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A luz que chega ao Jequitinhonha

GM, Energia, p. A6
16 de Dez de 2004

A luz que chega ao Jequitinhonha

Cemig investe R$ 1 bilhão na construção da hidrelétrica de Irapé que vai gerar 360 MW. A retirada dos últimos moradores ribeirinhos e o imediato fechamento das comportas, previstos para ocorrer nos primeiros dias de janeiro, darão início à formação da mais profunda represa do país. Com 208 metros de altura, a hidrelétrica de Irapé, que a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) está construindo no rio Jequitinhonha, em Minas Gerais, não se tornará célebre apenas por esse gigantesco recorde. Trata-se do maior investimento público já realizado numa das mais pobres regiões do Brasil, que é o imenso vale banhado por aquelas águas.
A empresa está investindo cerca de R$ 1 bilhão com recursos próprios nessa obra que, coincidentemente, também é um dos maiores empreendimentos nacionais em execução na área de infra-estrutura. A usina vai gerar 360 megawatts (MW), que não é muito, já que cumpre também o importante objetivo de regularizar a vazão do rio, mas será suficiente para iluminar todos os lares dessa região, com extensão maior que a Holanda e Bélgica somadas. Alí, onde vivem cerca de um milhão de habitantes, estão plantados alguns dos índices de desenvolvimento humano mais acanhados do planeta, como a Vila do Peixe Cru, cuja escandalosa miséria de casas sem banheiro ou água encanada, ficarão submersas nas águas do lago.
Quase 20% do orçamento do projeto serão destinados a um gigantesco programa social na região, sobretudo em benefício das 1.100 famílias atingidas pela inundação, que se estenderá por mais de cem quilômetros.
Cerca de R$ 600 milhões, em valores atualizados, serão gastos nas obras civis, à cargo do consórcio liderado pela Construtora Andrade Gutierrez, com participação da Construtora Norberto Odebrecht, da Hochtief Internacional do Brasil e da Ivaí – Engenharia de Obras S.A. Os outros R$ 200 milhões serão para o pagamento das turbinas, compra e montagem de todos os equipamentos eletromecânicos, a cargo da empresa Voith Siemens Hydro Power Generation Ltda. Da parte destinada às obras sociais estão incluídos o gigantesco programa de reassentamento e obras urbanas para atender aos sete municípios que terão parte de suas terras submersas.
As dificuldades para a construção da barragem se revelaram imensas, desde os momentos iniciais da obra. A começar pela ausência de estradas pavimentadas para se chegar àquele ermo e, em seguida, pela quase impossibilidade de acesso ao rio, que corre sufocado por um "canyon" de quase de 500 metros de altura. "Nunca enfrentei obra de execução tão difícil" revela o eng. Mário Roberto Perón, chefe do projeto. Ele tem larga experiência no ramo, já trabalhou em cinco outras grandes barragens e para alcançar o rio que iria domar, teve de descer em cordas, como se estivesse praticando um esporte radical. Muitos moradores da região recusaram o emprego na obra com medo daqueles penhascos, preferindo se ser bóia-fria em São Paulo.
O engenheiro Perón comanda um exército que chegou a alcançar 3.600 homens em novembro último, e mais de 500 máquinas e tratores que demoraram quase três meses para alcançar o leito do rio. Construíram uma ponte para atravessa-lo e se depararam, do outro lado, com uma muralha ainda maior, impossível de ser vencida por rampas ou estradas. Então, começaram a abertura de túneis para tráfego de veículos, desvio das águas e para vertedouros que totalizam mais de sete quilômetros
Ocupação para aquela imensa legião de desempregados foi outro benefício imediato. Claro que não se trata de uma conquista permanente, pois os serviços de construção estarão concluídos em 12 meses. Mas, como lembra o engenheiro Perón, que assina os cheques de todos os trabalhadores, a folha mensal supera R$ 4 milhões, dinheiro que, em grande parte, alimenta aquelas comunidades, criando oportunidade também para os que não estão nas obras.
Os maiores benefícios estarão visíveis a partir de agosto do próximo ano, quando a água alcançar as grimpas da barragem e começar a gerar a energia. Segundo estatísticas apresentadas pela superintendente da Cemig, Mônica Neves Cordeiro, que coordena todos os trabalhos de construção da usina, a estatal desembolsará cerca de R$ 100 milhões/ano em ICMS e pagamento de compensações pela inundação de terras. Segundo a engenheira, os benefícios maiores, porém, serão com a disponibilidade de energia e a perspectiva de industrialização e progresso para uma região, até hoje, esquecida.

