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Manchineris denunciam massacre de índios isolados

A Tribuna-Rio Branco-AC
11 de set de 2002

Índios da nação Manchineri, que vivem na região do Alto Iaco, junto à Área Indígena Mamoadate, um dos locais mais primitivos e isolados do Estado do Acre, localizaram uma grande quantidade de rastos, caminhos abertos na mata, sinais de acampamento, muitas cascas de bala, botas e clareiras abertas na floresta. Tudo leva a crer que a região está sendo invadida por traficantes peruanos e que pode ter havido um massacre de índios isolados no local.

A área indígena Mamoadate é o refúgio de um dos últimos grupos de índios isolados (não contatados pelos não-índios) em todo o mundo. No Acre existem pelo menos seis povos nessa situação, a maioria vivendo junto às nascentes dos rios na fronteira entre o Acre e Peru, para onde foram expulsos de suas terras pelos matadores de índios contratados pelos seringalistas durante a ocupação da região, nas chamadas "Correrias", caçadas de índio, que dizimaram nações inteiras.

A denúncia foi feita pelos Manchineri ao chefe do posto indígena em Assis Brasil, Armando Soares Filho, o local mais próximo da possível chacina. "Os Manchineri suspeitam de que houve massacre de seus parentes isolados porque embora não mantenham contato direto, costumam vê-los naquela região durante o período de verão, mas como neste ano eles não pareceram, acabaram avançando em seu território para ver o que estava acontecendo e encontraram muita casca de bala, restos de acampamento e outros sinais".

Armando é o responsável pela terá indígena Jaminawa da Cabeceira do Rio Acre onde há quatro aldeias e aproximadamente 200 moradores. Os manchineri habitam ao longo do Rio Iaco formando nove comunidades que somam aproximadamente 800 indivíduos. Como não são contatados, ninguém sabe quantos índios isolados habitam a região mais isolada daquelas terras.

NARCOTRAFICANTES
O indigenista, que trabalha há 23 anos na Funai, evita especulações sobre os narcotraficantes, embora reconheça que eles costumam passar pela região. Já os índios desconfiam que os isolados podem ter sido mortos para limpar a área para os plantadores de coca, já que diversas clareiras foram abertas em meio à floresta.

A CAMINHO DO INFERNO
Para chegar ao local da possível chacina, Armando partirá nesta quinta-feira percorrendo os 357 quilômetros da BR-317 de Rio Branco à Assis Brasil, dali segue por um ramal de terra durante quatro horas até o seringal Icuriã que fica a três horas do Mamoadate.

De lá seguirá o rio Iaco, por três dias, até chegar ao Igarapé do Abismo, nele vai encontrar a resposta do mistério. "Neste momento não podemos afirmar nada, mas as suspeitas levantadas pelos manchineri são muito graves e tememos que realmente tenha havido mais um massacre de índios isolados no Acre".

IMPUNIDADE É MARCA HISTÓRICA
Em maio de 2000 um grupo de lenhadores do município de Jordão, liderados pelo vereador Auton Farias (PFL), do município de Jordão, a 540 quilômetros de Rio Branco, deparou-se acidentalmente com cinco índios isolados. Armados de espingardas e rifles saíram em perseguição deles, 14 testemunhas dão conta de que três teriam sido mortos, mas apenas um foi encontrado, dois meses depois, enterrado numa praia de rio.
Os restos mortais foram levados de helicóptero para Brasília onde se constatou os furos de bala, mas não a suposta castração do morto, afirmada pelas testemunhas. Concluído o inquérito policial, há mais de um ano, foi pedido o indiciamento de vários envolvidos e a prisão de um dos matadores conhecido como "Trubaldo", mas até hoje ninguém foi preso.

"Em junho último, a Justiça Federal considerou que o caso não era da sua alçada e a passou para justiça estadual, no caso o juiz de Tarauacá e até agora não sabemos no que isso vai dar, exceto que os assassinos continuam soltos", denunciou Jandira Keppi que é assessora Jurídica da União das Nações Indígenas (UNI). "No nosso entender o caso cabe sim à Justiça Federal, pois trata-se da morte de um índio isolado dentro de uma terra indígena".

Ela está pressionando a Secretaria Estadual de Segurança do Acre para que garanta a prisão dos homens que mataram no último dia 28 de junho assassinaram, a facadas, o índio José Sebastião Pequeno e feriram seu sobrinho Francisco Batista Jaminawa Arara, na cidade de Marechal Thaumaturgo a 890 quilômetros de Rio branco no Vale do Juruá.

"Este caso, como o outro, ameaça cair na impunidade como sempre aconteceu por aqui!" Protestou a advogada.O secretário estadual de segurança, Cassiano Marques estará realizando uma reunião na tarde desta quarta-feira para discutir essa questão das mortes de índios no Acre, como também dos índios que estão presos nos presídios de Cruzeiro do Sul e Rio branco sem qualquer atendimento especial, até porque já houve casos de nativos colocados em celas sem nem falar português.

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