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Megaron Txucarramãe

Diário de Cuiabá
Autor: ONOFRE RIBEIRO
18 de Mar de 2007

O jornalismo, por mais que os anos de carreira passem, reserva com freqüência experiências novas e enriquecedoras. Há 15 dias viajei a Colíder, a 700 km de Cuiabá, para entrevistar o chefe Megaron Txucarramãe para a última edição da revista RDM, que o traz na capa. Ele é o chefe da administração regional da Funai no norte de Mato Grosso.

Meu conhecimento dele começou há uns 20 anos durante a tomada da balsa do rio Xingu pelos índios, da qual ele participou. Recentemente, através do Major Alessandro Mariano, do Corpo de Bombeiros, em Colíder, retomamos a possibilidade de uma entrevista para RDM. O major atuou junto com Megaron, mais 21 índios e três sertanistas da Funai, do resgate dos corpos dos 154 passageiros mortos na queda do vôo 1907, da Gol, na região norte de Mato Grosso.

Conversei com Megaron por telefone uma vez e marcamos a data. Fui de carro na sexta-feira, especialmente para entrevistá-lo, e voltei no sábado pela manhã. Foi uma conversa amena e forte. Megaron tem 55 anos. É uma figura humana imponente. Fala pausada, palavras medidas e sinceridade que dá para ser tocada. Sua sala, numa casa alugada em Colíder, onde funciona a administração regional, é simples demais. Índios entram e saem livremente, curiosos com o nosso movimento e com as fotografias.

Confesso que esperava ouvir as reclamações de sempre contra as invasões de terras, contra a pobreza, contra a Funai, contra a falta de apoio financeiro aos 3 mil índios das 12 aldeias de quatro etnias que compõem a sua administração regional. Não foi isso que encontrei.

Megaron está preocupado com o futuro dos povos indígenas exatamente pelo seu ponto mais frágil: a perda da cultura tradicional que lhes dá a identidade, trocada por uma mistura resultante do contato permanente com as cidades. Ele não reivindica mais terras, nem carros novos ou aviões. Quer educação na aldeia para que os índios jovens aprendam a sua cultura tradicional e a do branco, e saber distinguir e posicionar com ambas. Isso é compreensão política da melhor qualidade possível.

Ele acredita que os contatos com a cidade serão cada vez mais intensos e inevitáveis. Então, o índio jovem precisará saber para lidar com isso, manter a sua cultura e perpetuar os índios. Sem a educação, eles não terão esse futuro, porque a manipulação poderá aniquilá-los. É uma angústia muito grande que Megaron manifesta quando toca nesses assuntos.

A sobrevivência econômica das aldeias ele acredita que pode ser mantida com os projetos de aproveitamento de castanha-do-brasil com a qual se produziu quase 4 mil litros de óleo neste ano, vendidos para a indústria cosmética. Do mesmo modo, o óleo de copaíba, de pequi, e o breu branco, uma resina vegetal perfumadíssima, também vendidos para a cosmética, e o mel, para alimentação. Com isso, cria-se uma economia sustentada.

Pretendo voltar ao assunto com abordagem sobre outros aspectos de nossa entrevista. Mas encerro este artigo, como disse no início, surpreso com a força deste homem simples, mas imponente e altivo que fala pelos seus irmãos, com responsabilidades muito pesada dos problemas do presente e do futuro. Valeu mesmo, a viagem e rever Megaron, de quem me tornei amigo.

(Quem não leu a entrevista na revista, pode acessá-la em www.rdmonline.com.br).

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