CB, Brasil, p.27
24 de Fev de 2005
Longa estada do Exército no Pará
Além de garantir segurança, os militares ajudarão o governo federal a resolver questões agrárias e ambientais, darão assistência médica e poderão participar da recuperação da Transamazônica
O Exército prepara-se para ficar mais de um mês na região de Anapu (PA) para ajudar outros setores do governo na solução dos conflitos agrários, ambientais, recuperação da Transamazônica e na continuação da Ação Cívico Social (Aciso), operação de assistência médica e odontológica iniciada esta semana. O comandante militar da Amazônia, general Cláudio Barbosa de Figueiredo, visitou a cidade ontem para verificar a atuação das tropas deslocadas para a área depois do assassinato da missionária Dorothy Stang.
A permanência do Exército na região depende da liberação de recursos pela equipe econômica. Nossos gastos giram em torno de R$ 1 milhão por mês, calculou o general Figueiredo. Em entrevista coletiva concedida próximo ao acampamento montado para as tropas, num terreno da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o comandante anunciou a decisão de ajudar o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na demarcação de terras em duas glebas selecionadas para a implantação dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS), o programa de assentamento de trabalhadores rurais organizado por Dorothy.
A ajuda dos militares será prestada nas glebas Bacajá e Belo Monte, onde o Incra iniciou os PDSs. Desde a semana passada, três áreas reivindicadas por grileiros foram consideradas como propriedade do Incra pela desembargadora Selene Almeida, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Mais de vinte ainda permanecem sem decisão.
A partir do próximo dia 28, os militares vão apoiar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) num trabalho de inspeção de madeireiras e no corte de árvores da região. Nos dois casos, a atuação do Exército consiste no apoio logístico, segurança e alimentação dos funcionários encarregados de executar os trabalhos.
A recuperação da Transamazônica também depende de mais recursos financeiros e de um acordo com o DNIT, órgão do Ministério dos Transportes responsável pelas estradas federais. A rodovia que atravessa a Região Norte do Brasil foi construída durante a ditadura militar e fez parte do projeto Brasil Grande, idealizado pelos generais. Mais de trinta anos depois, teve poucos trechos asfaltados e muitos ficam intransitáveis durante o período das chuvas. Nossa engenharia da Amazônia está pronta. Já fizemos os levantamentos do maquinário necessário e do custo, declarou o general.
Mil atendimentos
Iniciada esta semana, a Aciso em Anapu atraiu pessoas de outros municípios e lotou o posto de saúde da cidade. Cerca de mil atendimentos são realizados todos os dias. Acredito que conseguiremos atender a todos enquanto estivermos aqui, previu o comandante militar. Está prevista a chegada de um hospital de campanha do Rio de Janeiro para estender a Aciso para as cidades vizinhas.
No posto de saúde, o comandante conversou com a dentista-tenente Talita Carvalho Trajano da Silva e perguntou sobre os principais problemas odontológicos da população. A maior parte das pessoas precisa ter os dentes extraídos, contou a militar. Uma das pessoas atendidas foi Adriana Hitz de Oliveira, 11 anos, estudante da 4ª série. Gostei muito da vinda do Exército, contou a garota.
O coronel visitou a região debaixo de chuva. O comandante atravessou o rio Anapu em uma ponte privada construída sobre cabos de aço e foi até o acampamento em que estão alojados mais de 120 militares. Para chegar, passou pelo local onde está enterrada Dorothy Stang, mas não parou para homenageá-la. Pelo menos um militar pediu para tirar uma foto ao lado do túmulo.
Ontem, o Exército tinha 1.973 homens diretamente envolvidos na Operação Pacajá, nome dado à movimentação de tropas para apoiar as ações desencadeadas pelo governo depois da morte da missionária americana. Mais de 400 permanecem aquartelados e prontos para serem convocados a qualquer momento.
Bida pode estar em Goiás
As polícias Federal e Civil ampliaram a área onde está sendo procurado o fazendeiro Vitalmiro de Moura, conhecido como Bida, acusado de ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, ocorrido no último dia 12, em Anapu (PA). A inteligência da PF diz ter recebido informações de que Bida estaria escondido em Goiás. Acredito que há 85% de chance de capturá-lo até o próximo fim de semana, disse o perito criminal da PF, Antonio Carlos Figueiredo dos Santos. O próprio advogado de Bida, Augusto Septimio, disse à PF que seu cliente pretende se entregar nos próximos dias e que ele estaria em Goiás. Estamos muito próximos de prendê-lo. Ele tem mais de 2.800 cabeças de gado na fazenda dele. Se não aparecer, vai ter todos os bens apreendidos no futuro, disse o delegado Waldir Freire, da Polícia Civil. Até ontem, o serviço de disque-denúncia do Exército recebeu 17 telefonemas com pistas sobre o paradeiro de Bida. O teor das denúncias está sendo mantido em sigilo.
CB, 24/02/2005, Brasil, p.27
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