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Mar do Brasil escondia 60 espécies

OESP, Vida, p. A20
07 de Set de 2006

Mar do Brasil escondia 60 espécies
Cientistas identificaram dezenas de organismos até então desconhecidos no litoral brasileiro

Karine Rodrigues

A biodiversidade brasileira encontrada na terra e no ar é igualmente rica nas regiões mais profundas do mar. A constatação é de pesquisadores que, na última década, descobriram 14 espécies de peixes e 46 tipos de invertebrados em áreas escuras e frias da costa. Quatro delas ainda não foram descritas.

Os exemplares foram coletados ao longo o Programa de Avaliação do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva (Revizee), que explorou 3,5 milhões de quilômetros quadrados no litoral brasileiro, em uma faixa de 12 a 200 milhas marítimas a partir da costa.

O trabalho, feito por mais de 300 pesquisadores, revelou que temos poucos recursos pesqueiros, mas também descortinou um horizonte que pode revelar espécies com potencial econômico para áreas como a farmacêutica.

"Encontramos uma diversidade muito grande. São espécies que estão há milhares de anos no fundo do mar. Se sobreviveram até hoje, há fatores responsáveis por essa durabilidade. Devem ter substâncias usadas como mecanismos de defesa que talvez possam ser importantes para a indústria farmacêutica", observou Roberto Ávila Bernardes, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), um dos participantes do Revizee. "Substâncias antitumorais já foram descobertas em tubarões e esponjas. Veneno de animais são usados hoje em medicamentos."

Segundo ele, os organismos coletados passaram por um processo de identificação baseado nas características como o número de raios nas nadadeiras, a aparência das escamas, o formato dos dentes. "É como uma impressão digital", comparou Bernardes.

Ele conta que quatro espécies não descritas ainda são "de uma família complicada" por ser numerosa, a Zoarcidae. Pelo menos uma delas foi coletada em São Paulo, na ilha de São Sebastião, a 655 metros de profundidade. A quarta, da família Rajiidae, foi encontrada no Rio Grande do Sul.

Embora o uso de novas espécies em outros setores ainda dependa de análises adicionais, há dados já promissores em relação a algas conhecidas. Uma delas, a Laminaria abyssalis, tem ácido algínico, usado nas indústrias têxtil e farmacêutica. Além disso, há pelo menos 14 gêneros de esponjas com propriedades biológicas que possuem substâncias com propriedades antibióticas, antifúngicas e antitumorais.

Uma delas, do gênero Aplysina, foi coletada na região Central, que vai de Salvador (BA) ao Cabo de São Tomé (RJ). Segundo o coordenador das pesquisas realizadas nessa área, o biólogo Jean Louis Valentin, o local pode até não ser tão rico em recursos pesqueiros quanto a Região Sul, mas possui peculiaridades que favorecem uma maior biodiversidade.

"Como não tem muito plâncton, o fundo do mar acaba sendo mais protegido e, quem sabe, mais valioso para outros fins", detalhou o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), referindo-se aos organismos minúsculos, como bactérias, larvas, crustáceos, que servem de alimentos para os peixes.

TECNOLOGIA AVANÇADA
Oceanógrafo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo, Agnaldo Silva Martins explicou que algumas descobertas feitas durante o Revizee só ocorreram por causa do uso de tecnologias avançadas, capazes de chegar até regiões inexploradas na costa brasileira.

Na Central, por exemplo, foi possível recolher material em pontos ainda mais profundos. "Fizemos coletas até 2.300 metros de profundidade, até o limite entre o continente e a região abissal."

Segundo ele, o País possui uma "Amazônia Azul". Os cuidados com o ambiente marinho precisam ser redobrados, já que os estragos causados por fatores como poluição e extrativismo desordenado são bem menos visíveis. "Estamos chegando agora até esses organismos, que são muito frágeis. Precisamos conhecer o potencial deles, mas ter todo o cuidado para a sua preservação."

OESP, 07/09/2006, Vida, p. A20

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