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A luta dos guerreiros Xavante por Maraiwatsede

Brasil de Fato - http://migre.me/h52f
Autor: Marcy Picanço
11 de jan de 2010

São Félix do Araguaia, (MT)

Na aula sobre a história dos Xavante da terra indígena Maraiwatsede, o desenho de um avião ocupa o quadro da escola da aldeia. Os jovens aprendem, desde cedo, o significado daquele avião para esse povo guerreiro.

O desenho representa o avião da Força Aérea Brasileira que em 1966 levou mais de 200 indígenas que viviam em Maraiwtsede, na região de São Felix do Araguaia, para a terra indígena São Marcos, perto de Barra dos Garças, ambas no Mato Grosso. Naquela época, o grupo Ometto era proprietário da Fazenda Suiá-Missu, que se instalara anos antes sobre a terra dos Xavante, encurralando os indígenas num charco sem condições de sobrevivência. Os fazendeiros após tentarem - sem sucesso - explorar a mão-de-obra indígena decidiram, com apoio dos governos do período, retirar os Xavante de Maraiwtsede.

Os Xavante foram recebidos pela missão Salesiana de São Marcos e desde 1966 travam uma batalha para viver dignamente na sua terra de origem. Em 2004, após muito esperar, eles retomaram uma parte do território. Atualmente, cerca de 900 indígenas habitam uma única aldeia e se deslocam por cerca de 30 mil hectares da área total de 165 mil hectares homologada em 1998 como terra indígena Maraiwatsede. O restante da terra está ocupado por fazendeiros e posseiros que se recusam a sair e questionam na justiça a demarcação da terra.

Grande parte dos ocupantes não-índios são pessoas que chegaram na região no início da década de 1990 para receber lotes de uma anunciada "Reforma Agrária Privada", que, de fato, era uma invasão organizada da terra indígena. Na ocasião, a empresa italiana AGIP Petroli era a dona da fazenda Suiá-Missu e havia se comprometido a devolver a terra para os Xavante, após o reconhecimento oficial pelo Estado brasileiro de que o território era indígena. No entanto, em 1992, depois da identificação da terra pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a AGIP, fazendeiros e políticos da região passaram a incentivar a invasão da terra indígena por posseiros. A partir dessa invasão o desmatamento aumentou ainda mais na terra indígena (ver fotos).

Devastação

"Os posseiros são peixinhos dos fazendeiros, dos prefeitos. Eu digo para eles: não escuta conversa de político. O fazendeiro vai te dar um pedaço da fazenda dele? Não vai. Quando sair a decisão que a terra é nossa, é o fazendeiro que vai para a estrada? Não. Eu digo: você tem que sair daqui e lutar pelos seus direitos. Eu estou aqui, por que é nossa terra.", argumenta o cacique Damião. Ele costuma andar pela terra dialogando com os posseiros e monitorando o avanço dos desmatamentos e do arrendamento de terras. Segundo Damião, os grandes fazendeiros da região arrendam a terra dos posseiros de Maraiwatsede para usá-la como pastagem.

Ao lado da terra indígena, há um assentamento do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) chamado "Bordolândia". Diversos posseiros da região têm lotes na área, mas, segundo Damião, alguns fazendeiros impedem os posseiros de Maraiwatsede de se cadastrarem para conseguir um lote na área. "Eles acham que vão ganhar, aí não se cadastram", informa Damião.

Além dos arrendamentos, os grandes fazendeiros seguem desmatando a terra. Em 2008, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) aplicou uma multa de R$ 20 milhões ao dono da Fazenda Conquista, que desmatou 4 mil hectares da terra indígena entre 2003 e 2005. Em 2009, outra operação do Ibama aplicou novas multas e embargou 6 mil hectares de fazendas da região que estavam plantando grãos em áreas recém desmatadas.

A terra Maraiwatsede fica na área do Vale do Araguaia, onde tem havido expansão da produção da soja nos últimos anos. A construção de dois celeiros - um da Bunge e um da Cargill - próximos da terra é um indicador dessa situação. Além disso, o asfaltamento da BR-158, que corta o território Xavante, seria um impulsionador do desmatamento na região. "Não queremos o asfalto na nossa terra.", enfatiza o cacique Xavante. Segundo a superintendência regional no Mato Grosso do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transporte (DNIT), a BR-158 será redesenhada de forma que a via não passe pela terra indígena.

