão, onde os governos incentivam o desenvolvimento do tão esperado carro limpo com subsídios para sua aquisição ou financiamento às empresas.

Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que dará às três montadoras americanas (GM, Ford e Chrysler) mais de US$ 400 milhões em recursos para apoio à fabricação de veículos elétricos e híbridos avançados.

A ajuda faz parte de um programa para o setor de energia, que tem como objetivo reduzir a dependência do país da importação de petróleo, mas também é um esforço para não perder essa corrida para fabricantes europeus e japoneses.

O Brasil não está alheio ao processo, embora ainda atue de forma tímida. Recentemente, montadoras e governo colocaram o tema em discussão. "Se decisões estão sendo tomadas mundo afora e podem ter impacto no médio e longo prazos no mundo automotivo, mesmo que regionalmente, nós temos de participar ativamente", diz o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider.

Ele acredita que a discussão passa pela definição da matriz energética do País para garantir o abastecimento desses veículos. O tema já foi tratado em encontros com a participação dos Ministérios de Ciência e Tecnologia, Minas e Energia e Meio Ambiente, mas, até agora, nada de concreto foi analisado.

Fora do Brasil, várias montadoras prometem colocar carros elétricos à venda em larga escala a partir de 2010, e há uma corrida entre quem será a primeira. Várias delas fizeram parcerias para o fornecimento da bateria, o coração dos carros elétricos e o item que ainda é "o calcanhar de aquiles por causa da dimensão e custo", afirma Leonardo Cavaliere, supervisor de inovação e veículos especiais da Fiat do Brasil.

O grupo Renault/Nissan mostrou há uma semana o Leaf, modelo que o presidente da empresa, o brasileiro Carlos Ghosn, chamou de o primeiro carro elétrico com emissão zero fabricado para atender a requisitos de viabilidade financeira do mundo real. Segundo a empresa, o modelo pode ser recarregado numa tomada doméstica de 220 volts em oito horas.

Thomas Besson, presidente da Nissan do Brasil, diz que "há estudos de trazer o Leaf para o Brasil", mas não deu detalhes. Outro modelo que pode aportar em breve no País, apenas para testes, é o Mitsubishi MiEV, feito no Japão. A montadora está escolhendo países com diferentes temperaturas para o teste, e o Brasil pode ser um deles.

Há várias tecnologias para os carros elétricos (leia abaixo). Algumas permitem o recarregamento em tomadas domésticas e outras exigem infraestrutura específica para evitar sobrecarga na rede. Todos os países que apostam no produto terão postos de recarga.

O Volt, desenvolvido pela General Motors, pode ser recarregado na tomada doméstica e tem autonomia para rodar 64 quilômetros. Se a carga acaba, um motor a combustão (convencional) é acionado automaticamente.

"O carro pode ser carregado numa tomada normal, durante oito horas", diz Pedro Manuchakian, vice-presidente de engenharia da GM do Brasil. Uma boa solução, afirma, é fazer isso à noite, quando a rede está menos sobrecarregada.

Segundo ele, o preço do Volt será maior do que um modelo convencional e inferior ao de um modelo híbrido. A própria GM decidiu desenvolver a bateria de ion-lítio junto com uma empresa especializada para acelerar o projeto, apresentado há dois anos.

SEM RUÍDO

O uso da energia para o Volt equivale ao de uma geladeira extra na casa, informa Plínio Cabral Júnior, diretor de engenharia eletroeletrônica da GM. O acionamento do carro é feito por um botão e não há ruídos. "Estudamos criar um ruído que imite o ronco do motor para motoristas que têm prazer em dirigir e querem sentir a performance do veículo", conta ele. A ausência de barulho foi uma das reclamações de clientes que testaram um dos 15 modelos Volt que já circulam pelos EUA.

Estudo feito pela Universidade Califórnia prevê que os veículos elétricos e híbridos vão responder por 60% das vendas nos EUA a partir de 2030. Até lá, os preços desses modelos já estarão competitivos. Entre os modelos já disponíveis atualmente está o Roadster da Tesla, fabricante independente de modelos esportivos. O carro sai por US$ 109 mil.

