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Luta contra fazendeiros marca reconhecimento da Comunidade Cangume

Jornal Regional - http://regionaljornal.blogspot.com.br
Autor: Mônica Bockor
06 de jun de 2011

Se na comunidade de Praia Grande, em Iporanga, os moradores têm a mata e o Rio Ribeira como vizinhos, em Cangume - localizado em Itaóca - a paisagem em torno do quilombo é de um verde mais uniforme, sem a frondosidade extensa das árvores. Reconhecido como remanescente de quilombo em 2004, o Cangume tem hoje 34 famílias. O número de moradores já foi bem maior, mas a comunidade sofreu com o avanço econômico que levou à valorização das terras - o que explica a paisagem de pastagens que predomina em torno do quilombo.

De acordo com o relatório técnico-científico da Comunidade, realizado pela Fundação Itesp para obter o reconhecimento do quilombo, até a década de 1960 o Cangume tinha o dobro do tamanho atual, com cerca de 70 famílias e pouco mais de 1.300 hectares. "Eram lavradores principalmente de milho, feijão, arroz e mandioca, possuindo pequenas criações de porcos, cabras e galinhas. Produziam artesanato de cipó, palha, taboa, taquara e barro, produzindo praticamente tudo de que necessitavam e recorrendo ao parco mercado regional para a compra de pouquíssimos gêneros, como o sal. O gado e o dinheiro eram praticamente inexistentes no bairro. O avanço econômico sobre o Vale do Ribeira, iniciado na década de 1940 com base na extração de minério, levou à abertura de estradas e, consequentemente, a uma rápida valorização das terras da região. Os primeiros fazendeiros de gado chegam ao bairro em meados da década de 50, começando a alterar o padrão local de pequenos apossamentos familiares".

Na década de 1950, houve uma grande Ação Discriminatória que levou à regularização fundiária de vários municípios, inclusive Apiaí, ao qual Itaóca ainda era subordinado,atingindo o Cangume. Em 1968, as posses dos moradores do Cangume, que eram trabalhadas de forma coletiva, com base na solidariedade entre famílias que se revezavam sobre terras de uso comum, foram fragmentadas em cerca de 80 glebas individuais. De acordo com o relatório do Itesp, esse fato deu origem a um feroz mercado de terras, do qual a população local, alheia à lógica de mercado, nãotinha condições de avaliar as implicações. Em um curtíssimo período de anos, todas as glebas individuais, por necessidade de sobrevivência dos moradores ou por forte pressão dos próprios fazendeiros já instalados, criadores de gado vindos de Minas Gerais e do Paraná, foram vendidas. Restaram apenas duas glebas familiares e uma que, por decisão dos próprios moradores, foi titulada (ainda que não registrada em cartório) "em comum", conhecida como "patrimônio do Cangume" e responsável pela manutenção da comunidade.

Com a perda de todas as terras em um período tão curto, muitas famílias migraram para outros municípios, especialmente para Tatuí, na região de Sorocaba, em busca do trabalho nas plantações de tomate. Uma delas foi a família de Dona Antonia Gonçalves de Pontes, hoje com 77 anos, que se mudou para Tatuí com o marido Evaristo e os seis filhos. "Era uma época que nem feijão a gente tinha para comer", lembra dona Antonia, ao explicar que a família foi para a cidade em busca de melhores condições de vida. "Fomos trabalhar para um japonês. A gente trabalhava em plantação de tomate, repolho, alface, pepino, verduras". Dona Antonia e o marido ficaram em Tatuí por 13 anos. Voltaram para o quilombo de Cangume em 1996, depois que seu Evaristo sofreu um derrame e foi aposentado por invalidez. Três anos depois, ele faleceu. O retorno do casal foi na mesma época em que a comunidade passou a se mobilizar pelo reconhecimento e titulação das terras. A própria Dona Antonia participou de várias reuniões em São Paulo e na região para reivindicar o reconhecimento do quilombo.

Com apoio da administração municipal de Itaóca empossada em 1997, representantes de outras comunidades quilombolas e agentes da pastoral católica, as famílias do Cangume potencializaram o desejo de reaver as terras que haviam sido tomadas de forma imprópria, compradas por valores irrisórios.

As primeiras demandas do grupo foram apresentadas aos funcionários do Itesp em 1999. Somente no início de 2002 uma equipe do departamento de Arrecadação e Projetos visitou o bairro, dando início ao processo administrativo de reconhecimento oficial, concluído então em 2004.

O retorno para casa depois das dificuldades na cidade

As carências vividas no quilombo, na época pressionado pelos grandes fazendeiros, não foram totalmente sanadas na cidade. Acostumados a viver do que a terra oferecia, era difícil para os remanescentes de quilombos trabalharem subordinados a patrões, sob regras de horários e métodos. Mas a dificuldade maior era depender do dinheiro escasso para comprar até mesmo aquilo que plantavam.

"Um certo domingo, um caminhão passou vendendo banana. Meu filho, ainda criança, pediu: pai, quero banana. Você não sabe como era difícil não ter dinheiro para comprar banana para um filho", conta Jaime, filho de dona Antonia, lembrando o fato que foi a gota d'água para ele decidir retornar ao Cangume. "Agora posso colher banana na hora que quero!". A fartura do alimento que brota na terra e a vida em comunidade parecem as maiores riquezas dos quilombolas que resistem às tentações da cidade. Dona Antonia ainda tem um filho morando longe, mas tem esperança de ver a família toda reunida no Cangume.

Dalíria, a filha, voltou no final do ano passado. Agora, espera o marido se aposentar e também ir morar com ela no quilombo. Dalíria viveu por 26 anos em Tatuí. "É muito triste não ter um centavo para comprar um pé de alface. Aqui tenho tudo o que preciso", diz ela. No Cangume, as pequenas casas populares - construídas pelo governo do Estado no ano 2000 - são de alvenaria, há energia elétrica e até a rua principal do bairro está recendo bloquetes. Resultado da organização dos moradores, que lutam por melhorias para a comunidade.

Outra característica que difere o Cangume de outras comunidades quilombolas da região é a religião. Todos os moradores são kardecistas e frequentam o Centro Espírita Fé em Deus, fundado pela comunidade ainda na década de 1930. Além do histórico de curas, o Centro Espírita também iniciou a alfabetização dos moradores e, por muitos anos, funcionou como escola. A própria dona Antonia freqüentou as aulas. Hoje, as crianças freqüentam a escola do Cangume até o 4o ano do Ensino Fundamental. As maiores usam o transporte escolar para estudar em Itaóca, distante 10km do quilombo.

Dona Antonia, satisfeita com a vida no Cangume, gosta de assistir às missas na televisão, acompanha o crescimento dos netos e fica atenta às notícias da comunidade. "O bairro tem que evoluir", diz a filha Dalíria, preocupada com os jovens que estão abandonando o Cangume. Para eles, ela recomenda: "O importante é ser feliz. E eu sou muito feliz aqui"

Agradecimento
Para a realização da reportagem "Vida no Quilombo", contamos com o apoio técnico-logístico da Fundação Itesp. Agradecemos ao analista de desenvolvimento agrário Tiago Marques, do Grupo Técnico de Campo de Formação e Promoção Institucional, que acompanhou as visitas aos quilombos de Praia Grande em Iporanga e Cangume, em Itaóca.

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