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Lula frustra liderança indígena

Amazonas Em Tempo-Manaus-AM
23 de Jan de 2005

A destituição do administrador da Funai Benedito Rangel na tarde de sexta-feira (21) teve um doce sabor para este jovem líder indígena nascido na terra Andirá-Marau localizada entre Parintins, Maués e Barreirinha, Gecinaldo Saterê (Foto ao centro do grupo e com uma criança nos braços)- Maué. Ele, que abraça a causa da defesa dos direitos de seus "parentes" com todas as forças, agora quer que o governo tenha mais maturidade para negociar. "Nós queremos é que haja comprometimento com as nossas causas, queremos alguém responsável". Dos seus 28 anos de idade, 12 foram dedicados ao movimento indígena. E olhe que ele já passou pela chefia de várias organizações. Hoje, Gecinaldo é o presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Em meio a ocupação do prédio do escritório regional da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) em Manaus iniciada no dia 3 de janeiro, ele saiu em defesa de seus "irmãos" e não temeu nem mesmo a ameaça de ser preso pela Polícia Federal. Em entrevista ao Em Tempo, Gecinaldo conta sua história no movimento social, fala da frustração com o Governo Lula e critica duramente a atual administração da Funai. Confira a entrevista:

Em Tempo: Como foi seu despertar para a defesa dos direitos indígenas e o engajamento no movimento social?

Gecinaldo: Saí da aldeia para estudar o ensino médio no município de Barreirinha e depois em Parintins. Conheci um pouco a realidade de fora da aldeia e vi como o povo sofria com o descaso. Comecei a despertar para isso e como já era professor, procurei estruturar a organização de professores. Fui um dos fundadores da organização de professores e militei muito na questão da educação escolar indígena como fortalecimento de nossa cultura.

Em Tempo: Por quais organizações já passou?

Gecinaldo: A primeira foi a Organização de Professores Indígenas Saterê- Maué, depois integrei o Conselho Geral da Tribo Saterê-Maué.

Em seguida, cheguei a trabalhar como representante indígena da educação na região do Baixo Amazonas. Fui também presidente do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena, gerente de Cultura da Fundação Estadual de Política Indigenista (FEPI) e agora coordenador geral da Coiab. Fui eleito em outubro de 2002 em uma grande assembléia, onde mais de 400 lideranças indígenas me deram a confiança de ser a liderança de articulação do movimento indígena na Amazônia Brasileira

Em Tempo: Qual a função da Coiab? .

Gecinaldo: A Coiab foi criada em 1989, tendo como principal bandeira de luta a demarcação das terras indígenas. Ela surgiu no sentido de aglutinar forças para a defesa dos direitos indígenas, no momento da Constituinte. Sua função é fazer com que o governo cumpra com a responsabilidade que está prevista na legislação brasileira, ou seja, a Coiab é uma defensora da causa indígena, da luta pela terra, da educação e saúde diferenciada, fortalecimento da cultura e sustentabilidade dos povos indígenas em seus territórios.

Em Tempo: O que o líder Gecinaldo pensa da política indigenista atual?

Gecinaldo: Tenho muita frustração do governo Lula. Passamos mais de 20 anos militando junto com Lula e os movimentos sociais e populares. Montamos inclusive uma carta de compromisso assinada por ele e os povos indígenas que praticamente não foi cumprida. Essa carta foi rasgada pelo governo. Isso é descaso e exemplos são a não homologação da terra Raposa Serra do Sol em Roraima, a diminuição da terra indígena Caiapó, no Pará. Além disso, o próprio Congresso Nacional está querendo mudar a Constituição Brasileira quanto ao processo de demarcação de terras.

Em Tempo: Qual a ação do governo que mais aborrece os indígenas?

Gecinaldo: Ele mantém em seu governo pessoas do nível desse presidente da Funai (Mércio Pereira Gomes), que em vez de estar apoiando e ouvindo as lideranças, manda a Polícia Federal. Isso deixa os índios apreensivos e tristes. Mas nossa luta vai continuar porque é justa e vai servir para as futuras gerações de povos indígenas continuarem a lutar pela terra.

Em Tempo: O que a terra representa para os indígenas?

Gecinaldo: Brigamos por ela porque tem sentido muito especial. A terra é mãe para o indígena, é aquilo mais importante. Precisamos proteger nossa terra, zelar por ela e garanti-la para mais tarde nosso filhos não sofrerem.. Nós indígenas que ocupamos 20% da Amazônia podemos proteger as terras. É preciso que a sociedade saiba que somos nós que estamos garantindo o equilíbrio da Amazônia . A sociedade precisa nos apoiar e nos ajudar nessa questão. A luta é difícil mas a Coiab vai continuar se estruturando para fazer valer os direitos indígenas.

Em Tempo: Nos últimos 10 anos, houve algum avanço na demandas indígenas na Amazônia?

Gecinaldo: Não houve avanço nenhum porque a Funai é um órgão ultrapassado, que tem uma filosofia de integracionismo. A Funai caracteriza o índio como incapaz e por isso os chefes não querem sair do poder mesmo sabendo que já tem índio preparado para assumir administrações. Não basta mudar os administradores, é preciso mudar a forma de administração da Funai para uma nova política. Não estamos brigando por cargos, mas sim pelo direito dos índios participarem das decisões porque são eles que sofrem nas aldeias. Queremos que a pessoa que assuma respeite o que os indígenas trazem e possa interferir nos verdadeiros problemas.

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