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Maio se despede com ótimas notícias

Marcos Sá Correa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Correa
28 de Mai de 2010

O único defeito de maio é que, como todo mês, ele um dia acaba. Maio de 2010 foi no Parque Nacional do Iguaçu uma temporada para ninguém botar defeito. Fora a convocação de Pança para prestar serviços à conservação das onças-pintadas, com um rádio-colar no pescoço e a missão de mostrar a quantas anda sua espécie, o rio encheu acima de qualquer expectativa, a temperatura escaldante do verão caiu de repente abaixo dos 15 graus centígrados, e com elas as folhas amarelas do outono, como convém a esta floresta estacional semidecídua, a típica mata tropical do planal paranaense.

No ar mais frio, a névoa levantada pelas quedas custava a se dissipar. Amanhecia ancorada na copa das árvores, em forma de névoa. Caía do céu azul como pingos de chuva. E esticava os últimos raios do sol nos fins de tarde com poentes espetaculares. O rio Iguaçu podia estar barrento ou claro que, sob essa luz filtrada na poeira d'água, pouco antes de escurecer as cataratas se avermelhavam.

O chão, de quebra, encheu-se de frutas silvestres. Caminhar pelas trilhas sabendo que todas elas têm apelido, nome científico, sabores e cheiros, todos desconhecidos, virou o passatempo predileto de quem se dispõe a aprender, pelo menos, até que ponto chega sua vasta ignorância. Dava inveja dos bichos. Eles sim, animais racionais, detentores de informações indispensáveis para tirar o melhor proveito possível da estação.

Havia mais pássaros nas árvores. As cotias - que o inglês Gerry Durrell considerava uma das criaturas mais estressadas do planeta, trocaram pela gula uma parte da timidez e tomaram decisões temerárias, como sair em campo aberto por conta da fartura de comida espalhada pela relva dos acostamentos.

Os quatis - que, a fauna nativa nos perdoe, mas só perdem para os mosquitos e os turistas, quando vêm em nuvens, o título de maiores chatos do Iguaçu - passaram a achar tanta novidade comestível na margem da BR-469 voltada para o mato que deixaram de atravessá-la, para pedir restos de sorvete, refrigerante e sanduíches aos outros fregueses habituais das lanchonetes, na trilha das Cataratas.

De repente, famílias inteiras de quatis - e elas são numerosas, porque a oferta artificial de alimentos está ajudando a produzir ninhadas cada vez maiores - fuçavam o chão com a atenção e o discernimento de porcos do Piemonte em busca de trufas brancas. O quê? Só perguntando a eles. Ninguém, no parque, sabia dizer o que eles desencavam e devoram com tamanha sofreguidão. Mas eles, sem dúvida, sabem.

Alguma coisa na terra orvalhada dia e noite pela bruma das cachoeiras devia ser irresistível, porque excepcionalmente eles não queriam saber de mais nada. Por um fim de semana, pelo menos, no outono de 2010, foram os turistas que correram atrás deles. E olha que turista é um bicho distraído. Tanto que, no domingo, 23 de maio, dia de feriadão na Argentina, com mais de seis mil visitantes passando pela bilheteria do parque, quase ninguém levantou o dedo para apontar o veado mateiro que saiu da floresta às quatro e pouco da tarde, para provar a vegetação rasteira do barranco que costeia a BR-469.

E lá ficou ele, tranqüilamente, diante das escadas que levam ao elevador do salto Floriano, o lugar mais freqüentado em todo o circuito das Cataratas. Como se não passasse por ele naquele instante, do outro lado da pista, uma procissão contínua de visitantes. Se, além de ver as quedas, eles quisessem saber para quê serve mesmo um parque nacional como o do Iguaçu, a resposta esteve ali, por mais de dez minutos, para quem quisesse ver. Um parque nacional é para os seres nativos se sentirem em casa.

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