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Mais poluição e menos liderança

O Globo, Ciência, p. 35
06 de Dez de 2011

Mais poluição e menos liderança
Emissões batem novo recorde num momento em que países fogem de compromissos

Cláudio Motta claudio.motta@oglobo.com.br
Renato Grandelle renato.grandelle@oglobo.com.br

A redução das emissões de CO2 é um compromisso com o qual todos os países asseguram estar envolvidos. Na prática, porém, a promessa está longe da realidade. Um estudo divulgado ontem pelo Global Carbon Project ressalta que, no ano passado, a liberação de gases-estufa atingiu o nível recorde de 10 bilhões de toneladas de CO2 - 5,9% mais do que em 2009. E este número logo estará defasado. Em 2011, estima-se que o índice aumentará 3,1%, mesma média anual por toda a última década. Os dados são alarmantes, mas não o suficiente para levar chefes de Estado e governo a Durban, sede da 17ª Conferência do Clima. Apenas 12 presidentes e primeiros-ministros são esperados nesta semana, a última, do encontro. Em Copenhague, dois anos atrás, cerca de 120 deles compareceram às discussões.
Os líderes esperados são de nações com participação mínima no ranking das emissões, como Nauru, Honduras, Samoa e Mônaco. Incapazes, portanto, de reverter a paralisia das negociações diplomáticas. E, também, longe do quadro detectado por outros levantamentos divulgados ontem. Segundo o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, pelo menos 74% do Aquecimento Global observado nos últimos 60 anos pode ser diretamente atribuído à ação humana. Desde então, a temperatura global aumentou 0,5 grau Celsius, como destaca a pesquisa, publicada pela revista "Nature Geoscience".
Não há acordo sem os emergentes
Também ontem, o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas revelou que, nas dez geleiras mais estudadas do mundo, a quantidade de gelo perdido dobrou desde os anos 1980. E, diante de tantos índices e expectativas pessimistas, Durban permanece contaminada pela frustração.
- Parece que, para muitos países, a negociação climática deixou de ser prioridade - lamenta a coordenadora da ONG 350.org no Brasil, Juliana Rossar, que acompanha pela quinta vez a conferência. - Política e ciência deveriam caminhar juntos, mas isso não acontece. Há uma lacuna muito grande entre o que precisa ser feito e o que está sendo feito agora.
Em 2007, quando a convenção ocorreu em Bali, na Indonésia, foi estabelecido um prazo de dois anos para que a comunidade internacional criasse um sucessor para o Protocolo de Kioto. Quatro anos depois, nada aconteceu - e, agora, os países desenvolvidos e emergentes querem adiar a discussão para 2015. Com isso, os cientistas já admitem ser quase impossível manter o crescimento da temperatura global em apenas 2 graus Celsius. Com este índice, as Mudanças Climáticas seriam mantidas sob controle.
- As emissões globais de CO2 teriam de chegar ao pico em poucos anos, para que haja alguma chance de o aumento da temperatura ser inferior a 2 graus - alerta Corinne Le Quéré, pesquisadora da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e autora do levantamento que calculou as 10 bilhões de toneladas emitidas no ano passado. - Mas o índice de gases-estufa na atmosfera tem subido 3,1% desde 2000. Estamos longe do ápice.
Para a subsecretária estadual de Economia Verde do Rio, Suzana Kahn, que também está em Durban, os últimos dados de emissões de gases-estufa não permitem mais que países em desenvolvimento fiquem sem metas de redução dos seus lançamentos na atmosfera.
- Não há acordo sem os emergentes - assegura. - Sua participação é maior agora, porque estamos num cenário completamente diferente ao de Kioto, em 1997. Não há sentido em manter o discurso daquela época.
Suzana, porém, não acredita que grandes avanços serão selados na conferência sul-africana.
- Espero muito pouco. A razão de estar aqui é falar de medidas que podem ser tomadas no âmbito regional - destaca. - Falar de financiamento para os países pobres é complicado, sobretudo quando a própria Europa está atrás de ajuda.

A decadência do encontro

COP 15 (Copenhague): Em 2007, foi acertado que a COP 15 serviria como prazo-limite para o anúncio do sucessor de Kioto. Cento e vinte chefes de Estado foram à Dinamarca - e não tomaram qualquer decisão concreta.

COP 16 (Cancun): Após o fracasso da COP 15, a convenção começou sem expectativas e com menos de 30 governantes. Criou-se um fundo global para as nações pobres, mas não se sabe quem vai administrá-lo ou de onde virá o dinheiro.

COP 17 (Durban): Apenas 12 chefes de Estado estão no evento: a maioria da África (Congo, Etiópia, Gabão, República Centro-Africana e Senegal) e de pequenas nações insulares (Fiji, Nauru, Niuê, Samoa). Completam a lista Honduras, Mônaco e Noruega.

O Globo, 06/12/2011, Ciência, p. 35

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