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A luta para salvar a banana e o Vale do Ribeira

OESP, Economia, p. B9
11 de Jul de 2004

A luta para salvar a banana e o Vale do Ribeira
Doença põe em risco atividade de que dependem 75% dos moradores da região

José Maria Tomazela

O barulho do avião agrícola num vôo rasante faz estremecer as paredes de tábuas da casa onde o trabalhador rural Antonio Carlos Rocha, de 26 anos, termina seu café. Os dois filhos pequenos acordam assustados e chamam pela mãe. Rocha pega o boné, algumas ferramentas e sai de bicicleta pela trilha no meio do bananal que cerca a casa e cobre toda várzea do Rio Ribeira de Iguape, em Sete Barras, no Vale do Ribeira, sul do Estado de São Paulo.
Nos últimos dias, os aviões estão chegando mais cedo e os rasantes tornaram-se freqüentes, espalhando uma névoa sobre os bananais. "É a tal sigatoka. Dizem que vai acabar com a banana", comenta Rocha, cortador de bananas há dez anos. "Se acontece essa desgraça, vai ser o fim do mundo.
O alvo da pulverização aérea é um esporo invisível, capaz de viajar com o vento a uma distância de 50 quilômetros. Produzido pelo fungo Mycosphaerella fijiensis, causa a sigatoka negra, doença extremamente agressiva, com potencial para dizimar os bananais em poucos meses. Foi o que ocorreu na região de Manaus (AM), onde a sigatoka se instalou em 1998, vinda provavelmente do Equador.
Há um mês, um foco encontrado em Miracatu, próximo à Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), que liga São Paulo a Curitiba, pôs em alerta o sistema de defesa fitossanitária do Estado. O bananal foi erradicado, mas era tarde.
Na semana passada, o fungo já estava disseminado. Foram encontrados focos em quase todas as cidades, até em Barra do Turvo, no outro extremo do Vale. A região, a mais pobre de São Paulo, é também a maior produtora de banana do País.
No ano passado, o Vale colheu 1,1 milhão de toneladas de bananas, enquanto o resto do Brasil produziu 5,9 milhões. Dos R$ 344 milhões gerados pela produção agropecuária da região, a banana respondeu por R$ 277 milhões, segundo a Associação Comercial de Registro. O produto é responsável por 80% do total de recursos movimentados na região.
O Vale responde por 90% da banana consumida na Grande São Paulo. A fruta gera 30 mil empregos diretos, mas pelo menos 200 mil pessoas - 75% da população regional - dependem direta ou indiretamente de atividades ligadas à bananicultura. É gente envolvida com o transporte, produção de caixas, vendas de insumos, prestação de serviços, comércio e processamento industrial da fruta. "Mais que um problema sanitário, lidamos com uma grave questão social", diz o diretor do Escritório de Desenvolvimento Agropecuário de Registro, Gilmar Gilberto Alves.
Mais da metade dos 40 milhões de pés de banana espalhados por 41,6 mil hectares estão nas mãos de micro e pequenos produtores. São bananicultores que utilizam principalmente a mão-de-obra familiar para cuidar de até 20 mil plantas. A quase totalidade das culturas é das variedades nanica e prata, bastante sensíveis ao fungo.
A doença tem tratamento, mas é caro. Em vez das cinco ou seis pulverizações aplicadas hoje para combater outra forma da sigatoka, a amarela, menos ofensiva, será preciso fazer de 18 a 60 aplicações. O custo se torna alto para o pequeno produtor. Salvo nas plantações muito pequenas, a pulverização tem de ser feita com avião, a um custo de até R$ 70 por hectare a cada aplicação. "Nesse cenário, a maior parte dos pequenos e médios estará fora do negócio", diz Alves.
Como a doença não afeta a fruta, apenas a bananeira, a produção do Vale continua sendo escoada para São Paulo, mas já há restrições ao transporte.
Os governos do Rio de Janeiro e Paraná proibiram a entrada da banana paulista em seus territórios. Nas feiras de São Paulo e Sorocaba, o preço da banana nanica subiu de R$ 1 para R$ 1,80 a dúzia. A prata saltou de R$ 1,40 para R$ 2,50.
A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado criou um grupo de trabalho para adotar medidas de emergência na tentativa de retardar a expansão da doença. Cerca de 60 técnicos e agrônomos recebem treinamento rápido para identificar o fungo. O objetivo é fazer um mapeamento das áreas infectadas e iniciar o combate à doença. A erradicação dos bananais está fora de cogitação. Serão eliminados apenas os que estão abandonados ou fora do sistema produtivo.
"Estamos editando uma cartilha com os procedimentos mínimos para o bananicultor continuar sua produção", diz Alves. A dificuldade é a falta de parâmetros. "A sigatoka negra nunca apareceu em uma região tão distante dos trópicos." Ele espera que o frio seja um aliado dos produtores. A doença se propaga com mais intensidade nas regiões de clima quente.
Outra alternativa é a substituição das variedades suscetíveis por cultivares resistentes. Isso implica, segundo Alves, trabalho de adaptação do consumidor, muito acostumado ao sabor da nanica. Quem já experimentou resiste ao paladar dos cultivares caipira prata ken e prata zulu, bastante resistentes. A banana fhia 2, parecida com a nanica, é resistente, mas não há mudas suficientes.
