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Misterio do Amazonas

CB, Brasil, p.10
21 de jun de 2005

Mistério do Amazonas
Expedição científica tenta identificar a origem do rio brasileiro. Fotos de satélite apontam o Ucayali, no Peru, como nascente. Se confirmada, descoberta acrescentará 550 quilômetros de extensão ao corredor de água

O maior rio do planeta em volume dágua será minuciosamente investigado. Uma expedição científica vai percorrer o Amazonas da sua nascente, no Peru, até a foz, nas águas salgadas do Atlântico, no Pará. A equipe, formada por 25 pesquisadores de seis países sul-americanos, vai coletar dados para atualizar as informações geográficas do rio mais misterioso e fascinante da Amazônia. A expedição sairá em comboio em outubro, de Brasília. No entanto, um grupo de pesquisadores viajará amanhã até o Peru para identificar onde é, de fato, a nascente do rio que, ao lado do lendário Mississipi, é o corredor de água mais enigmático do planeta.

Os livros de Geografia dizem que a primeira gota dágua que alimenta o Amazonas vem do rio peruano Maranhão. Acontece que fotos tiradas por satélites recentemente informaram à expedição que a verdadeira nascente do rio continua no Peru, mas sai de um rio chamado Ucayali.

A mudança da nascente do Amazonas parece não alterar nada. É engano. Com a nova descoberta, o rio mais importante do Brasil poderá ficar ainda maior no mapa e ultrapassar em extensão o Nilo, que é o maior do mudo com seus 6.650 quilômetros. Oficialmente, o Amazonas tem 5.825 quilômetros. A diferença dos 550 quilômetros que faltariam para o rio brasileiro bater o rio egípcio em extensão seria acrescentada pelas imagens que estão sendo captadas por satélites e analisadas pelos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A única medição feita no Amazonas ocorreu na década de 40 e foi feita de modo arcaico, como tudo nessa época. Foi usado o mapa oficial do Brasil e, sobre o risco do rio, os cartógrafos passaram um pequeno aparelho com uma roldana semelhante a um brinquedo”, revela o geólogo Paulo Roberto Martini, do Inpe, um dos coordenadores da expedição. Dessa vez, os órgãos oficiais estão fazendo uma medição usando aparelhos de última geração, que vão dar o tamanho exato do Amazonas.

Mas as medidas do rio não são o ponto mais importante da expedição. Os pesquisadores vão tentar desvendar vários mistérios que cercam o Amazonas. Um deles é responder a uma questão científica: como e por que os sedimentos das regiões montanhosas dos Andes, no Peru, são arrastados pelo rio até o Atlântico. No final do ano passado, cientistas norte-americanos encontraram partes dessas montanhas até na costa do Texas.

Pioneirismo
Apoiada pelo Banco da Amazônia e outras oito instituições, a Expedição Andes-Amazonas é uma missão inédita na América do Sul. Vai percorrer, além do Brasil, a Colômbia, Peru, Bolívia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname durante 135 dias. No comboio, haverá um carro-laboratório com capacidade de fazer análises da água e de sedimentos do rio. Na verdade, as pesquisas sobre o rio já vêm sendo realizadas há anos. Agora, vamos in loco conferi-las”, ressalta o coordenador-geral da expedição, Janary Alves de Moraes, que é presidente da Organização Sócioambiental e Expedições Científicas.

Para Moraes, o que se sabe do Amazonas até agora é que ele é um rio de águas claras da foz e em todo o território peruano, escuras tão logo entra em terras nacionais e barrenta depois que passa por Manaus. É navegável em toda sua extensão e é considerado fundamental para a integração regional do Norte do país. Alguns especialistas apontam esse corredor como fundamental para o desenvolvimento da Amazônia.

No Pará, o rio assume um papel violento. A correnteza forte aumenta cada vez que as águas ficam mais próximas do oceano. A cem quilômetros da foz, a correnteza arranca árvores gigantes da floresta pela raiz e a arrasta ao encontro do Atlântico. Para navegar no Amazonas, os navios têm de ter cascos de aço com lâminas afiadas na parte da frente para cortar os troncos de árvores que o rio carrega”, conta o capitão Elias Mello, da Capitania dos Portos de Belém.

O número
5.825 Km é a extensão do rio Amazonas, como o conhecemos hoje, o que o caracteriza como o maior leito em volume de água do planeta

Influência no planeta

Dois satélites norte-americanos atestaram que a vazão do rio Amazonas influencia de modo marcante o campo gravitacional da Terra. A descoberta só foi possível porque os satélites captam imagens e informações a apenas 500 quilômetros de altitude da superfície.

Segundo pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a gravidade é uma das forças mais fracas e mais difíceis de serem medidas da natureza. É mais fraca que a eletricidade ou o magnetismo”, explica o físico da Universidade de Campinas (Unicamp), Paulo Santos Mourão.

A vazão do Amazonas é considerada colossal por cientistas por conta de sua força. Como o rio nasce no alto de montanhas, nos Andes (Peru), as águas vão ganhando força ao longo do percurso. Um pouco antes de chegar à foz, no Atlântico, a correnteza arrasta árvores de mais de 30 metros de altura, que estão no leito do rio. A imagem dos barrancos de areia que despencam na cidade de Óbidos (PA) viraram ponto turístico, assim como a pororoca — encontro violento das águas doces do Amazonas com o Atlântico. Nessa vazão, o rio chega a despejar 200 mil metros cúbicos de água no oceano. Em três minutos e meio, esse volume de água é suficiente para encher toda a Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.

Variação
Para entender como a vazão de um rio influencia a gravidade da Terra, Paulo Mourão explica que a gravidade é a força física invisível que faz os corpos se atraírem graças a suas massas. Se a Terra fosse idêntica do pólo Sul ao pólo Norte, o campo gravitacional seria o mesmo em toda parte. Mas a Terra é achatada, não é uma esfera perfeita, e está repleta de água em movimento”, ressalta o cientista. Isso faz com que o campo gravitacional varie ao longo da superfície do planeta.

Os dois satélites que foram lançados pela agência espacial americana, a Nasa, em março de 2002, fizeram uma medição precisa do campo gravitacional por cinco anos, especialmente ao longo do Amazonas. Uma curiosidade: em 30 dias, os dois satélites obtiveram mais dados do que as pesquisas realizadas nos últimos 30 anos.

Além da gravidade da Terra, os satélites comprovaram que a vazão do Amazonas também altera o clima do planeta, como já havia sido divulgado antes. Os dois satélites, que são gêmeos, viajam a exatos 220km um do outro. O primeiro sente o efeito de uma área de gravidade mais forte e se afasta do segundo. A mudança é captada por um acelerômetro, batizado Superstar, capaz de medir variações na distância menores do que o diâmetro de um fio de cabelo.(UC)

CB, 21/06/2005, Brasil, p.10

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