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A marcha para o Sul

JT, Opinião, p. A2
Autor: ALVES SOBRINHO, Eduardo Jorge Martins
22 de mar de 2005

A marcha para o Sul
Guarapiranga e Billings fornecem hoje apenas 20% da nossa água. A continuar o processo de invasão, este porcentual diminuirá

Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho

Água, ar, solo, verde/biodiversidade, cultura de paz e ecoeconomia são áreas definidas como prioritárias pela Secretaria do Verde da cidade de São Paulo. Para cada uma delas serão definidos projetos e indicadores que permitam à administração e aos cidadãos acompanhar a evolução dos problemas a serem trabalhados.
Sendo 22 de março o "Dia Mundial da Água", quero fazer alguns comentários sobre a relação da cidade com essa substância sagrada para a vida na terra.
Muitos não têm consciência de que São Paulo só tem água hoje para beber ou para atividades econômicas porque durante a ditadura militar, no governo Geisel, sem se preocupar com consultas democráticas, se foi buscar água na Bacia do Rio Piracicaba, formando o Sistema Cantareira.
Este sistema garante 50% da água da cidade e pressiona, com esse uso, todo um conjunto de cidades que agora, com o ambiente de liberdade, se organizam para garantir seu direito à água, já ameaçado, e pedir as compensações necessárias a serem pagas por nós, de São Paulo. É justo.
Guarapiranga e Billings fornecem hoje apenas 20% da nossa água. E a continuar o processo de invasão dos mananciais, comprometendo nascentes, oprimindo e contaminando córregos e rios, esse porcentual diminuirá. Logo teremos de buscar água ainda mais longe. Quanto uma empresa em Santo Amaro ou uma dona de casa em Guaianazes pagará por essa água cada vez mais cara e difícil?
Neste início de 2005 fui várias vezes à região dos mananciais. Uma delas, a convite do subprefeito de Parelheiros, para acompanhar a remoção de favela em área de risco. É um momento triste e dramático! Qual é a avaliação do senso comum que colhi de policiais, funcionários da Prefeitura e dos moradores/invasores ameaçados pelo perigo de desabamento e que poluem o rio? "Aqui na Zona Sul sempre foi assim, é assim e assim será." "Porque só nós vamos sair?"
Milhares invadiram uma região que deveria ter sido preservada e garantir água a toda a cidade. E milhares continuarão invadindo se a incapacidade governamental, a omissão e a ação criminosa de outros continuarem.
E eu grito esse alerta particularmente para Parelheiros, jóia que a cidade tem e desconhece e que, nos últimos anos, passou a ser alvo dessa predatória "marcha para o Sul".
Conversando com moradores de bairros na beira da represa se sente o drama de trabalhadores obrigados a conviver com a opressão por traficantes e outros tipos de criminosos organizados. Perguntem a eles: pode-se comprar um, dois, dez lotes em qualquer dessas áreas ilegalmente ocupadas em imobiliárias em Santo Amaro ou outros bairros da Zona Sul a qualquer hora do dia.
Será que vale a pena ser governo para, no futuro próximo, ser acusado pelas novas gerações como omisso diante desse quadro? Será que é ser Dom Quixote enfrentar este moinho/dragão que todos vêem e fazem de conta que não vêem?
A Secretaria do Verde quer ser Dom Quixote. Prefere ser tachada de ingênua ou sonhadora do que de omissa ou criminosa. E quer atuar com a sociedade civil, com secretarias municipais e com o governo do Estado para estancar a hemorragia e começar a reconstrução.
Vamos rejeitar o fatalismo e repudiar posturas do tipo "a onda já subiu, já quebrou e nada impedirá que chegue à praia". Traduzindo, "logo teremos 4 milhões de moradores na zona de mananciais e nada se pode fazer".
É possível realmente ter Rodoanel sem soprar essa onda mais ainda? Vocês sabem que a ex-prefeita de São Paulo silenciosamente vetou um parque natural linear de 300 m de cada lado desta possível/futura estrada? Que esse veto dorme na Câmara Municipal?
E que a Assembléia Legislativa há anos não vota projetos de lei sobre o uso da água e sobre a regulação da Bacia de Guarapiranga?
Que estamos no melhor momento para estabelecer um diálogo entre Sabesp e a cidade de São Paulo para traçar novas bases dessa relação?
É possível governar, é possível legislar, é possível acordar. Sempre é tempo.
Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho é secretário do Verde e do Meio Ambiente da Cidade de São Paulo
A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original Albert Einstein

JT, 22/03/2005, Opinião, p. A2

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