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Madeireiros ameaçam destruir reserva indígena do Xingu

Diário de Cuiabá-MT
Autor: Orlando Morais
20 de jun de 2001

Expedição mostra que parque já é um oásis no meio do nordeste devastado de Mato Grosso

A busca desenfreada por madeira e a expansão agropecuária já começaram a ameaçar o equilíbrio ambiental da mais importante reserva indígena do Brasil: o Parque Nacional do Xingu. Uma expedição realizada no mês passado por fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), a pedido da organização não-governamental Instituto Socioambiental (ISA) e da Associação Terra Indígena Xingu (Atix), verificou que o Parque já se tornou um verdadeiro oásis em meio às áreas destruídas da região nordeste de Mato Grosso.

Criada em 1961, a reserva do Xingu ocupa 2,8 milhões de hectares e é habitada por cerca de 4 mil índios de 14 etnias, que estão incomodados com uma vizinhança ameaçadora: cerca de 1,5 mil serrarias. O resultado foi que a expedição ficou restrita a autuar madeireiros, a interditar serrarias e a aplicar multas. Em apenas dez dias (ou num raio de apenas 20 quilômetros), 32 pessoas foram autuadas, 30 serrarias encontradas em situação irregular e multas ambientais distribuídas num valor total de R$ 389,6 mil. Num determinado dia, os fiscais flagraram dezenove caminhões deixando a mata repletos de toras de ipê, cedro e outras madeiras nobres, em direção ao sudeste e ao sul do país. Dois deles, apenas, tinham licença para tal.

De acordo com o representante do ISA na expedição, o fotógrafo Antonio Kehl, ninguém está a respeitar a legislação que diz que uma área de dez quilômetros ao redor do Parque deve ser preservada. Pelo contrário, estão desmatando inclusive as margens dos rios e colocando o gado para pastar em área indígena.

Os madeireiros agem como saúvas desenfreadas e famintas, destruindo tudo que encontram pela frente, sem nenhum critério ou piedade, escreve ele em seu diário de viagem. A situação está completamente fora de controle. Em dez dias viajando ao redor do parque não encontramos sequer uma atividade legal. Era comum, segundo o fotógrafo, os madeireiros fugirem à chegada dos fiscais deixando para trás seus pertences e muita madeira.

A mata dentro do território indígena, por sua vez, está preservada porque não há estradas e os índios montaram postos de vigilância em todos os rios. De acordo com o indigenista do ISA, André Villas Bôas, é principalmente pela rodovia Cuiabá-Santarém, a oeste da reserva, que está passando a destruição, por causa da ação de madeireiros. O trecho compreende os municípios de Marcelândia, Carmem, Cláudia, Vera, União do Sul e Paranatinga. Ao sul, a preocupação é com o alastramento da monocultura de soja. E à leste predomina a criação de gado. A região, segundo o indigenista, tem vocação florestal madeireira - e poderia fornecer madeira por muitos e muitos anos caso a exploração fosse criteriosa. Mas se continuar do jeito que vai indo, dentro de 5 anos a floresta vai acabar, disse ele. Ali, o plano de manejo é só pra inglês ver.

SOBREVIVÊNCIA OU ESPORTE - Villas Bôas, que já morou no Xingu, diz que os índios vêm demonstrando uma preocupação cada vez maior com o meio ambiente. A caça e a pesca, suas principais atividades de subsistência, vêm-se tornando cada vez mais escassas. Para eles, a pesca é uma questão de sobrevivência, enquanto que para o homem branco ela não passa de um esporte, disse Villas Bôas. Por causa disso, os índios querem propor à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema) que permita em toda a bacia do Xingu apenas a prática do pesque-solte.
ISA e Fema se unem para impedir devastação

Um escritório regional da Fundação Estadual do meio Ambiente (Fema) deverá ser aberto no município de Querência ou Gaúcha do Norte para intensificar a fiscalização do órgão nas áreas de entorno do Parque Nacional do Xingu. A informação foi dada pelo diretor de Fauna e Flora da Fema, Paulo Leite, após uma reunião na segunda-feira (18) com os representantes do Instituto Socioambiental (ISA).

