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Mau uso da terra cria desertos

OESP, Vida, p. A19
05 de nov de 2004

Mau uso da terra cria desertos
Processo de desertificação e arenização ataca as Regiões Sul e Nordeste

Karine Rodrigues
Wálmaro Paz, especial para o Estado

RIO - O uso inadequado do solo pode transformar em um cenário de deserto uma área de 180 mil quilômetros quadrados no Nordeste, afetando a fauna e a flora e, conseqüentemente, a vida dos mais de 7 milhões de pessoas que habitam as regiões atingidas, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. A materialização do fenômeno pode significar emigração em massa e aumento da pobreza, já que inviabiliza atividades econômicas ligadas à terra.
Infelizmente, a ameaça que paira nos locais de altíssima e alta suscetibilidade climática ao processo de desertificação já é realidade no País: quase 380 mil moradores de 15 municípios nordestinos, que habitam uma área de mais de 21 mil quilômetros quadrados, já sofrem os efeitos de um alto índice de aridez.
De acordo com o coordenador de Indicadores Ambientais do IBGE, Judicael Clevelario, quadro semelhante é encontrado no Rio Grande do Sul, onde foram atingidos 36 quilômetros quadrados.
Incluído pela primeira vez no relatório sobre desenvolvimento sustentável, o indicador desertificação e arenização representa uma preocupação em reunir informações sobre um problema que a Organização das Nações Unidas (ONU) considera global, pois atinge mais de cem países. Cerca de 37% da superfície dos continentes, onde habitam mais de 1 bilhão de pessoas, tem climas árido, semi-árido e subúmido seco, suscetíveis ao surgimento do fenômeno.
Segundo Clevelário, no Brasil, a desertificação e a arenização estão muito mais associadas à exploração indevida do solo e da vegetação do que a questões climáticas. "O plantio e o pastoreio inadequado, por meio da ação de queimadas, por exemplo, acabam degradando a terra, provocando também erosão hídrica e eólica", diz. "Estamos fazendo uma agricultura que tem um custo ambiental muito alto. Falta uma política governamental para a área.
Clevelário diz que o Brasil tem pensado muito pouco nessa questão. "É um problema que não é visto no País", critica. "É como se não existisse, mas pode trazer graves conseqüências, como o assoreamento dos rios, por exemplo."
No sudoeste do Rio Grande do Sul, áreas de dez municípios antes ocupadas por vegetação típica do pampa gaúcho foram tomadas por extensos areais. "Embora os dados ainda sejam muito regionais, estamos tentando chegar a indicadores que atinjam o País todo, pois esta é uma situação que ocorre no Brasil inteiro", diz Judicael. Embora o porcentual seja pequeno se comparado à área total das cidades, menos de 1% por município, o pesquisador ressalta que o potencial de expansão da área afetada é grande.

Arenização avança no sudoeste do RS
AREIAIS: A região sudoeste do Rio Grande do Sul é um exemplo dos processos de desertificação e arenização que vêm ocorrendo em vários pontos do País. "A arenização era um processo natural e ocorria lentamente", explica a pesquisadora Dorotéia Martins Flores, da Universidade da Região da Campanha (Urcamp), que vem estudando os "desertos" gaúchos há alguns anos. "Ele foi acelerado, no entanto, com a exploração intensiva do solo por meio da agricultura mecanizada a partir dos anos 70."
Sua colega Marlene François Motta, lembra que o conceito de arenização é recente e foi criado pela geógrafa Dirce Suertegaray, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para definir o processo que era conhecido como desertificação. Segundo ela, o que ocorre no Estado não é a formação de desertos, porque o índice anual de chuvas é superior a 1.400 milímetros.
Marlene explica que a formação geológica do terreno dessa região é o arenito Botucatu. Como existe pouca profundidade de matéria orgânica no solo, a ação das águas, logo após a primeira aração, inicia a formação de ravinas e voçorocas. Na extremidade inferior delas se formam depósitos de areia. O vento, atuando sobre essas areias as espalha em todas as direções. ampliando esse processo e soterrando a vegetação existente. A agricultura mecanizada e a elevada lotação dos campos com criação de gado intensificam a arenização.

OESP, 01/11/2004, Vida, p. A19

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