kicker: Reassentamento da população atingida pela inundação vai exigir cerca de R$ 200 milhões

Casa de alvenaria e água quente para reassentados
Caso não estivesse sendo acompanhada pelo Ministério Público e por outros órgãos da administração federal, a generosidade da Cemig no programa de reassentamento dos atingidos pela hidrelétrica de Irapé poderia ser conside-rado um escândalo financeiro de gigantescas proporções. Pequenos meeiros como Adão de Souza Martuchel, cuja esposa é professora no esquecido quilombo de Porto Coriz e proprietário de um minúsculo lote de 150 metros quadrados, foi contemplado, a exemplo dos seus 28 vizinhos, com uma área de 40 hectares, com cerca de arame e direito a sementes, defensivos e adubos para dois anos seguidos de plantio.
A associação dos moradores da agrovila para onde serão transferidos receberá, gratuitamente, um trator, implementos agrícolas e assistência técnica tanto para as máquinas quanto para a lavoura, por oito anos seguidos. As casas que os aguardam é de alvenaria, tem três quartos, sala, água quente e uma fantástica novidade: o banheiro com louça sanitária. Para atender a todos os atingidos, a Cemig adquiriu mais de 100 fazendas, entre as melhores da região, escolhidas pelos seus futuros moradores, com terras de alta qualidade e boa parte já em produção.
Por isso, antes mesmo da mudança, muitos atingidos pela futura inundação já estão ganhando dinheiro com a venda da produção das lavouras que estavam plantadas ou com o aluguel de pastos. Na fazenda Araras, no município de Francisco Sá, a associação dos atingidos comercializa a produção de bananas que eles não plantaram, exigindo de um deles, o antigo meeiro Odair Martins, solicitação à Cemig para antecipar a mudança, com o objetivo de acompanhar os negócios mais de perto. "Estamos vendendo 200 caixas de bananas por semanas para comerciantes em Montes Claros e em entendimentos com o Rio de Janeiro e Belo Horizonte", afirma outro reassentado, Sebastião de Barros, que é o presidente da associação.
Como é obrigatório o desmate da metade das matas que serão atingidas pela inundação, com o objetivo de preservar a barragem e a futura navegação, a Cemig derrubou mais de quatro mil hectares de árvores e doou a madeira aos atingidos para usá-la livremente. Caso queiram fazer carvão para atender às siderúrgicas, como está acontecendo em quase toda a região, o produto é vendido por cerca de R$ 600,00 a tonelada.
No povoado para onde serão transferidos os moradores da Vila do Peixe Cru, a Cemig se excedeu nas suas reparações a danos financeiros e psicológicos nos inundados. A estatal removeu a igreja, incluindo o velho sino, o altar e o pesadíssimo madeirame de aroeira e também construiu uma piscina pública para aqueles que eventualmente sentirem saudade das braçadas nas águas do Jequitinhonha. Também foi montado um bar, com balcão de cimento, para substituir a birosca que ainda anima as noites dos seus moradores.

Lelivéldia já pensa em se emancipar
O povoado de Lelivéldia, com dois mil habitantes e a apenas cinco quilômetros do canteiro de obras, foi contemplado com encanamento para água e saneamento, calçamento nas ruas, ampliação da escola estadual e do mercado. O lugarejo tem esse nome em homenagem ao seu fundador, o padre holandês Willy Leliveld que ainda é vivo e comandou a construção de uma igreja no local, há 52 anos. É um distrito de Berilo, que fica mais afastado das barrancas do rio.
Graças a esses benefícios, sua população se sentiu encorajada a lutar pela emancipação política, não somente porque está fascinada pelo progresso mas pensando nas compensações que os municípios atingidos terão. Berilo receberá cerca de R$ 120 mil anualmente, dinheiro que a população de Lelivéldia, pensa em apossar-se, no todo ou em parte, como diz o vice-prefeito o mestre-escola Cleto Avelino de Souza, residente no arraial.

GM, 16/12/2004, Energia, p. A6

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