Plano - Em Sete Barras, o aparecimento de um foco em alguns pés de banana na área urbana caiu como uma bomba. As bananeiras contaminadas estavam na região central. A cidade, de 14.980 habitantes que vivem em função da fruta, parou. Os produtores foram bater na porta do prefeito Ademir Kabata (PFL), ele também um bananicultor. Kabata pediu uma reunião dos produtores com técnicos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado. O encontro reuniu 400 bananicultores, assustados e exaltados, no município de Registro. O prefeito criticou a demora do governo em tomar medidas de prevenção contra a praga.
"Desde 2001 se sabia que o fungo podia chegar a qualquer momento, mas não houve barreiras, nem investimento em variedades resistentes." Kabata e outros prefeitos reivindicaram ação conjunta dos governos estadual e federal para salvar a bananicultura do Vale. Foi proposto um plano especial, com liberação de verba para o custeio das pulverizações, crédito com juros subsidiados para formação de pomares resistentes e investimentos em laboratórios para a produção de mudas a partir do meristema de plantas resistentes. Também foi pedido um projeto de diversificação da economia regional.
O prefeito diz que Sete Barras saiu na frente e incentivou a diversificação de culturas. "Eu mesmo plantei outras frutas, como atemóia, lixia e mangostão." Segundo o secretário de Desenvolvimento Rural do município, Paulo César Simões, a Prefeitura adotou sistema de monitoramento dos bananais e faz a reforma das culturas a custo zero para o produtor. "Estamos construindo uma indústria de doces para absorver a produção excedente."
O pequeno bananicultor Pedro Custódio de Almeida, de 72 anos, criou a família e vive do bananal que ocupa cinco hectares. Ele examina folhas e cachos à procura de sinais da doença, mas não encontra as estrias amarronzadas nas folhas que indicam a presença do fungo. "Isso é tudo o que tenho."
O produtor Eugênio Pereira Sobrinho, de 47 anos, mandou reforçar a pulverização nos 17 hectares de banana nanica, no bairro Conchal Branco.
Além da ajuda da família, ele tem cinco empregados e colhe 32 toneladas por hectare ao ano, bem acima da média regional de 25 toneladas por hectare.
O bananicultor começou a diversificar a lavoura há dois anos, plantando milho verde e arroz. Ele não sabe se continua com a banana. "Hoje, fazendo cinco pulverizações, o custo de produção fica em 70% do valor da fruta", calcula. "Se triplicar o tratamento, não vai compensar." O produtor Nelson José Florêncio, de 49 anos, manda para o Ceasa de São Paulo, todo dia, mil caixas de banana. A fruta viaja em caminhões climatizados. Quando não tem produção própria, adquire a de outros bananicultores.
O vereador José Carlos de Oliveira (PL) presta serviços de embalagem para os produtores. Numa estrutura puxada por um trator, oito pessoas desbastam as pencas, lavam nos tanques, ajeitam nas caixas de 13, 18 e 21 quilos. A embalagem é feita no próprio bananal. O encarregado Laurindo Silvestre Andrade, de 36 anos, ganha R$ 550 por mês para coordenar o trabalho do grupo.
Com a renda, mantém a casa própria, em Sete Barras, onde reside com a mulher e três filhos, um deles recém-nascido. "Já embalamos muita banana para a Argentina." Tadao Magário, de 67 anos, que desde os dez vive no bananal, defende uma ação firme do governo para obrigar os produtores a tratar os bananais. "Não adianta um pulverizar e outros não."
Ele tem 100 hectares, metade prata, metade nanica, variedades sensíveis à sigatoka. É sobre sua lavoura que o avião da Banavale Aeroagrícola despeja os fungicidas, os mesmos usados contra a sigatoka amarela. Em tempos normais, nesta época os três aviões estariam parados. Com o surgimento da sigatoka negra, pulverizam pelo menos 300 hectares por dia.
Maior produtor - A bananicultura é uma das atividades agrícolas mais importantes no Brasil. O País é o terceiro maior produtor, atrás da Índia e do Equador. É o oitavo em exportação e atende Argentina, Uruguai, Chile e Reino Unido. A banana é a segunda fruta mais consumida, constituindo parte importante da renda dos pequenos produtores e da alimentação da população mais carente, principalmente no meio rural.
No Brasil, a cultura ocupa o segundo lugar em volume de frutas produzidas, perdendo apenas para a laranja. O consumo per capita nacional está em torno de 25 quilos por ano.
Em todas as regiões do mundo onde ocorre, a sigatoka negra causa reduções de até 100% na produção comercial de bananas do tipo prata e nanica, já a partir do primeiro ciclo de cultivo. Segundo o pesquisador Luadir Gasparotto, da Embrapa, a doença, quando comparada com a sigatoka amarela, é extremamente destrutiva, pois provoca a morte prematura das folhas, ataca um número muito maior de cultivares de bananeiras e, nas regiões quentes e úmidas, exige até 52 pulverizações ao ano com fungicidas protetores ou 26 com sistêmicos para seu efetivo controle.
Na Costa Rica chega-se a fazer até 56 pulverizações anuais. A doença foi descrita pela primeira vez em 1963, nas Ilhas Fiji, no Pacífico Sul, tendo se disseminado pelas regiões produtoras do Pacífico, Ásia e África. Em 1972 foi detectada na América Latina, em Honduras. Na Costa Rica foi identificada em 1979 e, em 1981, na Colômbia. Atualmente está disseminada por toda a América Central. Na América do Sul, ocorre na Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Bolívia.
No Brasil, foi constatada no Amazonas em fevereiro de 1998, em Tabatinga e Benjamin Constant. Hoje ocorre de forma severa em todos os municípios do Amazonas, na maioria das cidades do Acre, Rondônia e Amapá e em parte de Roraima, Pará e Mato Grosso.

OESP, 11/07/2004, Economia, p. B9

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