O Globo, Opinião, p. 6
03 de Mai de 2007
Miopia global
Os representantes da China nos debates de Bangcoc sobre o terceiro relatório do IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas, têm toda a razão quando afirmam que os países desenvolvidos são responsáveis pela maior parte da emissão dos gases do efeito estufa desde a Revolução Industrial - por mais que seja duvidoso o percentual que apontam, de 75%.
O problema é o objetivo evidente dessa acusação de rejeitar qualquer parcela de responsabilidade própria, quando a China, segundo prevêem os especialistas, até o fim deste ano deve tornar-se o maior poluidor do mundo. O Brasil, que pelas estimativas é o quarto maior emissor, também não deveria imaginar que há vantagem real em formar com chineses, indianos e mexicanos uma frente para lançar sobre os países industrializados uma parcela maior de culpa histórica.
O sumário que o IPCC deve apresentar amanhã aborda as medidas que podem ser tomadas para conter as emissões e amenizar o aquecimento global. É, afinal, o que realmente importa, bem mais do que criticar, por exemplo, a devastação, indiscutível, feita pelo Primeiro Mundo em suas florestas numa época em que não se tinha idéia dos problemas que o clima mundial viria a sofrer. As conclusões centrais do IPCC, que deveriam concentrar as atenções, são que as emissões vão aumentar pelo menos 40% até 2030, que é preciso agir urgentemente e que estabilizar o teor de gases na atmosfera sairia mais barato, em termos do PIB mundial, do que permitir que a deterioração prossiga.
A China, que rejeita limitações a seus planos de expansão, recorre ao velho argumento de que as incertezas ainda são muito grandes; isso ao mesmo tempo em que cientistas americanos anunciam que a cobertura de gelo no Oceano Ártico está se derretendo em ritmo muito mais intenso do que se supunha, e poderá desaparecer em menos de 20 anos - 30 antes do previsto pelo IPCC.
Dados assim, apontando para a gravidade crescente do problema, acumulam-se com impressionante rapidez. Deveriam constituir a motivação para uma união planetária de esforços pela redução da emissão de gases. Trocar acusações ou mostrar ceticismo frente a um trabalho de mais de dois mil cientistas, por motivação política, não são alternativas responsáveis.
O Globo, 03/05/2007, Opinião, p. 6
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