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Meio ambiente e irracionalidade econômica

CB, Opinião, p. 25
Autor: SILVA, Evaldo Henrique da
14 de Abr de 2007

Meio ambiente e irracionalidade econômica

Evaldo Henrique da Silva
Professor de economia da UFV

O que é racionalidade ou irracionalidade econômica? Quando um indivíduo ou uma empresa procura obter o máximo de satisfação ou de retorno sobre os recursos de que dispõe, dizemos que esse indivíduo ou empresa está sendo racional do ponto de vista econômico. Acontece que essa conduta muitas vezes gera efeitos perversos, ou "externalidades negativas", no jargão dos economistas, sobre outros indivíduos ou empresas (a poluição é um efeito negativo muito citado, assim como comércio de drogas ilícitas). Então, do ponto de vista social, as perdas sofridas por outras pessoas ou empresas podem ser muito maiores do que o ganho individual produzido pela ação que gerou a "externalidade negativa". Em muitos casos, essa busca pelo máximo lucro ou máxima satisfação individual gera perdas generalizadas para todos, tornando irracional o que era aparentemente racional.

Durante séculos, um exército de economistas se empenhou no estudo da relação entre a conduta individualista e o bem-estar social. Para a grande maioria dos economistas, os efeitos benéficos da racionalidade econômica são incomensuravelmente maiores do que os seus malefícios. Além do mais, existe a possibilidade da intervenção governamental sobre as atividades que podem gerar "externalidades negativas".

Pois bem, o planeta caminha quase inexoravelmente para um colapso ambiental. Enquanto isso, as empresas e as pessoas continuam levando adiante a prática cotidiana de agir racionalmente. As empresas, por exemplo, estão sempre fazendo escolhas tecnológicas e lançando produtos que lhe garantam maior competitividade e o melhor retorno possível. Se as tecnologias ecologicamente sustentáveis são vistas como mais vantajosas para os objetivos da firma, então elas serão adotadas, caso contrário, prevalecerá a adoção das tecnologias tradicionais. Os governos federais, por seu turno, continuam cuidando da estabilidade macroeconômica (a exemplo do Brasil) e da segurança nacional (a exemplo dos EUA). Cada qual fazendo sua parte, e o planeta na iminência de um colapso ambiental.

O que pensam os economistas sobre essa questão? Certamente, a maioria dos economistas continua praticando sua fé na racionalidade econômica. Muitos acreditam que a economia salvará o planeta: a energia fóssil está ficando mais cara, os sinais de mercado já foram captados pelos agentes de pesquisa, as tecnologias alternativas estão disponíveis e é crescente o incentivo de mercado para o seu uso. Nos casos mais críticos de agressão ao meio ambiente, deve-se usar a lei.

Isso faz sentido? Se a adoção de tecnologia ecologicamente sustentável fosse um processo simples, creio que os economistas estariam com a razão. O problema é que a adoção dessas tecnologias (assim como o consumo dos produtos os quais elas geram) é um processo complexo e demorado, que implica mudança radical em toda a estrutura produtiva, distributiva e organizacional da empresa (o padrão de consumo também deve mudar radicalmente), o que pode comprometer a base de conhecimento (know how) que sustenta as áreas de negócios dominadas pela empresa.

Esses conhecimentos são formados ao longo da história da empresa, sendo o fator de sucesso empresarial. Normalmente, a adoção de novas tecnologias é feita dentro do domínio de conhecimento das empresas; as tecnologias que provocam a ruptura desses conhecimentos dificilmente serão adotadas.

Parece que estamos vivendo algo semelhante, e talvez muito mais grave, ao que ocorreu na década de 30, durante a grande depressão. Naquela época, apesar de o desemprego ter atingido proporções inimagináveis, os economistas continuavam praticando sua fé no mecanismo de mercado, esperando que a economia saísse automaticamente (sem a intervenção governamental) do fundo do poço. Apenas um economista, J. M. Keynes, na sua obra seminal publicada em 1936, teve a coragem de desafiar o dogmatismo econômico ao demonstrar que a racionalidade econômica, colocada em prática pelas empresas, causa inevitavelmente a depressão econômica.

Devemos continuar pondo fé na crença de que a lógica de mercado salvará o planeta, ou chegou a hora de percebemos a necessidade de uma intervenção direta do governo na geração, adoção e difusão das tecnologias ecologicamente sustentáveis? Acredito que precisamos de um novo Keynes, um Keynes ambientalista. Está ficando cada vez mais claro o fato de que o combate ao aquecimento global deveria ser o foco central das políticas econômicas. Se uma parte dos gastos com o encargo da dívida pública (a exemplo do Brasil) e com a segurança nacional (a exemplo dos EUA) fosse canalizada para financiar os projetos de intervenção governamental na preservação do meio ambiente, haveria muito mais otimismo quanto ao futuro do planeta.

CB, 14/04/2007, Opinião, p. 25

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