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Mais uma turma de agentes socioambientais formada na Bacia do Xingu no Mato Grosso

Y Ikatu Xingu
Autor: Oswaldo Braga de Souza
07 de mai de 2008

Projeto envolveu representantes de sete municípios do nordeste da bacia. Temas como sistemas agroflorestais, ciclo da água, características de solo e a importância das lideranças socioambientais foram tratados num em três oficinas e atividades independentes desenvolvidas entre elas durante quase um ano.

São 42 pessoas, entre professores, agricultores familiares, empresários, médios e grandes produtores, técnicos, gestores públicos e estudantes. Junto com eles, a expectativa da multiplicação de iniciativas socioambientais que sejam sustentáveis e inovadoras em pelo menos oito municípios do nordeste da Bacia do Xingu no Mato Grosso.

Foi essa a promessa deixada ao final da segunda Formação de Agentes Socioambientais da Bacia do Xingu no Mato Grosso, no dia 26 de abril, em São José do Xingu, cerca de 1,2 mil quilômetros a nordeste de Cuiabá. Além da terceira e última oficina do processo formativo, também ocorreu a cerimônia de certificação dos participantes.

A formação começou no final de junho do ano passado, com a primeira oficina. A segunda aconteceu em outubro e a última delas começou no último dia 23. Participaram representantes de Querência, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Vila Rica, Confresa, Porto Alegre do Norte, Canabrava do Norte e São Félix do Araguaia.

Os participantes do projeto assistiram explanações teóricas sobre temas como a cultura agroflorestal e florestal, o ciclo da água, habilidades conceituais, sociais e técnicas para a formação da liderança socioambiental, o papel do agente multiplicador nas relações sociais e em ações ambientais. Dois princípios que foram adotados pela formação: "conhecer para entender e preservar" e valorizar os conhecimentos e experiências dos participantes.

Incorporar conhecimentos e habilidades

"Acho que o mais importante dessa formação foi o fato de que os participantes conseguiram incorporar os conhecimentos e as habilidades desenvolvidas nas oficinas no cotidiano dos trabalhos que já realizavam em suas profissões, comunidades e propriedades", avalia Luciana Akeme S. M. Deluci, coordenadora da última oficina e assessora do ISA (Instituto Socioambiental). Ela acredita que a nova turma de agentes socioambientais deve encampar ações com grandes chances de perdurar e serem reproduzidas.

Em seu último, os formandos fizeram exercícios de manejo no canteiro agroflorestal implantado desde o primeiro módulo e registro da densidade e diversidade de espécies de áreas de restauração florestal. Receberam mais informações sobre o andamento dos projetos da campanha Y Ikatu Xingu, subsídios para divulgarem a mobilização. Eles apresentaram relatos e puderam receber sugestões sobre as chamadas ações entremódulos que desenvolveram. Na primeira oficina, os formandos comprometeram-se a realizar iniciativas socioambientais em seus municípios de origem.

Entre essas ações entremódulos, podem ser apontadas a prática da agrofloresta e a articulação para recuperação de áreas degradadas por escolas; controle da erosão e promoção de palestras em assentamentos; apoio a pesquisas e análises sobre solo e água; plantios de nascentes e matas ciliares; mobilizações, palestras, oficinas e encontros em comunidades.

Na Escola Municipal Família Agrícola de Querência (Emfaque), por exemplo, os alunos do terceiro ano do ensino médio desenvolveram plantios agroflorestais e toda a escola participou de uma mobilização no município para entrega de sacos de lixo à população. Além disso, os alunos e professores mudas de árvores às famílias de recém-nascidos da cidade. A idéia é criar um vínculo entre a árvore, a criança e sua família. "Até agora, tivemos muita aceitação. Jà há pessoas nos procurando para receber mudas. Avisam quando vai nascer a criança para receberem a sua e pedem algumas espécies determinadas. Depois de um ano, voltaremos à casa da criança para saber como ela está e como está a planta", explica Lenir Tiecker, diretora da Emfaque e formanda.

Planejamento

"Aprendi que é necessário planejar: colocar os custos, saber quantas mudas foram plantadas, quais as espécies, aquelas frutíferas e as destinadas à retirada de madeira. A partir daí, é possível até calcular as diárias de trabalho necessárias para desenvolver a sua área", comentou Placides Pereira Lima, ao final do exercício de contagem do número de espécies e manejo dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) que haviam implantado no viveiro municipal, ainda na primeira oficina da formação, em junho. "Com esse planejamento, você pode calcular quanto vai ganhar", ensinou. Com 58 anos,"Sêo" Placides mora no Projeto de Assentamento Manah, em Canabrava do Norte, e é um dos mais velhor do grupo de formandos . Já há cinco anos ele vem plantando áreas com agroflorestas em seu lote de 50 hectares. O agricultor já reflorestou 13 hectares e hoje tem um viveiro próprio.

