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Mãos pretas: de onde vem a boa notícia em meio à pandemia

Uol.com.br Ecoa
Autor: Zica Pires
13 de mai de 2020

No último dia 14 de abril, nós, quilombolas dos municípios de Itapecuru-Mirim e Miranda
do Norte, no Maranhão, recebemos com preocupação a notícia de que o governo federal
pretende retomar as obras de duplicação da rodovia BR 135 em maio, em meio à
pandemia do novo coronavírus.

As obras foram suspensas em 2018, depois que lideranças do quilombo Santa Rosa dos
Pretos, em Itapecuru-Mirim, denunciaram ao Ministério Público Federal (MPF) e à
Defensoria Pública da União (DPU) as ilegalidades cometidas pelo DNIT (Departamento
Nacional de Infraestrutura de Trânsito) em territórios tradicionais, iniciando as obras sem
nunca terem nos consultado previamente, como obriga a Convenção 169 da OIT
(Organização Internacional do Trabalho).

Mesmo sem a consulta, o DNIT começou as obras nos quilombos em 2017, matando
árvores centenárias, destruindo igarapés, danificando nossas casas, nos ameaçando e
humilhando dentro dos nossos territórios, onde estamos desde o século 17.
A BR 135 rasga os quilombos de diversos municípios maranhenses há quase 80 anos.
Retomar a duplicação rodovia no contexto da pandemia de Covid-19, além de reforçar as
ilegalidades já cometidas pelo governo, significa a manutenção de uma política de
Estado que conhecemos há pelo menos três séculos: o nosso genocídio. Implantar
canteiros de obras à porta de nossas casas e trazer trabalhadores de fora para nossas
comunidades é nos expor à contaminação e à morte. O quilombo Santa Rosa dos
Pretos, onde moro, tem mais de 350 famílias - cerca de duas mil pessoas - e não conta
com um posto de saúde sequer.

"Em meio a tanta violência, a boa notícia só pode vir de um lugar: das
nossas mãos pretas. Faço parte de uma geração de jovens do quilombo
que bebe diretamente na luta ancestral dos nossos mais velhos por terra
e território. Deles aprendemos que, se em 520 anos os invasores nunca
quiseram nos respeitar, por que agora nos respeitariam? Se nunca
souberam conversar, por que agora saberiam?

Aprendemos que a luta que emancipa é a luta por autonomia, de nós por nós e para nós.
Isso não significa que não tenhamos aliadas e aliados fora dos nossos círculos pretos,
nem que não exigimos de gestores do estado políticas públicas que nos contemplem. O
fato é que a gente não se ilude com a estratégia centenária e embranquecida que rouba
o que é nosso pra nos devolver a conta-gotas e em troca de votos. A gente não negocia
nossa vida. A gente faz ela brotar do chão com as nossas mãos, como aprendemos com
nossas pretas e pretos velhos.
Nossa juventude do quilombo Santa Rosa dos Pretos está organizada em um coletivo
chamado AAQ (Agentes Agroflorestais Quilombolas). Buscamos autonomia alimentar por
meio da agrofloresta; autonomia de água por meio da recuperação de nascentes e
cursos d'água com plantio de árvores nativas; e autonomia de pensamento, por meio da
implantação de um currículo quilombola autônomo na escola da comunidade.

"Nesse sentido, sobreviver à pandemia também tem sido uma luta
autônoma: nós mesmos nos organizamos para orientar os jovens e
velhos sobre auto-cuidado e cuidado coletivo. Buscamos e conseguimos
apoio de aliadas e aliados de outras partes do país, recebemos
recursos, compramos 698 cestas básicas e estamos distribuindo a irmãs
e irmãos quilombolas de diversos territórios do município que precisam
de alimento.

Nossa estratégia é simples, mas não é fácil. Sofremos racismo, dentro e fora do território,
e a tentativa de apropriação da nossa luta autônoma pela política partidária. Mas não
recuamos. Nossos Encantados estão com a gente.
quiseram nos respeitar, por que agora nos respeitariam? Se nunca
souberam conversar, por que agora saberiam?
Nesse sentido, sobreviver à pandemia também tem sido uma luta
autônoma: nós mesmos nos organizamos para orientar os jovens e
velhos sobre auto-cuidado e cuidado coletivo. Buscamos e conseguimos
apoio de aliadas e aliados de outras partes do país, recebemos
recursos, compramos 698 cestas básicas e estamos distribuindo a irmãs
e irmãos quilombolas de diversos territórios do município que precisam
de alimento.
Agora, diante de mais essa tentativa dos herdeiros da casa grande de submeterem
nosso povo ao genocídio, iniciamos hoje uma campanha-manifesto pela nossa vida e
contra a política de morte do estado brasileiro e seus operadores - aqui, já aproveito para
pedir o seu apoio, leitora e leitor desse texto.
O que o estado precisa fazer por nós, quilombolas, nesta pandemia, é parar de tentar
nos matar, como fazem agora com a possibilidade de retomada das obras de duplicação
da BR 135. Quanto a nós, jovens de Santa Rosa dos Pretos, seguimos em luta
autônoma pela terra e território - nosso corpo e nossa vida -, onde estamos e somos
desde sempre.

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