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Maiores economias concordam com meta de 2°C de aquecimento

OESP, Vida, p. A13
10 de Jul de 2009

Maiores economias concordam com meta de 2oC de aquecimento
Não houve acordo em relação a como o objetivo será alcançado; ONU diz que políticas ainda não são suficientes

Denise Chrispim Marin, enviada especial, Áquila

As 17 maiores economias do mundo concordaram ontem, em uma reunião na Itália, que o aquecimento global não deve passar dos 2oC em relação à temperatura pré-Revolução Industrial. Contudo, divergiram em relação a como essa meta será alcançada.
Ainda assim, o gesto significou a adoção de um critério científico e pragmático, que era rejeitado por vários países, segundo o ministro Luiz Alberto Figueiredo Machado, principal negociador brasileiro do tema. Sua expressão, na prática, estaria na definição da meta global de corte de 50% nas emissões até 2050, com o compromisso de os países desenvolvidos de assumir 80% da redução.

Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, alguns países do G-8 resistiram a essa meta. Com isso, alguns países em desenvolvimento impediram o consenso sobre o corte global de 50% nas emissões. Essas aproximações terão de se dar nos próximos cinco meses, até a próxima Conferência do Clima, em Copenhague.

Apesar da falta de consenso, a reunião marca uma reviravolta no debate porque os americanos, que durante a administração George W. Bush negavam qualquer avanço, tornam-se agora líderes da questão. Barack Obama foi o porta-voz da reunião. "Os Estados Unidos algumas vezes deixaram de assumir sua responsabilidade. Esses dias acabaram", disse Obama, que defendeu que a reunião foi um avanço. "Não é tarefa simples para 17 líderes deixar as diferenças de lado em um assunto como mudanças climáticas."

Já o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, criticou a proposta do G-8. "As políticas que foram declaradas até agora não são suficientes", afirmou. "Precisamos trabalhar de acordo com a ciência. É político e moralmente imperativo e uma responsabilidade histórica dos líderes com o futuro da humanidade." A ciência diz que os 2oC são um limite a ser perseguido, mas não são garantia de segurança. Mesmo com esse aquecimento eventos climáticos extremos, como secas e chuvas, podem se tornar mais frequentes.

ACORDO

O Brasil quer compromissos mais suaves para as economias emergentes e pobres, sem metas quantitativas. Quer apenas ter o objetivo de adotar políticas de desenvolvimento que não gerem mais emissões de gás carbônico.

Brasil e EUA tentarão alcançar uma posição comum para a Conferência do Clima. A proposta de afinar as posições partiu de Obama, que se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reservadamente. A dificuldade de conciliação dos dois países no tema, entretanto, emergiu de Obama. Segundo ele, assumir compromissos mais ambiciosos pode trazer um impacto brutal sobre a indústria americana, provocar a transferência de investimentos produtivos para a China e gerar um grave problema social.

Lula argumentou que políticas públicas que geram cidadania significam elevação das emissões de gases-estufa. O brasileiro agregou seu temor de que, nas negociações de Copenhague, a queda de braço entre desenvolvidos e emergentes acabe no aumento da responsabilidade das economias desenvolvimento. Ele disse que não pretende ver as nações mais ricas "escorregarem" em seus compromissos e, como compensação, oferecerem aportes a fundos para financiar controle de emissões por países em desenvolvimento.

Disputa pela hegemonia tecnológica dificulta debate
Novas formas de gerar, armazenar e transferir energia devem ser base da economia para reduzir emissões

Cristina Amorim

Faltam 161 dias para o fim da próxima Conferência do Clima (COP), que acontece em dezembro, em Copenhague. Esse é o prazo para que o mundo conheça o regime político que guiará os governos para uma economia descarbonizada no século 21, a fim de evitar os piores aspectos do aquecimento global.

Contudo, a sinalização que sai da reunião das 17 maiores economias é fraca. O que o G-8 propôs - corte global de 50% das emissões de gases-estufa até 2050, corte de 80% pelos industrializados e forte comprometimento dos emergentes - não traz novidade. Que os países ricos precisam fazer mais, e que os emergentes precisam fazer algo de fato, todos concordam - a questão é quando, como e quem paga. Além da meta para o meio do século, é preciso trabalhar com ações de médio prazo, como falou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, é esperado aquecimento de 0,2oC por década - 0,1oC se as emissões de gases-estufa fossem congeladas como eram em 2000, o que não acontecerá.

NA PRÁTICA

A disputa pela hegemonia tecnológica - e, portanto, econômica - regional e global emperra as negociações. Descarbonizar a economia significa mexer na base energética dos países, manter florestas intocadas e quebrar os padrões de consumo ocidentais ricos tão ambicionados pelos pobres do Ocidente e Oriente. Isso tem um custo alto - 2% do PIB mundial, segundo o economista Sir Nicholas Stern -, porém menor do que o da inação ( até 20% do PIB mundial).

O que está em jogo é quem vai perder menos e quem pode ganhar mais. Os países industrializados são os mais responsáveis pelo problema, pois cresceram à custa do planeta. Pagam mais caro, com taxas de redução de emissão. Os emergentes e os pobres querem trilhar o caminho do desenvolvimento, porém manter o mesmo modelo não é viável. Para crescer, contemplar suas populações pobres e não poluir, querem ajuda.

Os ricos concordam no discurso, mas não apresentaram propostas de financiamento e transferência de tecnologia. "É uma briga de cachorro grande, com muitos interesses por trás, pela mudança no paradigma de desenvolvimento", diz o diretor executivo do Greenpeace Brasil, Marcelo Furtado.

A transferência de conhecimento é o item mais espinhoso. Novas formas de geração, armazenamento e transferência de energia têm o potencial de ser a base da economia de grandes nações em um mundo sem carbono - e os EUA, com sua lei da energia, em análise no Senado, caminha nesta direção, em um futuro com menor subsídio à agricultura e maior à indústria.

A China também está de olho neste mercado para se tornar líder, pelo menos regionalmente. Mas está aquém da capacidade americana e com imenso passivo ambiental - é hoje o maior emissor de gases-estufa.

Havia expectativa de que o cabo de guerra fosse afrouxado com a nova direção americana. Maior contribuidor histórico para o problema, os EUA mostram liderança (de Barack Obama), arcabouço (lei de energia) e base política para contribuir no debate. "O país mais poderoso do mundo está mudando radicalmente de lado, o que tem uma influência brutal nos demais", avalia o cientista político Sergio Abranches. "Os outros vetos ficarão mais visíveis."

OESP, 10/07/2009, Vida, p. A13

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