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Meio ambiente pode afetar futuro do camarão

GM, Rede Gazeta do Brasil, p.B11
12 de dez de 2003

Meio ambiente pode afetar futuro do camarão
Pesquisa encomendada pela entidade dos criadores traz subsídios para implementação de mudanças nas fazendas.

Corrigir os problemas ambientais nas fazendas de criação de camarões no Brasil antes que estes comecem a afetar a produtividade e penetração nos mercados. Eis a recomendação que surge como principal conclusão de uma pesquisa que acaba de ser divulgada em Recife, Pernambuco.

A produção de camarão em confinamento no Nordeste revela um crescimento médio de 50% ao ano. Até o final de 2003, a expectativa da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC) é que a produção atinja 90 mil toneladas, superando em 50% as 60 mil do ano passado.

Na tentativa de avaliar os impactos provocados pela carcinicultura (criação de camarões) aos ecossistemas de sua área de influência, a ABCC patrocinou a pesquisa "Determinação da qualidade dos efluentes de viveiros de camarão marinho no Nordeste". O estudo, que recebeu investimento de R$ 156 mil, foi realizado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com apoio técnico do Institut de Recherche pour lê Développement (IRD), da França, e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O professor da UFPE e coordenador da pesquisa, Alfredo Oliveira, explica que a idéia do estudo foi medir a qualidade dos efluentes resultantes do cultivo de camarão marinho e apontar recomendações em relação à preservação do meio ambiente. "O que fizemos - a grosso modo - foi caracterizar as águas que entram e saem dos viveiros durante o ciclo de produção do camarão, definindo os principais elementos físico-químicos e biológicos que interagem no processo", observa. Segundo Oliveira, países como Tailândia, Filipinas, Coréia, Vietnã, China e Japão já fizeram seus estudos de caracterização.

No Nordeste, a caracterização dos efluentes foi realizada em 12 fazendas de cultivo, localizadas nos seis principais estados produtores da região: Rio Grande do Norte, Ceará, Pernambuco, Bahia, Paraíba e Piauí. No período de um ano, foram analisados parâmetros como oxigênio dissolvido, fósforo total, amônia e sólidos em suspensão. A caracterização dos efluentes tomou como base os parâmetros recomendados pelo "Código de Práticas para uma Carcinicultura Responsável", da Aliança Global de Aqüicultura (GAA).

A pesquisa também comparou a qualidade dos efluentes das fazendas de camarão, com a dos esgotos domésticos sem tratamento e com tratamento primário, e com a dos esgotos da indústria de pescados. "Constatamos que as condições ambientais predominantes nas fazendas analisadas são bem características e diferentes do ambiente de referência utilizado pela GAA em outros lugares do mundo. Por isso, o monitoramento do padrão de qualidade da água deve ser estabelecido de acordo com o ecossistema de cada região produtora", sugere Alfredo Oliveira.

O pesquisador explica que parâmetros como oxigênio, amônia e fósforo dos efluentes das fazendas analisadas ficaram abaixo daqueles sugeridos pela GAA e que dentre os parâmetros analisados, o teor de sólidos em suspensão foi o que chamou mais atenção por ter ficado acima dos valores recomendados. No entanto, o professor ressalta que os altos níveis de sólidos em suspensão são decorrentes de ações anteriores à carcinicultura, uma vez que a água de captação, no ambiente natural já apresenta elevados níveis de sólidos em suspensão. Ele alerta que se não foram eficientemente tratados, o acúmulo de sedimentos orgânicos pode limitar a capacidade de carga dos viveiros, reduzindo a produtividade. Uma das soluções apontadas por Oliveira, no caso dos sólidos em suspensão, é aumentar a profundidade dos canais de captação de água. "Canais mais escavados, com algo entre 1 e 3 metros, seriam mais adequados à geografia brasileira", ensina.

Macroalgas e moluscos

O professor também confirma que o sistema atual de tratamento de efluentes dos viveiros, por meio de bacias de sedimentação, contribui significativamente para a minimização dos níveis de sólidos em suspensão das águas de drenagem dos viveiros. Outra recomendação é reduzir o máximo possível a troca de água ou implementar sistemas de recirculação. "A fim de aproveitar a energia contida na água dos efluentes, uma outra alternativa é desenvolver técnicas eficientes de biotransformação, com uso de macroalgas e moluscos", diz.

Oliveira adianta que essa técnica está em fase de teste em quatro fazendas distribuídas pelo Ceará (1), Rio Grande do Norte (2) e Pernambuco. Segundo ele, a utilização de ostras e macroalgas como biofiltro reduz em 50% a concentração de nitrogênio e fósforo nos canais de drenagem e bacias de sedimentação.

Sustentabilidade

"A não liberação de efluentes diretamente no meio ambiente é um esforço importante para conduzir a atividade a um relacionamento menos conturbado com as entidades ambientais e a opinião pública", afirma o presidente da ABCC, Itamar Rocha. Na avaliação dele, a realização da pesquisa demonstra que o setor está fazendo seu dever de casa. A caracterização dos efluentes nas fazendas de camarão do Nordeste é um passo importante para a definição de estratégias de manejo que assegurem a sustentabilidade e a longevidade dos empreendimentos da carcinicultura marinha.

"Atualmente existe uma forte pressão dos consumidores do primeiro mundo por produtos do setor primário ambientalmente sadio. Por isso, não podemos descartar a possibilidade de tais merca-dos condicionarem a entrada do camarão cultivado em seus países à apresentação de um selo de qualidade, contemplando a conformidade e a qualidade do produto ofertado, alem de uma maior responsabilidade com a conservação ambiental e um compromisso real com o social", alerta Rocha.

O Brasil conta hoje com uma área de 14 mil hectares de viveiros, responsáveis pela produção de 90 mil toneladas de camarão. O país também comemora o maior índice mundial de produtividade. Este ano, a carcinicultura nacional deve atingir 6.500 quilos de camarão por hectare, contra 3.200 quilos da Tailândia - segunda colocada no ranking.

kicker: Água dos tanques de criação tem excesso de material sólido

kicker2: Pode haver rejeição ao produto pelos consumidores europeus

GM, 12-14/12/2003, Rede Gazeta do Brasil, p. B11

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