CB, Brasil, p.16
30 de Nov de 2004
Luta para evitar transposição
Integrantes de comitê e representantes da CNBB na Bahia e Sergipe fazem mais uma tentativa de levar a decisão sobre projeto para discussão no Congresso Nacional
André Carravilla
Da equipe do Correio
Integrantes do Conselho Nacional de Recursos Hídricos que são contra a transposição das águas do Rio São Francisco fazem hoje mais uma tentativa para impedir a aprovação do projeto. Eles vão tentar convencer os colegas a deixar essa decisão para o Congresso Nacional. O pedido vai ser feito pelo presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, José Carlos de Carvalho, durante reunião do conselho marcada para hoje. Uma medida que tem impacto social e econômico para sete estados da Federação deve ser analisada pelo Parlamento, pondera Carvalho.
Em entrevista, ontem, integrantes do comitê apresentaram as razões com base nas quais acreditam que o projeto não deve ir adiante. Uma das teses é a de que, ao contrário do que anuncia o governo federal, em muitos dos estados beneficiados não haveria falta de água. Um dos exemplos citados é o do Ceará, onde a demanda é de 54 metros cúbicos por segundo, e a oferta potencial é de 215 metros cúbicos por segundo. Essa obra é um presente de grego, é faraônica e desnecessária, acusa o professor de Recursos Hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) João Abner Guimarães.
Projeções incorretas
Outro argumento para fazer com que a transposição não saia do papel é a de que as projeções de demanda futuras feitas pelo governo são incorretas. Querem fazer uma obra dessas baseadas em demandas hipotéticas, critica Guimarães. Ele acrescenta que até mesmo os dados governamentais indicam que nos próximos anos o consumo humano deve continuar no patamar atual, o único aumento de demanda previsto é relacionado com a irrigação. Guimarães questiona a legitimidade de se fazer uma obra que, segundo ele, só beneficiaria grandes produtores. Se fizerem a transposição, dez anos depois vamos continuar vendo gente precisando de caminhão-pipa para não morrer de sede, prevê. A indústria da seca não vai acabar.
Orçada em US$ 1,5 bilhão, a transposição é considerada pelo comitê uma obra inútil. A única justificativa para sua realização seria, na avaliação de José Carlos Carvalho, nos casos em que fosse comprovada a escassez de recursos hídricos locais para consumo humano. Ele sustenta que os 400 mil açudes existentes e os mais de 70 mil reservatórios particulares de pequeno porte suprem essa necessidade. Alguns deles, como o de Castanhão, no Ceará, têm condições de irrigar mais de 700 mil hectares no semi-árido, mas irrigam menos de 120 mil.
A transposição traria ainda outro problema: abasteceria apenas seis reservatórios e seriam necessárias obras complementares para fazer com que a água chegue a todos os estados. Além disso, a obra não acabaria distorções como a de famílias pobres que moram a menos de 14 quilômetros de um açude e sofrem com a seca. Precisamos de políticas efetivas de combate à seca. Não adianta nada transferir recursos naturais do Vale do São Francisco, que é uma região estagnada e de baixo Índice de Desenvolvimento, para regiões metropolitanas como a de Fortaleza, onde a economia é dinâmica, argumenta Abner Guimarães. Carta a Lula Integrante do comitê, Marcelo Asfora defende ainda que a obra será feita para transportar 127 metros cúbicos de água por segundo, mas estudos indicam que só será possível nos momentos em que a reserva de Sobradinho (PI) tiver atingido 94% da capacidade máxima, algo que só aconteceu duas vezes nos últimos 12 anos. Asfora condena a criação de uma estrutura gigantesca que dificilmente seria aproveitada. Como obra de engenharia, ressalta ele, é uma monstruosidade inconcebível.
A possibilidade de transposição está mobilizando diversos setores da sociedade. Representantes baianos e sergipanos da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviaram carta ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo para que a obra não seja realizada. O Ministério Público também começou a se mexer. Promotores federais e estaduais da Bahia estudam a possibilidade de entrar ainda hoje com uma ação.
CB, 30/11/2004, p. 16
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.