O Globo, Opinião, p. 6
16 de Jun de 2009
Via mercado
A primeira leitura da notícia de que os supermercados Carrefour, francês; WalMart, americano; e o nacional Pão de Açúcar decidiram alijar da lista de fornecedores frigoríficos que se abastecem de gado oriundo de áreas de desmatamento pode dar a entender que se trata de golpe de marketing, pela simpatia da causa preservacionista. Mas não importa, afinal nenhuma organização procura contrariar a clientela, lei básica de sobrevivência. O que deve ser destacado é o efeito positivo da decisão, tomada por três grandes organizações do varejo ligadas direta ou indiretamente a grupos no exterior. A medida é sem dúvida um fator de inibição na tomada da floresta, sem cuidados e controle, por atividades agropecuárias -, e serve de exemplo a outras empresas.
As três empresas têm atuação global - há um sócio francês no Pão de Açúcar - e recebem a influência cada vez mais forte no exterior de organizações atentas aos efeitos da devastação da Amazônia sobre o aquecimento. Na prática, o boicote ao gado de áreas de desmatamento ilegal coloca em ação um instrumento de mercado na batalha pela exploração ordenada da floresta. Algo semelhante já ocorreu por meio de um acordo assinado entre associações da indústria de óleos vegetais e de exportadores de cereais com algumas ONGs, para conter o desmatamento causado pelo avanço da soja na região. Mas o gado é causa mais efetiva de devastações do que a soja, pois o solo amazônico é menos propício à oleaginosa. As confederações de agricultura, pecuária e de exportadores de carne, em vez de resistirem à inexorável e crescente pressão por boicote à carne de origem não certificada, deveriam se apressar para evitar maiores dissabores ao próprio país. Líder mundial nesse mercado, o Brasil deslocou fortes concorrentes, como Austrália, Argentina, Estados Unidos e outros. Não pode, então, ficar vulnerável ao risco real de enfrentar barreiras em países importadores, erguidas contra produtos relacionados à destruição da Amazônia. Estimular forças de mercado na proteção do meio ambiente é fórmula bem mais eficiente do que apenas vigilância e punição, também necessárias - haja vista a lentidão da Justiça e a extensão da Amazônia.
Passou o tempo do discurso míope de que os países desenvolvidos que tratassem de conter sozinhos as emissões, para não impedir a industrialização das economias emergentes. A questão agora é outra: o problema do aquecimento é de todos, e se o Brasil não avançar em direção a um modelo autossustentado de desenvolvimento e cuidar para valer da Amazônia enfrentará sérios problemas até para manter mercados.
O Globo, 16/06/2009, Opinião, p. 6
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