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Mais quente e faminto

O Globo, Ciência, p. 32
19 de Jan de 2011

Mais quente e faminto
Aumento de 2,4 graus Celsius até 2020 reduzirá produção de alimentos

Um dos mais detalhados estudos já feitos sobre as consequências das mudanças climáticas revela o impacto devastador do calor na produção de alimentos. Segundo a análise, a temperatura do planeta subirá, pelo menos, 2,4 graus Celsius até 2020 - uma elevação considerada perigosa, capaz, por exemplo, de provocar o desaparecimento de diversas nações insulares. Para além das catástrofes naturais, tamanho aumento significa que, em apenas dez anos, estaremos vivendo num mundo muito mais faminto.
De acordo com os atuais padrões de distribuição de alimentos, a produção global não será suficiente para responder completamente às demandas de 7,8 bilhões de pessoas que, se estima, formarão a população mundial - cerca de 900 milhões a mais do que hoje.
Como resultado da redução na disponibilidade de comida, os preços dos alimentos devem subir até 20% - um aumento que pode levar várias pessoas à desnutrição.
Segundo números da Organização de Agricultura e Alimentos (FAO, na sigla em inglês) da ONU, cerca de um bilhão (uma em cada sete pessoas) sofre de má nutrição. Com a elevação do preços dos alimentos, estima-se que um em cada cinco indivíduos passem fome em 2020. As crianças serão as maiores vítimas. Hoje, 6,5 milhões de menores de cinco anos morrem por ano vítimas de desnutrição ou doenças relacionadas à falta de alimentos. O número deve dobrar em dez anos.
Menos milho, arroz e trigo no mundo
Estas são algumas das principais conclusões do relatório "O déficit alimentar - os impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos", um detalhado projeto do Fundo Ecológico Universal (FEU), uma organização não governamental, divulgado ontem.
Para chegar a tais conclusões, o relatório considerou os impactos das mudanças climáticas na produção global dos quatro grãos mais utilizados na alimentação humana: trigo, arroz, milho e soja. Em 2020, considerando os impactos do aquecimento global e do crescimento da população, a produção de trigo, por exemplo, apresentará um déficit de 14% em relação à demanda. No caso do arroz, será de 11%; e, no milho, de 9%. A única produção que deve aumentar é a de soja, que, se estima, deve crescer 5%.
A análise e os dados utilizados no relatório são oriundos de documentos considerados cruciais, já publicados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e outras agências da ONU.
- O objetivo do nosso relatório era analisar, sintetizar e atualizar documentos publicados e dados das mais diferentes fontes e os apresentá-los de forma acessível - explicou a diretora-executiva da FEU, Liliana Hisas, principal autora do relatório. - A análise é baseada nas conclusões do relatório de 2007 do IPCC para mostrar os impactos das mudanças climáticas a curto prazo, em uma década.
De acordo com os números, em 2020, a concentração de gases-estufa na atmosfera deve chegar a 490 ppm (partes por milhão), o suficiente para provocar um aumento de 2,4 graus Celsius na temperatura global.
- Por todo o mundo, eventos climáticos extremos serão registrados - disse o consultor científico do relatório, Osvaldo Canziani, que integrou o IPCC. - E novos aumentos da temperatura global vão exacerbar ainda mais a intensidade desses eventos.
Dois dos três principais elementos da produção de alimentos serão afetados diretamente: a água e o clima. O aumento e das chuvas das temperaturas nas áreas tropicais e a ampliação dos períodos mais quentes nas zonas temperadas são exemplos dessas alterações. Atualmente, 80% da agricultura depende das chuvas.
- Mudanças nos padrões de chuva terão um impacto significativo na produção agrícola mundial - explicou Canziani. - Menos água significa perda na produtividade agrícola. Além disso, em algumas regiões, redução nas precipitações também significa menos água disponível para irrigação.
Impacto no gado e no pescado
Cerca de 35 % d a produção mundial de cerais é usada para a alimentação de animais. Por isso, a redução da disponibilidade de alimentos tem um impacto direto na produção de carne, leite e derivados. Com o aumento da temperatura das águas e as decorrentes mudanças no ecossistema marinho, se espera também um impacto negativo na produção de pescado.

Mudança na dieta e medidas de adaptação

Alterações na atual dieta das populações do planeta são uma das principais formas propostas para se reduzir o impacto do aquecimento global na produção mundial de alimentos. De acordo com o Fundo Ecológico Universal (FEU) - uma organização não governamental que divulgou ontem o mais completo estudo já realizado sobre o assunto -, tais mudanças são necessárias para que o número de desnutridos no mundo não aumente de forma exponencial. A adaptação dos cultivos à nova realidade é uma outra maneira. Segundo os especialistas, o ganho na produção pode ser de até 10%.
O consumo médio de cereais, em todo o mundo, é de 43%, enquanto que quase 18% são raízes e tubérculos (como, por exemplo, batata e batata-doce). Já a média global de consumo proteínas tem sido de 9% de carnes e derivados, e 20% de leite e produtos lácteos (excluindo manteiga) desde 1990.
Mais feijões e lentilhas como fonte de proteína
Para enfrentar a diminuição da produção de alimentos e ainda manter uma dieta equilibrada e saudável, algumas das orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) poderão ser revistas. Por exemplo: comer mais raízes e tubérculos em vez de cereais.
A produção desses alimentos precisaria aumentar. Porém a expansão do cultivo de batatas teria que se feita em regiões de temperaturas mais baixas, já que o calor é um fator que limita grande produção. Neste caso, a melhor adaptabilidade das batatas-doces torna este tubérculo o mais adequado para um aumento na produção.
Com relação às proteínas, poderia-se buscar outras fontes, elevando-se o consumo de leguminosas como feijão e lentilhas, cujo teor deste nutriente varia de 18% a 25%.
Em países em desenvolvimento, o consumo de leguminosas corresponde a 5% da dieta diária, enquanto nas nações ricas este índice é de apenas 0,5%. A produção de lentilha - que tem 25% de proteína - poderia ser aumentada significativamente, deslocando-se o plantio da primavera para o início desta estação ou no outono.
De acordo com os especialistas, algumas mudanças cruciais poderiam ser adotadas também para adaptar a agricultura mundial a um mundo mais quente. Uma delas seria a realocação de cultivos e da criação de gado (com mudanças também nos períodos do ano destinados a cada etapa do processo), além do uso mais eficiente da água em regiões com menor precipitação de chuvas.
O relatório reforça a necessidade de um planejamento mais efetivo para a adaptação às mudanças climáticas e investimentos em novas tecnologias e infra-estrutura.
O ideal, claro, seria que os países chegassem finalmente a um acordo para a redução dos gases-estufa, o que poderia conter a elevação das temperaturas num patamar menos perigoso, abaixo dos 2 graus Celsius.
Até agora, entretanto, todos os esforços para se alcançar um acordo global nesse sentido fracassaram.
Para que alguma mudança significativa fosse alcançada, os países desenvolvidos - que respondem por 50% das emissões - precisariam reduzir seus lançamentos drasticamente, de 25% a 40% abaixo dos números de 1990, até 2020.
- O custo da inação pode ser extremamente alto não somente para futuras gerações, mas para esta - afirma Liliana Hisas.

O Globo, 19/01/2011, Ciência, p. 32

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