Estado de S. Paulo, p.A10 (São Paulo-SP)
Autor: JOHN, Liana
04 de Mai de 2002
Funcionário do órgão manda carta aos EUA, sem permissão, pedindo liberação da madeira
Fiscais do Ibama apreendem mogno: documento iria causar liberação de madeira apreendida
Sem autoridade formal, autorização ou conhecimento de sua chefia, o funcionário Randolf Zachow, do terceiro escalão no Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), escreveu uma longa carta à Convenção Internacional sobre Comércio de Espécies Ameaçadas (Cites, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, em papel timbrado do Ministério do Meio Ambiente (MMA), confirmando a procedência legal do mogno brasileiro, retido em portos internacionais desde o início do ano, e pedindo a liberação da madeira. A carta foi enviada, por fax, ao chefe da Divisão de Manejo do governo americano, Peter Thomas, no dia 28.
As autoridades Cites são funcionários governamentais que respondem, em cada país, pelos documentos relativos ao comércio de fauna e flora ameaçada de extinção. Zachow excedeu sua função ao enviar a carta. Nos EUA, com base nas informações de Zachow, Peter Thomas autorizou a liberação do mogno e encaminhou o documento a seus pares na Europa, movimentando também as autoridades responsáveis pela retenção do mogno em alguns portos europeus.
Ao tomar conhecimento do teor da carta, ontem, por meio do Greenpeace europeu, Paulo Adário, coordenador da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil, entrou em contato com o ministério e o Ibama e escreveu uma carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
Proibição - Há menos de um mês, num pronunciamento considerado histórico na luta contra a exploração ilegal de madeira, Fernando Henrique havia dado sua palavra sobre a determinação de manter a proibição da exploração do mogno. A proibição deveria perdurar até que terminassem as investigações sobre a legalidade da madeira extraída na Amazônia. A suspeita é de que o mogno tenha sido retirado de áreas sem planos de manejo e roubado de terras indígenas ou unidades de conservação.
Diante da notícia, o governo federal reagiu de imediato, enviando nova mensagem aos Estados Unidos e Europa, desautorizando a carta de Zachow e pedindo a retenção do mogno. "Foi horrível, um incidente difícil de superar:
construir uma imagem custa esforço", comentou Rômulo Melo, presidente do Ibama.
O funcionário Randolf Zachow foi exonerado do cargo que ocupava, na coordenação geral de florestas. O presidente do Ibama assumiu pessoalmente a função de autoridade Cites. As investigações sobre a legalidade do mogno prosseguem.
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