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Metas de países indicam aquecimento de até 3,5oC no planeta

OESP, Metrópole, p. A21
02 de Out de 2015

Metas de países indicam aquecimento de até 3,5oC no planeta
Análises para Conferência do Clima mostram que redução de gases está longe da meta de 2oC até 2100; entraves são China e Índia

Giovana Girardi - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O plano era conter o aumento da temperatura do planeta em 2oC, mas as propostas de redução das emissões de gases de efeito estufa apresentadas por mais de uma centena de países até esta quinta-feira, 1o colocam a Terra no rumo de algo entre 2,7oC a 3,5oC, podendo ultrapassar 4oC até 2100.
Essa é a análise que dois grupos de pesquisa da Europa e dos Estados Unidos fizeram com base nas chamadas INDCs, conjunto de compromissos que os 195 países integrantes da Convenção do Clima das Nações Unidas foram convidados a apresentar como contribuição para a conferência que acontece em Paris em dezembro.
O prazo para a entrega desses dados era esta quinta-feira. Até as 23 horas, 120 nações, representando cerca de 85% das emissões do planeta, apresentaram suas metas. O fato de tantos países terem tomado essa atitude é considerado positivo, porque mostra um compromisso de agir para combater o aquecimento global, mas ainda está aquém do necessário para evitar um futuro de mudanças climáticas mais severas. Dependendo do cálculo, pode-se ter uma redução mínima de emissões até 2030.
Justificativa. O "calcanhar de Aquiles" passa a ser China e Índia. A China só tinha dito que vai alcançar o pico de suas emissões daqui a 15 anos. Já a Índia, um dos último países a apresentar sua proposta, se comprometeu ontem a reduzir a intensidade de emissões por PIB em 33% a 35% até 2030, com base nos níveis de 2005.
Isso significa reduzir a quantidade de CO2 que é emitida por unidade de PIB gerada. O país se comprometeu também a absorver de 2,5 Gt a 3 Gt de CO2 equivalente através de florestas adicionais. Mas analisando outros dados que o país menciona no documento, como um aumento da população de 1,2 bilhão de pessoas em 2014 para 1,5 bilhão em 2015, e um aumento do PIB per capita de US$ 1.408 para US$ 4.205, as emissões podem ser muito mais altas que as atuais.
A conversão das metas em temperatura foi feita pelo programa Climate Action Tracker, composto por instituições europeias como o Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, e pelo Climate Interactive, com pesquisadores da Escola Sloan de Administração do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
O primeiro chegou ao valor de 2,7oC, com base na análise das metas apresentadas por 19 países, que representam 71% das emissões do planeta. Eles fizeram o cálculo antes de a Índia (que aumenta a representatividade para 84% das emissões) apresentar seus dados e trabalharam com uma estimativa de que a meta do país seria reduzir entre 35% e 45% a intensidade de carbono por PIB.
Já o Climate Interactive estima que o aumento da temperatura pode ser de 3,5oC, com uma margem de incerteza que vai de 2,1 oC a 4,6oC.
Impactos. "Um mundo acima de 3oC pode ter extinção de no mínimo 15% de todas as espécies vivas do planeta. Acima de 3,5oC cria enormes dificuldades para a agricultura de cereais no Brasil. Os extremos vão ocorrer com mais frequência e talvez com mais intensidade. É uma grande mudança climática", comenta Carlos Nobre, um dos principais climatologistas do Brasil.
"O que hoje ocorre a cada 100 anos, como a seca que atingiu o Sudeste do País em 2014, num futuro mais quente, vai ser mais comum. Não sabemos a frequência de repetição, mas eles vão se alternar com mais rapidez para os dois lados, tanto mais secas quanto mais chuvas, e vamos ter de aprender a lidar com isso, a infraestrutura terá de se adaptar a maior variabilidade dos extremos", complementa o pesquisador.
Além disso, com cerca de 4oC, o nível do mar pode subir até 1 metro. Já subiu 20 centímetros desde a Revolução Industrial. "Grandes cidades costeiras do Brasil, onde vivem milhares de pessoas estão de 1 a 3 metros do nível do mar. A zona oeste de Jacarepaguá, no Rio, por exemplo, está entre 0,5 e 1 metros do nível do mar", continua Nobre.
Ele lembra que vários rios da baixada fluminense também estão praticamente no nível do mar, e as várzeas desses rios serão inundadas. "Hoje já temos inundações por conta dessas condições. Mas se o nível do mar estiver 1 metro mais alto, será muito pior", explica.

OESP, 02/10/2015, Metrópole, p. A21

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