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Mais temporais, menos garoas

O Globo, Ciência, p. 26
25 de Mar de 2009

Mais temporais, menos garoas
Aquecimento global altera regime de chuvas no país com danos para cultivos

Soraya Aggege

Uma pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Agrometeorologia da Embrapa, em Minas Gerais, revela que o Brasil está sofrendo uma mudança severa no regime de chuvas. As chuvas leves e as garoas, consideradas benéficas, estão sendo substituídas pelos temporais nos últimos anos, de maneira crescente. A quantidade de água é a mesma, mas a magnitude das precipitações tem se acentuado. E a causa é o aquecimento global.

A pesquisa, desenvolvida por Daniel Pereira Guimarães, da Embrapa Batata e Sorgo, utiliza uma das séries mais longas de dados coletados no Brasil: de 1889 até 2008. A cidade de Curitiba foi usada como modelo no estudo. Mas os mesmos dados estão se repetindo em várias cidades brasileiras, segundo Guimarães:
- Podemos atestar que essa situação está ocorrendo em todo o país.

As médias de precipitações leves, consideradas as mais benéficas para a agricultura e que não causam estragos no meio urbano, de 5 milímetros de precipitação por dia, estão praticamente desaparecendo. Ao mesmo tempo, a frequência de chuvas com mais de 50 milímetros de precipitação por dia, estão aumentando.

- As chuvas de alta magnitude praticamente dobraram em todo o país, enquanto as leves estão se tornando raras- afirmou.

De acordo com o pesquisador, nas metrópoles onde a urbanização e o desmatamento são maiores, como São Paulo, os efeitos se agravam ainda mais.

- São Paulo, por exemplo, antiga "terra da garoa", praticamente não tem mais garoas. É como se o efeito que verificamos no resto do país se ampliassem nas regiões mais desmatadas e urbanizadas.

O cientista frisou que muitas vezes a população não percebe as mudanças porque elas não ocorrem de maneira sequencial:
- Não temos dúvidas de que as chuvas finas estão diminuindo, dando lugar às grandes precipitações porque nossa cobertura é de mais de 100 anos de análises.

Ele frisou que Brasil é um dos países com mais dados sobre concentrações de chuvas.

Com a criação da Agência Nacional das Águas (Ana), em 2000, foram organizados bancos de dados contendo milhares de séries históricas em todos os estados da federação.

- Isso possibilitou uma série histórica muito satisfatória. Infelizmente, as constatações que temos feito superam as piores previsões do IPCC- disse.
Aumento de erosão e assoreamento de rios
De acordo com o pesquisador, os piores danos causados pela mudança no regime das precipitações são o aumento das erosões e do assoreamento dos rios, além dos prejuízos diretos que os temporais sempre causam nas metrópoles. Para a agricultura, no entanto, embora as chuvas finas sejam as mais benéficas, já existe tecnologia disponível para proteção do solo.

Outra pesquisa da Embrapa indicou que as temperaturas mínimas sofreram um aumento de 4 graus Celsius nos últimos 100 anos, durante os meses de inverno. Neste caso, os efeitos para a agricultura são piores.

- Essa situação tem se acentuado e já verificamos que os invernos estão sendo reduzidos- afirmou o cientista.

De acordo com ele, as culturas perenes, como pastagens, fruteiras, canaviais e cafezais sofrerão mais o impacto da elevação das temperaturas mínimas no inverno.

O Globo, 25/03/2009, Ciência, p. 26

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