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Mesmo proibidas, queimadas se alastram em MT

OESP, Geral, p.A14
12 de Ago de 2004

Mesmo proibidas, queimadas se alastram em MT
Como no ano passado, Estado lidera o ranking da devastação na Amazônia
Mato Grosso está mostrando ser mesmo um reincidente compulsivo no que diz respeito às queimadas. Depois de liderar o País em número de focos de calor e registrar um aumento de 133% no total de áreas desmatadas no ano passado, o Estado continua a comandar, disparadamente, o ranking do fogo na Amazônia.
Isso apesar das queimadas estarem proibidas no Estado entre 15 de julho e 15 de setembro.
Desde o início do ano, Mato Grosso concentrou quase 30 mil (55,5%) dos 53.785 focos de calor detectados pelo sistema de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que registra as queimadas em tempo real. Uma visita ao site do programa mostra que as chamas continuam a queimar no Estado, apesar da proibição em vigor. Anteontem, segundo a última leitura do satélite NOAA-12, havia 614 focos de calor em Mato Grosso - perdendo apenas para o Pará, onde foram registrados 995 focos.
"É tudo ilegal", diz o pesquisador Alberto Setzer, coordenador de programa de monitoramento de queimadas do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe. Além da proibição atual por decreto, segundo ele, o uso do fogo em vegetação é proibido pelo Código Florestal, a não ser em casos de autorização expressa pelo Ibama. E o cenário, na verdade, é ainda pior. Os satélites, explica Setzer, só conseguem registrar entre 60% e 70% das queimadas. Os instrumentos não têm como ver através de nuvens, e os focos de calor muitas vezes são muitos pequenos - possuem menos de 30 metros de frente - ou são extintos antes da passagem do satélite. "É preciso ter uma chama para fazer a detecção", explica Setzer.
Fumaça - Outros Estados também estão com a ficha suja nas fotos de satélite. Em Rondônia, a fumaça tem deixado o céu cinzento e o número de casos de crianças com problemas respiratórios aumentou. Em Mato Grosso do Sul, as queimadas tiveram aumento de 18,1%, principalmente na região pantaneira, afetando os animais silvestres. Já o Pará registrou, em apenas uma semana, 4.060 focos de calor em suas florestas, principalmente nas regiões sul e sudoeste do Estado, onde a fiscalização dos órgãos ambientais ainda é deficiente no combate a essa prática.
Os agricultores de Rondônia estão queimando sem autorização, já que o calendário que especifica onde se pode atear fogo só será divulgado pelo Ibama em outubro.
Na Região Norte, o produtor queima por razões econômicas. É bem mais barato do que comprar adubo para tratar o solo, mas existem os agricultores que se dizem vítimas de acidentes. É o caso de Elocir Ribeiro da Silva, de 45 anos, dono de uma área de terra a 60 quilômetros de Porto Velho, que teve grande parte de seu lote de 84 hectares queimado na segunda-feira.
"Cheguei em casa e o fogo, iniciado na área de meu vizinho, estava queimando meu lote e uma carreta carregada de papel, estacionada na BR-364. O motorista ainda tentou remover o caminhão, mas não teve jeito. Tudo virou cinzas", conta.
Já o pequeno pecuarista Manoel Araújo Guimarães, de 36 anos, que tem um lote a 38 quilômetros da capital, disse que o fogo é a forma mais barata para limpar o pasto. "Às vezes não produzo nem para o sustento da família. Tenho de economizar", explica.
Enquanto isso, no hospital público infantil Cosme e Damião, 50 crianças são atendidas diariamente com problemas respiratórios. O número de pacientes no hospital costuma aumentar depois que as queimadas são oficialmente liberadas pelo Ibama.
Aumento - Em Mato Grosso do Sul, a biodiversidade do Pantanal é a mais afetada. Ninhos, ovos e filhotes de aves são as principais vítimas do fogo. A informação é do Ibama em Campo Grande, baseado em dados levantados pelo satélite NOAA. São 1.433 ocorrências do gênero registradas nos primeiros seis meses deste ano, ante 1.213 verificadas no mesmo período do ano passado, apenas nas áreas rurais.
O Ibama defende que as queimadas sejam realizadas de forma controlada no Estado. Há uma série de procedimentos, como a construção de aceiros - pequenas trilhas sem vegetação - para evitar que as chamas ganhem áreas fora daquelas onde se deseja queimar.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também ajuda nesse trabalho, pesquisando alternativas. São formadas brigadas de voluntários no interior, com objetivo de ampliar a rede de atendimento a queimadas de grandes proporções, como a ocorrida em 2001 na Serra da Bodoquena, em localidades de difícil acesso e distantes de unidades com estrutura de combate a incêndios. Florestas - No ranking nacional de queimadas, o Pará está em terceiro lugar, perdendo para Rondônia e Mato Grosso. Em Cumaru do Norte, fiscais do Ibama investigam denúncias de moradores da região sobre incêndios numa área de mata fechada equivalente a 6 mil campos de futebol. O local é de difícil acesso, sendo necessário o uso de helicópteros.
Entre os municípios de Ourilândia do Norte, Cumaru do Norte, Água Azul e São Félix do Xingu, onde se concentram grandes fazendas de gado, os fazendeiros costumam promover a derrubada e queima de árvores para a formação de pasto.
De acordo com a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, em Belém, entre o dia 30 e segunda-feira, só em São Félix do Xingu foram registrados por satélite 1.013 focos de calor. A região entre os municípios de Itaituba e Novo Progresso, com 881 focos, e Altamira, com 554, ficaram em segundo e terceiro lugares.
O Pará, mesmo com 121 milhões de hectares de terras, dispõe apenas de 72 fiscais para cuidar de desmatamento, queimadas, extração ilegal de madeira e tráfico de animais silvestres. (Nilton Salina, João Naves de Oliveira, Carlos Mendes e Herton Escobar)

OESP, 12/08/2004, p. A14

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