Placides faz parte do grupo "Casadão", que promove cursos, palestras e oficinas sobre técnicas de agrofloresta em vários municípios do nordeste da Bacia do Xingu no Mato Grosso e na região do chamado Baixo Araguaia. A expressão 'casadão" surgiu como uma forma didática de explicar aos agricultores e assentados a técnica do consórcio de espécies praticada nos SAFs. O lema do grupo é 'natureza, beleza, alimento na mesa e alegria no coração".

Quebrando tabus

Um dos autores do bordão e integrante do Casadão que também se formou agente socioambiental é o agricultor, poeta e radialista Valdivino Moreira da Silva, o Valdo, presidente da Associação Terra Viva. Como parte das atividades entremódulos, a associação ajudou a promover uma série de oficinas, palestras e encontros para discutir agrofloresta, legislação ambiental e áreas protegidas.

"Para mim, a formação serviu para quebrar uma série de tabus. Por exemplo, a necessidade de um espaçamento mínimo de dois, três metros no plantio de árvores. Agora descobri que posso plantar tudo junto, aproveitar melhor o espaço. Adquiri vários conhecimentos sobre solo e água também", diz Valdo, proprietário de uma chácara de 50 hectares nos arredores de Porto Alegre do Norte que acabou tornando-se uma área demonstrativa. Valdo é um exemplo de como a formação mudou a visão dos agentes sobre seus trabalhos e a relação com outros profissionais e segmentos sociais. "Acho que as oficinas complementaram muitas idéias que eu já tinha, mas que não tinha apoio para colocar em prática. Outro tabu que quebrei foi o modo de ver os "intelectuais" [técnicos]. Para mim, eles eram pessoas de fora que não conhecem a realidade local e já querem ser donos do conhecimento. Nessa formação, fomos tratados de um outro jeito." Inspirado na formação, o poeta, agricultor e "agrofloresteiro" até compôs alguns versos:

"Nesta terra mansa,
Onde a vida se fez arredia,
O homem não conteve as rédeas
Da ganância sem direção.
A injustiça está nos pratos
E nos calos das mãos.
Mas ainda brilha uma esperança
Em cada área preservada
E em cada fruta colhida."

O madeireiro que planta árvores

Lúcio Frey foi outro "achado" da formação que promete render frutos. Um exemplo surpreendente da consciência sobre a necessidade de produzir e preservar que já existe na Bacia do Xingu no Mato Grosso. Além de agricultor, ele é dono de uma serraria e presidente da Associação Reflorar de Pequenas Indústrias da Madeira de Vila Rica. Há dois anos, só trabalha em sistema de manejo sustentável. Depois de perceber que a madeira começou a rarear na região, há sete anos Frey começou a plantar árvores em sua propriedade de 464 hectares. Hoje, ele tem 60 hectares plantados com espécies nativas e exóticas.

"Minha idéia era plantar 50 hectares por ano, mas temos tido muitas dificuldades. Há quase nenhum financiamento e, quando aparece, a burocracia é muito grande. A pecuária tem muito financiamento, mas a atividade madeireira sustentável, não". O empresário tem em sua fazenda um viveiro com capacidade para produzir mais de 100 mil mudas por ano e é um dos agentes que está levando à frente a construção de um viveiro comunitário em Vila Rica. Frey também está ajudando a reflorestar o lote de 50 hectares do filho em um assentamento no município.

A segunda Formação de Agentes Socioambientais foi promovida pela campanha Y Ikatu Xingu, no âmbito do projeto Governança Florestal nas Cabeceiras do Xingu. O processo formativo foi uma realização do ISA, com apoio do Formad (Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento), em parceria com a prefeitura e a Câmara de Vereadores de São José do Xingu. A rádio Xingu FM também deu apoio com a cobertura de todo o processo.

A coordenação da formação foi de Rodrigo Junqueira, coordenador-adjunto do Programa Xingu do ISA. Do Instituto, também deram apoio técnico e ajudaram a conduzir atividades a educadora Luciana Akeme S. M. Deluci, o engenheiro agrônomo Osvaldo Luis de Sousa, os biólogos Eduardo Malta Campos Filho e José Nicola, a ecóloga Kátia Ono, o advogado Raul Silva Telles do Valle, os técnicos Cassiano Marmet e Ivan Loch. Sadi Elsenbach contribuiu na parte de logística. Do Formad, auxiliaram na formação Solange Pereira e Deroni Mendes. Também participou a consultora em agrofloresta Fabiana Peneireiro.

Entre outubro de 2005 e novembro de 2006, a campanha promoveu uma primeira formação de 42 agentes socioambientais, em Canarana, que envolveu pessoas do próprio município, de Querência, Gaúcha do Norte, Ribeirão Cascalheira, Nova Xavantina e Água Boa. O relato dessa formação pode ser conhecido na publicação Formação de Agentes Socioambientais no Xingu - Valorizando as descobertas e iniciativas agroflorestais (confira).

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