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Lógica de mercado domina COP-8, afirmam ambientalistas

Radiobrás
28 de mar de 2006

Lógica de mercado domina COP-8, afirmam ambientalistas

Thaís Brianezi
Enviada especial

Pinhais (PR) - A lógica de mercado está dominando as discussões da 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-8), que entrou hoje (28) no sétimo dia. A crítica foi comum entre os participantes do debate As muitas encruzilhadas da CDB (Convenção sobre Diversidade Biológica), promovido hoje pela organização não-governamental (ONG) Instituto Socioambiental (ISA), em uma tenda externa ao local da conferência.
"As posições do Brasil sobre repartição de benefícios parecem vanguardistas [o país defende um regime internacional obrigatório que regule a repartição de benefícios resultantes do acesso aos recursos genéticos e ao conhecimento tradicional associado], mas estão na lógica do quem paga mais", afirmou o coordenador-adjunto do Programa de Política e Direito Socioambiental do ISA, Fernando Mathias. "É como se o país falasse: 'Podem levar meus recursos naturais e meu conhecimento. Podem até patenteá-lo, desde que repartam os lucros'".
Ele disse que os povos indígenas também se tornam vítimas da mercantilização, quando lutam pelo direito de patentear seus conhecimentos. "Essa é uma reação natural de defesa, mas extremamente prejudicial", ressaltou Mathias. "A livre circulação do conhecimento tradicional e sua construção coletiva nas comunidades são fundamentais para que ele exista".
A militante Christine Von Weizsnacker, que há 40 anos acompanha debates internacionais sobre meio ambiente, disse que a lei da oferta e da procura ajuda a explicar o crescente discurso de valorização da biodiversidade. "Os recursos naturais estão indo embora e, ao mesmo tempo, com a biotecnologia, a demanda por eles está aumentando", afirmou. "Se eu fosse empresária, também investiria na proteção da natureza, como reserva de mercado. Mas há muita gente para quem o valor meio ambiente não pode ser traduzido em cifras".
Christine alertou para o fato de que a estratégia de remuneração dos serviços ambientais pode se voltar contra os povos da floresta. Segundo ela, já existem grandes proprietários comprando áreas florestais. "No futuro, eles vão concorrer com as comunidades no comércio desses serviços. E a gente já sabe quem vai levar a melhor", disse.
"Além disso, essa remuneração pode aumentar ainda mais o preço de serviços básicos, como fornecimento de água. E contribuir, assim, para o agravamento da exclusão social", completou a consultora da ONG WWF Brasil, Nurit Rachel Bensusan.
O debate As muitas encruzilhadas da CDB é parte de um conjunto de discussões que vai até amanhã (29). O evento foi ironicamente chamado de Coptrix, uma referência irônica ao filme Matrix, que fala sobre a virtualidade das relações sociais contemporâneas.
A COP-8 é o órgão deliberativo da CDB, que se reúne a cada dois anos. No Paraná, 3.600 representantes de 173 países tentam chegar a consensos sobre como tornar realidade os três objetivos da convenção: conservação da natureza, uso sustentável dos recursos naturais e repartição de benefícios.

Radiobrás, 28/03/2006

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