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Milhas e milhas distante

Revista Ser Médico nº. 38, jan-mar 2007, p. 12-14
31 de mar de 2007

Milhas e milhas distante
Grande distância entre comunidades é a maior barreira para garantir assistência médica à população indígena da região de São Gabriel da Cachoeira

Longe da Amazônia dos turistas com dólares e euros em resorts e pousadas, há uma região difusa onde populações indígenas lutam contra a falta de recursos para continuar a existir e manter suas tradições. Maior Estado brasileiro e berço de 72 etnias indígenas que somam aproximadamente 130 mil habitantes, o Amazonas é também o mais carente em assistência à saúde. O grande problema da região é a transposição das distâncias. O menor município do Amazonas abrange uma área maior do que os Estados de Sergipe e Espírito Santo juntos. Já o maior tem extensão superior a Minas Gerais. "Os municípios são verdadeiras ilhas, não há estradas entre eles", afirma Francisco Aire, coordenador regional da Fundação Nacional da Saúde (Funasa) no Amazonas. O transporte fluvial representa 98% do total na Amazônia, enquanto o aéreo não passa de 1,5% e o terrestre, 0,5%.

Devido aos obstáculos geográficos, a locomoção para o atendimento médico a determinadas comunidades pode demorar mais de 10 dias de barco ou canoa. Em geral, a assistência médica oferecida limita-se à básica, principalmente a preventiva. Quando os índios necessitam de atendimento secundário ou terciário, são transferidos a centros especializados em municípios próximos. As doenças mais comuns entre eles são as sexualmente transmissíveis, malária e tuberculose. Na média e alta complexibilidades, predominam as oncológicas, em especial o câncer de útero entre mulheres. "O Amazonas precisa de médicos", afirma Aire.

Fundado há uma década, o Programa Rio Negro, da Ong Instituto Socioambiental, é um exemplo de iniciativa filantrópica nesse pedaço da Amazônia. Seu objetivo a longo prazo é criar condições para o desenvolvimento sustentável na bacia do alto e médio Rio Negro, região entre Brasil, Colômbia e Venezuela. Na fase inicial, o projeto mapeou as tribos da região, o que permitiu a demarcação de áreas indígenas. Dentre as demarcações, destaca-se a de cinco terras indígenas contíguas, que somam 10,6 milhões de hectares. As áreas contíguas são uma base importante para a implantação de programas em escala regional, integrados às demandas das comunidades, possibilitando o planejamento de um corredor de sustentabilidade, a segurança alimentar, geração de renda, educação escolar, saúde e afirmação cultural.

"A integração do indígena ao seu habitat é fundamental para evitar o êxodo às cidades", afirma o antropólogo Geraldo Andrello, um dos coordenadores do Projeto Rio Negro. Ele também aponta as grandes distâncias como a maior dificuldade para o trabalho. "É uma área enorme, de transporte extremamente difícil. Manter equipes por longos períodos nas aldeias é uma tarefa complicada".

Atualmente, a Socioambiental desenvolve programas como a criação de escolas indígenas e de manejo sustentável em 25 comunidades. A Ong tem uma base em São Gabriel da Cachoeira, município com mais de 90% da população formada por indíos. Cerca de 80% da área de 12 mil quilômetros quadrados do município, são reservas que abrigam 22 povos indígenas. Por meio de um projeto da Ong, foram implantadas estações de piscicultura em rios da região. Um outro programa viabiliza a venda de cestas e balaios de arumã produzidos pelos índios baniwa.

Em 2002, a Lei Municipal 145 co-oficializou as línguas Nheengatu, Tukano e Baniwa em São Gabriel da Cachoeira, estabelecendo o prazo de cinco anos para que as repartições públicas passassem a atender o público na língua oficial e nas três co-oficiais, oralmente e por escrito. Algumas escolas trabalham em regime diferencial de ensino, que prioriza a língua e os costumes indígenas até a quarta série do primeiro grau.
(Colaborou, Thulio Pompeu)

Cirurgias na selva

Fundada há quatro anos pelo ortopedista Ricardo Afonso Ferreira, a Ong Expedicionários da Saúde faz viagens, duas vezes ao ano, pela bacia do Rio Negro para realizar cirurgias na região. Na última, em novembro do ano passado, foram realizados mais de 600 atendimentos e 135 cirurgias, trabalho que envolveu aproximadamente 20 profissionais entre médicos e enfermeiros, além de documentarista e fotógrafo. O centro cirúrgico, equipado com gerador de energia e ar condicionado, é montado no meio da selva, preferencialmente em aldeias próximas à calha de rios para facilitar o deslocamento das populações. A equipe realiza pequenas cirurgias, principalmente de catarata e hérnia, encaminhando os casos mais complicados a hospitais da região. "Antes, os índios tinham que percorrer grandes distâncias até alguma cidade da região para conseguir realizar uma cirurgia e às vezes nem eram operados", conta Ricardo. A entidade cadastra médicos e residentes interessados em se tornar voluntários.
Fotos: Beto Ricardo/ISA e Expedicionários da Saúde (Arquivo)

Revista Ser Médico no. 38, jan-mar 2007, p. 12-14

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