OESP, Negócios, p. B14
01 de Jun de 2010
Lula coloca em dúvida viabilidade do carro elétrico
Uma semana depois de ter suspendido a divulgação de um pacote de incentivos ao modelo, presidente volta a questionar alternativa
Alexandre Rodrigues
RIO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs na segunda-feira, 31, dúvidas sobre a viabilidade do carro elétrico. Na abertura do Challenge Bibendum, evento mundial organizado pela Michelin no Rio de Janeiro, Lula exaltou o sucesso de vendas dos carros flex brasileiros, que podem usar etanol e gasolina.
"É carro elétrico para cá, carro elétrico para lá, mas não se sabe ainda se alguém vai produzir em grande escala", disse Lula, que chegou ao Riocentro por volta de 10h30 a bordo de um ônibus movido a hidrogênio, desenvolvido por um laboratório da coordenadoria de pós-graduação e engenharia da UFRJ (Coppe).
Na semana passada, o presidente suspendeu a divulgação de um pacote de incentivos aos carros elétricos pouco antes da cerimônia por causa das divisões no governo sobre o tema. Os ministérios da Fazenda, Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia defendem as medidas, mas o Ministério do Desenvolvimento teme que os incentivos possam prejudicar a competitividade do etanol e do biodiesel brasileiros.
"Hoje, quase 100% dos carros vendidos no Brasil são flex. E 60% dos donos desses carros têm preferência pelo etanol que, definitivamente, virou uma parte importante da matriz energética brasileira", discursou Lula.
Ele lembrou que o Brasil foi um dos pioneiros na pesquisa de fontes de energia renováveis, como o etanol, em substituição ao petróleo, e criticou a postura ambiental dos países desenvolvidos. "Os grandes, que sabiam tudo, não sabem o que fazer para parar de jorrar petróleo", disse Lula, numa referência às dificuldades da British Petroleum e do governo dos Estados Unidos de interromper o vazamento de petróleo no Golfo do México.
"Eu acho engraçado como a imprensa trata esse negócio. Imagina se fosse a Petrobrás! Se fosse aqui, na Baía da Guanabara? Imagina o escândalo que o mundo não faria contra nós", disse Lula, arrancando aplausos.
O presidente disse também que o País precisa facilitar mais ainda o acesso ao crédito. "No Brasil já houve tanto calote ao longo da história que hoje só pede empréstimo quem não precisa." Lula acredita que seja possível aliar o incentivo ao crédito à adoção de novas tecnologias para minimizar a emissão de gases que contribuam para o efeito estufa, como uma forma de renovar a frota brasileira de veículos . No discurso, lembrou que já defendia a ideia quando era líder do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista.
Embate
O lançamento do programa de apoio ao carro elétrico se transformou em um embate no governo. Estudo concluído por grupo interministerial previa uma série de incentivos para o desenvolvimento e venda do carro elétrico. Técnicos da Fazenda e da Ciência e Tecnologia sugeriram redução do Imposto de Importação, IPVA e IPI, entre outros tributos. Outra medida seria uma política de compras governamentais que privilegiasse o carro elétrico.
Os benefícios não agradaram os técnicos do ministério do Desenvolvimento. Eles reclamaram que o objetivo do grupo era discutir as alternativas para o futuro da indústria automotiva, mas havia apenas um parágrafo no documento sobre o etanol.
O que está em jogo é o destino dos carros flex
Marta Salomon
As dúvidas de Lula sobre incentivar o carro elétrico no Brasil são as dúvidas do padroeiro do etanol. Nos últimos anos, o presidente correu o mundo com a bandeira do etanol. Brigou por ela. Garantiu que as plantações de cana não avançariam sobre a floresta amazônica nem sobre áreas de cultivo de alimentos.
Agora, teme dar um tiro no pé da tecnologia made in Brazil e no destino dos carros "flex", que já superam 30% da frota de veículos do País.
Nas dúvidas sobre a adesão à nova tecnologia, Lula tem o apoio do ministro Miguel Jorge (Desenvolvimento), responsável pelo cancelamento do anúncio dos incentivos ao carro elétrico na semana passada. E, sobretudo, da indústria automobilística instalada no País. Durante o governo de Lula, foram comercializados no Brasil quase 10 milhões de carros flex.
Se o presidente tem dúvidas, não há dúvidas no cenário traçado pelo BNDES e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. O principal provedor de crédito no País está engajado no programa do carro elétrico. Os fundos de pesquisa, idem. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, escreveu recentemente que os carros elétricos são uma "tendência inexorável", apesar do custo alto e dos desafios tecnológicos, como o desenvolvimento de bateria com mais autonomia.
Os carros elétricos híbridos representam menos de 2% das vendas totais e quase insignificante 0,3% da frota mundial neste ano. Mas a participação crescerá para cerca de 66% das vendas mundiais e quase 36% da frota global daqui a 20 anos, segundo estimativas usadas pelo BNDES. O banco fala até num híbrido que use etanol e energia elétrica.
O Brasil tem o quinto maior mercado consumidor de automóveis. E está entre os maiores produtores mundiais. Na dúvida do presidente, está em jogo o futuro desse mercado.
OESP, 01/06/2010, Negócios, p. B14
http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios+industria,lula-coloca-…
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100601/not_imp559776,0.php
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