O Globo, Ciência, p. 27
02 de Mai de 2009
Memória da Amazônia
Biografia de Emilio Goeldi destaca estudos pioneiros sobre clima e biodiversidade da floresta tropical
Carlos Albuquerque
Ventura é destino, sorte, acaso, risco, perigo e felicidade. Todos termos que se aplicam à trajetória do suíço Emilio Goeldi (1859-1917). Personagem ambiental relativamente pouco conhecido no Brasil, ele recebe, enfim, a merecida atenção, quando se celebram os 150 anos do seu nascimento, com uma biografia que relata sua passagem pelo país, entre 1884 e 1907. Assinado pelo historiador Nelson Sanjad, o livro revela o perfil de um pioneiro no estudo da biodiversidade e do clima da Amazônia, além de precursor nas pesquisas sobre insetos transmissores de doenças.
Abordando também, em doses menores, temas como xenofobia, racismo e perseguição política, "Emilio Goeldi: a ventura de um naturalista entre a Europa e o Brasil" é um retrato da ciência no país, durante um importante período de transição na forma de abordá-la.
- Goeldi foi um cientista de transição, entre o naturalista do século XIX e o especialista do século XX. Ele tinha características dos dois - conta Sanjad. - Goeldi fez trabalhos aprofundados, mas sempre demonstrou também um interesse geral pela ciência, escrevendo sobre arqueologia, antropologia, etnologia e clima. Além disso, por causa dos seus pioneiros trabalhos sobre biodiversidade, praticamente colocou a Amazônia no circuito científico mundial.
Contribuição para a agricultura
Goeldi veio para o Brasil em 1884. No Rio, sua primeira parada, trabalhou no Museu Nacional. Depois de um breve período em Teresópolis, atuando num frustrado projeto com imigrantes suíços, se transferiu para Belém, onde dirigiu o até então precário Museu Paraense, transformando-o numa das mais produtivas instituições científicas de sua época. Não por acaso, o museu hoje se chama Museu Paraense Emilio Goeldi
- Por ser um grande entusiasta da ciência e também um divulgador da sua prática, ele deixou marcas profundas em todos os lugares por onde passou no Brasil - assegura o historiador.
Durante os seis anos que viveu no Rio, Goeldi trabalhou na área de zoologia do Museu Nacional.
Ali, conta Sanjad, ele obteve respeito internacional com um estudo sobre doenças que atacavam os cafezais do Vale do Paraíba.
- Era uma praga que estava destruindo os cafezais no norte do estado, região mais tradicional desse cultivo. Publicado no exterior, aquele trabalho abriu uma nova área de pesquisa.
No Rio, também publicou uma monografia sobre o clima no estado, que é considerada uma referência até hoje.
- Ele constatou que não existiam muitos dados sobre clima que pudessem subsidiar suas pesquisas. Por isso, foi atrás dessas informações no Observatório Nacional, onde conseguiu medições sobre temperatura, pressão etc.
Seu trabalho no local, porém, foi interrompido bruscamente com a Proclamação da República, após a qual Goeldi e outros cientistas estrangeiros foram demitidos.
- Havia uma xenofobia muito grande entre os grupos republicanos - diz Sanjad.
Entre a saída do Rio e a chegada a Belém, a ventura de Goeldi teve um hiato, em um trabalho inusitado em Teresópolis.
- Quando foi demitido, Goeldi ficou em apuros, já que tinha se casado e estava com um filho pequeno. A convite do sogro, tentou fazer parte de um projeto de colonização, que visava a trazer imigrantes suíços para a região. Mas o projeto deu errado. Não havia estrutura para receber aquelas famílias e Goeldi estava mais interessado em seguir com suas pesquisas do que dar assistência aos imigrantes.
Foi em meio a essa crise pessoal, destaca Sanjad, que Goeldi recebeu, em boa hora, o convite para se mudar para Belém e reestruturar o Museu Paraense.
- Até a chegada dele, o museu se resumia a uma salinha dentro de uma escola. Não havia corpo de pesquisadores e as coleções eram muito pequenas. A coleção de aves, por exemplo, tinha cerca de 80 exemplares. No final da sua gestão, tinha mais de dez mil aves.
Para fazer a instituição levantar voo, Goeldi contou, ironicamente, com a ajuda da mesma estrutura política que o fez sair do Rio.
- Com a República, Lauro Sodré se tornou o primeiro governador do Pará. E ele apostou no trabalho de Goeldi e deu recursos para o museu - explica Sanjad.
Desbravador da mata e seus bichos
Trabalhos sobre fauna e flora abriram caminho para viajantes e cientistas
Foi no museu que hoje leva o seu nome que Emilio Goeldi fez as pesquisas que chamaram a atenção do mundo sobre o clima e a biodiversidade da Amazônia. Com mais dinheiro em caixa, ele pode construir um prédio para a instituição e, finalmente, levar seus estudos adiante.
- Ele começou a reunir dados de viajantes e naturalistas, e propôs uma agenda científica para o museu, que se mantém até hoje. Goeldi começou a fazer um programa de expedições e coletas na Amazônia, um trabalho gigantesco. Ele varreu a região, fazendo coletas de animais, plantas e fósseis - diz Nelson Sanjad.
Segundo o historiador, graças a Goeldi coleções foram organizadas e se criou o primeiro catálogo de aves da região. E como Belém não tinha um observatório para o clima, Goeldi fundou um.
Além disso, ele se associou a Carlos Chagas e Oswaldo Cruz no estudo sobre insetos transmissores de doenças.
- O resultado foi que o museu virou uma referência para pesquisadores e viajantes com interesse na Amazônia. E o trabalho de Goeldi repercutiu no exterior - diz Sanjad.
Enquanto dirigia o museu, Goeldi fez importantes descobertas arqueológicas na região ao sul do Amapá, coletando urnas funerárias com restos de integrantes de etnias indígenas, como a cunani.
- O curioso é que, após essa descoberta, ele foi colaborar com especialistas da Alemanha, porque achava que a antropologia discutida no Brasil naquela época era marcada pela questão racial e ele rejeitava isso. Os índios eram vistos como grupos de segunda
categoria, que deveriam ser tutelados, enquanto Goeldi defendia a preservação da sua cultura e identidade. Com isso, causou um corte na discussão racial no país.
Em 1907, cansado e com a saúde abalada após pegar diversas vezes malária, Goeldi voltou à Suíça, vinculando-se à Universidade de Berna, onde ficou até o fim da vida. Porém, nunca esqueceu o Brasil.
- De volta ao seu país, Goeldi trabalhou com embrionárias pesquisas sobre genética e evolução, publicando também um livro sobre a fauna da Suíça.
Mas ele sabia que aquele material era bem inferior ao do Brasil - frisa Sanjad.
O Globo, 02/05/2009, Ciência, p. 27
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