De acordo com Paulo Leite, a Fema deve firmar com o ISA a primeira parceria em nível de execução de controle ambiental do Estado. Nesse convênio, a Fema entraria com a sua obrigação de controlar, fiscalizar e monitorar as atividades econômicas na região, enquanto o ISA faria um trabalho de educação ambiental das comunidades lá existentes, bem como daria apoio técnico a projetos de recuperação de áreas degradadas "como nascentes de rios que correm dentro do Parque.

O Sistema de Geoprocessamento e Licenciamento Ambiental da Fema, que monitora as propriedades com imagens de satélite, segundo Paulo Leite deverá ajudar o órgão a gerir as áreas particulares no entorno do Parque do Xingu. Hoje, para toda a região oeste do Estado, a Fema possui seis equipes em caminhonetes.

O estratégia da Fema para evitar a devastação ambiental na região será fazer com que os proprietários de terras cumpram a legislação. Segundo o Código Florestal Brasileiro, 80% da área de cada propriedade rural na região da Amazônia Legal devem ser preservados " bem como as áreas de preservação permanente, como nascentes de rios.

De acordo com o indigenista André Villas Bôas, o ISA é favorável ao convênio, podendo inclusive montar viveiros de árvores nativas para reflorestar a região. A partir do cadastro dos proprietários de terras da região do entorno do Parque, fornecido pela Fema, Villas Bôas considera que é possível se pensar em várias estratégias de educação e de controle ambiental. A Fema pode obrigar, por exemplo, que os donos de terra desmatem os 20% que têm direito o mais longe possível da reserva, afirmou. (OM)

Fotógrafo relata tristeza e revolta dos índios do Xingu

O fotógrafo e artista gráfico Antonio Kehl se decepcionou quando soube que a expedição ao Xingu não seria para apreciar a dança ou o artesanato das etnias indígenas lá existentes - e nem para assistir a celebração dos mortos mundialmente famosa, o Quarup. Meu objetivo original era entrar no parque, correr as aldeias, registrar os índios em seu modo de vida, conhecer seus costumes; e não ficar acompanhando fiscais sedentos por infrações, diz ele em seu diário de viagem.

Logo nos primeiros dias, porém, Antonio Kehl imbuiu-se de solidariedade aos índios que tentavam, com aquela pequena equipe quase sem recursos, preservar um pouco das matas brasileiras e proteger o seu parque. Isso me parecia um motivo mais nobre que simplesmente olhar o Quarup ou fotografar a feitura do biju. Enquanto as 540 imagens capturadas pela lente solidária de Antonio Kehl mostram os cenários devastadores da exploração desenfreada da madeira, seu diário fala da tristeza e da revolta estampadas no rosto dos índios a ver o lugar onde moram ser destruído. Segundo ele, as fotos retratam, ao mesmo tempo, a devastação, a burocracia, a corrupção, a incompetência e a esperteza, diz.

Antonio Kehl saiu do Xingu quase com a certeza de que, mesmo aqueles que foram multados e tiveram sua madeira apreendida, darão um jeitinho e, mês que vem, estarão cortando novamente. De acordo com o fotógrafo, ali estão todos num mato sem cachorro e começam, por força da necessidade, a cortar a mata. Uma multa pesada irá empurrar de vez para marginalidade gente que estava ali tentando reconstruir sua vida - muitas vezes gente honesta e bem intencionada - emperrada pela burocracia do governo. Os mais espertinhos cortaram a madeira, venderam e foram embora com o dinheiro, abandonado o lote.

Ao final, Kehl se pergunta: Não há no mundo país como o nosso: terras férteis, hidrografia farta, clima perfeito, recursos minerais. Por que não sabemos administrar nossa riqueza? Por que diabos não sabemos fazer a coisa certa?

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