Pressões e avanços

Apesar da confirmação do DNIT, Damião segue apreensivo, pois os posseiros afirmam que a estrada passará pela área indígena, próxima do povoado de Posto da Mata. Há um clima de tensão constante na terra, pois os políticos e fazendeiros da região tentam consolidar a presença dos posseiros na terra indígena, desenvolvendo o município Alto da Boa Vista, fundado em dezembro de 1991, quase totalmente dentro de Maraiwatsede.

"Quase todos os políticos da região tem terra aqui. Tem desembargador com fazenda aqui, vizinho da fazenda do Filemom [Limoeiro, prefeito de São Félix do Araguaia]. E tem um deputado, Daltinho [Deputado estadual Adalto de Freitas], que engana os pequenos para continuarem na área. Não quer perder votos aqui, então está organizando os políticos em Cuiabá contra nossa terra", explica Damião.

Os Xavante também enfrentam casos de violência, como dois recentes incêndios criminosos. Num dos casos, o ônibus do transporte escolar foi queimado, mas ninguém ficou ferido. No outro caso, fazendeiros da região tocaram fogo na área onde pastavam algumas cabeças de gado dos índios.

A pressão constante não impede os Xavante de avançarem na reconquista de sua terra. A aldeia já conta com uma escola de ensino fundamental, onde todos os professores e a diretora são do povo. Eles reivindicam classes de ensino médio e se preparam para isso, pois os alunos mais velhos precisam estudar em escolas nas cidades vizinhas, que não oferecem ensino diferenciado e específico para os Xavante.

Desnutrição e falta de flores

A aldeia também conta com posto de saúde. Não há uma equipe multidiscplinar completa para atender os indígenas, mas há uma enfermeira e uma técnica de enfermagem permanentes. Apesar disso, a saúde dos Xavante de Maraiwatsede enfrenta graves problemas. Mais de 50% das crianças até 5 anos apresentam algum problema nutricional. Nas outras terras do povo esse índice está em torno de 18%, segundo as enfermeiras do posto da aldeia. O principal causa dessa situação é falta de água na aldeia, o que obriga os indígenas a beberem a água de um rio - poluído por agrotóxicos que escoam das plantações vizinhas. A bomba de água construída pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não funciona adequadamente desde quando foi instalada.

Segundo o cacique Damião, há recursos para a saúde do povo, ainda assim faltam remédios e mais profissionais de saúde. No entanto, ele aponta outro motivo para as doenças. "Quando eu era pequeno e morava aqui não era fácil para adoecer. Tinha fruta e caça. Peixe, inhame, buruti, jatobá e mel. Era forte, sadio. Sem misturar açúcar na comida. Agora não tem nada disso, por isso todo mundo doente.", lembra Damião. De fato, um dos impactos da devastação é a situação de insegurança alimentar da população. Aos poucos, os Xavante estão reflorestando a área e diversificando os cultivos. As árvores frutíferas começam a brotar novamente na terra que sempre foi Maraiwatsede - mato bonito.

"Eu sinto falta da flor na mata. Lembro quando o vento passava perto a gente cheirava cheiroso. Agora só tem cheiro de fumaça, gasolina. Acabou a floresta. Antigamente mato alto, passarinho, tucura, arara, macaco... Cadê macaco?", recorda Damião. Para fortalecer a luta, ele reúne as lembranças da terra onde viveu até o dia em que, aos 12 anos, correu para o mato com medo do avião. Soma a elas, a lembrança do pai e de dois irmãos que morreram vítimas de sarampo - junto com dezenas de outros Xavante - alguns dias depois da chegada à terra São Marcos.

Damião e os demais indígenas que viveram a expulsão e o retorno para Maraiwatsede passam para os mais jovens a história da terra. Dessa forma, os futuros guerreiros Xavante, que são formados desde pequenos segundo a forte tradição do povo, saberão seguir firmes na batalha pela terra onde viveram seus antepassados. A altivez única desse povo - que não curva os grandes corpos diante da prepotência - não deixa dúvida que eles vencerão.

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