O Globo oglobo.globo.com
16 de Jun de 2017
É pequena e discreta, veste uma blusa indígena, jeans e sandálias. María de Jesús Patricio, mãe de 53 anos, tenta ser a primeira mulher de origem indígena no México a enfrentar a elite política nas próximas eleições presidenciais para defender os povos nativos e seus territórios. Em um país profundamente machista, racista e desigual, "Marichuy", como os parentes a chamam, terá que jogar com as cartas de ser mulher, índia e de uma comunidade pobre para encarar a disputa contra os dinossauros do establishment mexicano.
Assim, Patricio abriu parênteses na vida familiar e na prática de medicina herbal para desafiar o preconceito de que a mulher está "encurralada" para ser uma personagem "de segunda ou terceira" categoria cuja função se limita a casa e família.
- Usaremos as ferramentas (eleitorais) que usaram os que estão no poder, pois, por anos, eles usaram essas ferramentas para manipular o povo e se impor - sustenta a possível futura candidata. - Nossa ideia é estragar a festa (das eleições), porque para eles é uma festa, mas para o povo não, certo?
Patricio, que nasceu na etnia náhuatl de Tuxpan, no estado de Jalisco, é porta-voz do Congresso Nacional Indígena (CNI), que reúne quase 500 povos e tribos do México. Por iniciativa da ex-guerrilheira do Exército Zapatista de Libertação Nacional, o CNI a elegeu para tentar a candidatura presidencial em 2018. Este ano, pela primeira vez, poderão participar candidatos que não pertençam a nenhum partido político. Para ser um deles, Patricio deverá cumprir uma série de requisitos, como reunir quase um milhão de assinaturas em todo o país.
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Mas para Marichuy, o objetivo não é reunir as assinaturas, nem ganhar a Presidência, mas sim aproveitar a oportunidade para "organizar comunidades (indígenas) vizinhas, irmãs, levar a informação" sobre um novo movimento que proponha um modelo de governo no qual "o povo decida o destino do México".
- Não vamos com objetivo de ocupar o poder, não. Em vez disso, nossa ação é chegar por baixo, com toda essa gente, correr todo o país e ir escutando a situação que estão vivendo - explica.
'DEIXAR O CAPITALISMO'
- Durante anos, parece que as comunidades não são escutadas, nem vistas, nem se resolvem os problemas. Ao contrário, vão aguçando mais os problemas - conta Patricio, citando a pobreza, a destruição dos territórios dos nativos, a falta de acesso a saúde, educação e justiça.
Os indígneas "estão morrendo e é como se nada acontecesse, porque não se diz nada sobre isso lá em cima" nas cúpulas do poder, afirma ela, indignada:
- Estamos desaparecendo lentamente - decreta.
Patricio tem claro em mente que deve "deixar o atual sistema capitalista" para poder "lutar pela vida, que não é somente para as comunidades, mas também para todos os mexicanos". A batalha dela, igual a de todos os povos indígenas, é pela defesa da água, do ar, do solo acima dos interesses empresariais:
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- Estão destruindo toda a natureza e isso é o que nos dá a vida - defende.
Marichuy apenas terminou o ensino médio e nunca se imaginou pré-candidata à Presdiência, nem se assume como modelo para outras mulheres:
- Eu digo que, como eu, há mulheres que estão na luta, somente não vistas.
https://oglobo.globo.com/mundo/marichuy-indigena-que-quer-sacudir-siste…
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