A alemã Daimler, dona da Mercedes-Benz, comprou recentemente 10% da Tesla, de olho na experiência da empresa em combustíveis alternativos. A montadora está testando o motor elétrico no minicarro Smart e pretende vender até 2012 no mercado europeu 10 mil unidades com essa tecnologia.

Outra marca alemã que escolheu um compacto para popularizar sua tecnologia limpa é a BMW, que já espalhou diversos modelos Mini para serem testados por clientes na Europa. Por enquanto, as japonesas Honda e Toyota estão colocando mais fichas nos modelos híbridos, que combinam motores elétrico e a combustão.

No Brasil, o carro flex (que roda com álcool ou gasolina) está dando conta do recado, ao menos por enquanto, afirma Manuchakian, da GM. Ele acredita que, em quatro a cinco anos, o carro elétrico poderá ser introduzido no País. Mas motocicletas movidas a energia elétrica já circulam em várias partes. Um posto de recarregamento foi instalado recentemente no Rio pela BR Distribuidora.

Chegada ao Brasil só está prevista para 2020
Mas em 5 anos venda do carro elétrico pode representar 30% dos novos, dizem montadoras

A previsão de algumas montadoras é de que o carro elétrico só chegará ao Brasil, em maior escala, a partir de 2020. Uma vez disponível, porém, poderá representar 30% da venda de carros novos num prazo de cinco anos. Até lá, o uso será restrito a nichos específicos, como os modelos da Fiat usados por concessionárias de energia.

Em parceria com a Itaipu Binacional, a Fiat brasileira criou tecnologia usada atualmente em 21 modelos Palio e Palio Weekend movidos a eletricidade. Até julho de 2010, serão 50 veículos, informa Leonardo Cavaliere, supervisor de inovação e veículos especiais da Fiat.

O objetivo é promover uma evolução no desempenho do veículo para que futuramente a tecnologia possa ser usada em grande escala, diz Cavaliere. O kit elétrico usado nos veículos, composto de motor, bateria e conversor de energia, é importado da Suíça, o que encarece o produto. Um Palio Weekend normal custa cerca de R$ 45 mil, enquanto o elétrico não sai por menos de R$ 145 mil.

O modelo da Fiat é abastecido em tomadas de 100 ou 220 volts. Oito horas de carga são suficientes para rodar 120 quilômetros. O custo de um quilômetro rodado com gasolina é de R$ 0,25. Com álcool, custa R$ 0,18 e, com energia, R$ 0,05.

Para Cavalieri, se 5% da frota de carros novos for movida a eletricidade, o País não terá nenhum risco de falta de energia, principalmente se a recarga for feita no período noturno.

Eude Oliveira, especialista na área de eletroeletrônica da Ford do Brasil, diz que a filial acompanha os trabalhos de desenvolvimento da matriz, inclusive enviando técnicos aos EUA. "Todos os estudos envolvendo tecnologias alternativas têm nossa parceria", diz ele, que também coordena estudos para avaliar se são ou não viáveis de aplicação aqui, em parte por causa do custo.

Oliveira acredita que a mudança na forma de abastecer o automóvel é grande no caso dos consumidores americanos, acostumados ao uso irrestrito da gasolina. Já os brasileiros, em sua opinião, estão mais preparados porque o País tem uma diversidade maior ao dispor dos modelos flex - abastecidos com álcool ou gasolina -, do gás natural e do diesel e biodiesel, nos casos dos veículos pesados.

Na opinião do diretor da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e responsável pelo grupo de estudos de veículos elétricos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Luiz Artur Pecorelli Peres, o Brasil precisa mudar sua legislação automotiva para viabilizar o carro elétrico.

Esse tipo de veículo é classificado como "outros", o que impõe alíquota de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) maior do que a aplicada para modelos a álcool, gasolina e gás. A própria Uerj prepara proposta a ser levada ao governo para mudar "essa legislação obsoleta", diz. Peres defende incentivos para esse tipo de veículo, a exemplo do que ocorre em vários países. "O Brasil tem condições de desenvolver veículos elétricos próprios e até exportar, sem depender da tecnologia de fora", afirma Peres, que estuda o tema há 20 anos.

OESP, 09/08/2009, Economia, p. B8

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