O Globo, O Mundo, p. 49
20 de Jan de 2007
Lobby pró-clima isola Bush
Corporações se unem a ambientalistas e propõem cortes de até 30% em emissões
Dez grandes empresas dos mais diversos segmentos da economia americana se uniram a grupos ambientalistas para propor metas de redução das emissões de dióxido de carbono (C02) - o principal gás do efeito estufa - de 10% a 30% ao longo dos próximos 15 anos. O movimento deixa George W. Bush ainda mais isolado no que se refere à questão do aquecimento global. O presidente sempre foi contra o estabelecimento de metas de redução de emissões.
A proposta do recém-formado grupo - que inclui gigantes da indústria como General Electric, DuPont e Alcoa - se soma ao recente ímpeto ambiental dos congressistas americanos, que parecem cada vez mais determinados a aprovar legislações que imponham cortes obrigatórios nas emissões de C02. Quatro projetos de lei foram apresentados esta semana por democratas e outros são ainda esperados. Além de determinar cortes nas emissões, os projetos propõem a criação de um mercado em que permissões para emitir C02 seriam negociadas.
O movimento das grandes empresas não é tão inusitado quanto pode parecer à primeira vista. Muitos empresários já haviam manifestado preocupação com as diferentes iniciativas discutidas nas esferas estaduais que poderia levar a um sistema de regulamentação completamente disperso. Outros temem que, se não chegarem a um consenso e apresentarem eles mesmos propostas podem acabar tendo que se submeter a medidas mais duras, como uma taxação excessivamente alta dos combustíveis fósseis, sobretudo na eventualidade de uma vitória democrata em 2008.
- Temos agora a oportunidade de estabelecer algo mais pragmático e realista, enquanto o presidente Bush está no poder - admitiu Peter A. Darbee, executivo da PG&E, uma das empresas envolvidas no projeto.
O anúncio formal da nova proposta foi marcado para a próxima segundafeira, um dia antes do discurso de Bush sobre o Estado da União.
Fontes da Casa Branca afirmam que o presidente irá abordar a questão do aquecimento global, propondo um aumento significativo do uso do álcool combustível. Mas, garantem as fontes, não pretende mudar de idéia no que diz respeito ao estabelecimento de metas obrigatórias para a redução das emissões dos gases-estufa. Embora os Estados Unidos sejam os maiores poluidores do mundo, o país jamais ratificou qualquer compromisso internacional de corte de emissões.
UE unida em proposta de corte
Muitos fatores se combinaram para criar um clima favorável à questão ambiental nos Estados Unidos nos últimos dias e deixar Bush ainda mais isolado. No semana passada, a Comissão Européia anunciou a mais ambiciosa proposta já apresentada para o combate às mudanças climáticas. O bloco se propõe a reduzir, unilateralmente, 20% de suas emissões de C02 em relação a 1990. Mas o corte, disseram, pode chegar a 30% se outros países desenvolvidos do mundo resolverem aderir à política - um claro desafio à participação americana.
Outro fator importante é a nova formação do congresso dos ÉCJA, agora de maioria democrata, claramente mais sensível ao tema. Diversas pesquisas divulgadas recentemente comprovam de forma cada vez mais inequívoca que o aumento das temperaturas vivenciado hoje é fruto da ação humana.
O painel das Nações Unidas sobre mudanças climáticas fará o seu mais forte alerta de que o uso de combustíveis fósseis está causando o aquecimento do planeta em seu próximo relatório, assinado por 2,5 mil cientistas e a ser divulgado no início de fevereiro. O documento sustentará que é "muito provável" que as atividades humanas sejam a principal causa do aquecimento registrado nos últimos 50 anos. Por "muito provável", esclarece o documento, leia-se chances de 90% a 99%.
O alerta que vem dos jardins
Thomas L. Friedman
Os narcisos estão de parabéns! Todos floresceram em nossos jardins na semana passada. Se apresentam agora em lindos ramos de amarelo brilhante ao longo das ruas.
Temperaturas de 18 graus Celsius em Washington, em janeiro, são responsáveis por isso. E, de fato, narcisos em janeiro alegram os gramados. Quem sabe no próximo ano tenhamos rosas em fevereiro.
Eu não sei você, mas eu, quando vejo coisas na natureza que nunca tinha visto na vida, como narcisos em janeiro, começo a ter arrepios. É como um episódio de "Além da imaginação". Eu meio que fico esperando acordar um dia e dar de cara com Rod Serling (o autor da série) aparando minha grama - de short. Por que não? Dezembro passado foi o quarto mais quente dos registros, e 2006 o ano mais quente na América desde 1895. Foi o mais quente no Reino Unido desde 1659.
Até a Casa Branca parece ter notado. Al Hubbard, o conselheiro econômico do presidente, disse que Bush pretende apresentar em breve uma estratégia energética independente que produzirá "manchetes de alto de página de cair o queixo'. Como tudo o que o presidente tem feito até agora em matéria de energia manteve meu queixo firmemente no lugar, estou ansioso para ouvir o que Bush tem a dizer.
Nem a Casa Branca nem o Partido Democrata parecem entender que o público e a comunidade empresarial estão quilômetros à frente deles nessa questão energética/ambiental. O candidato presidencial que finalmente conseguir entender isso e apresentar um programa convincente sobre o tema terá um bom ponto de partida em 2008. O que seria convincente? Aprendi que não há fórmula mágica para reduzir nossa dependência das importações de petróleo e as nossas emissões de gases do efeito estufa. A melhor proposta seria um New Deal Verde.
O New Deal não foi uma fórmula mágica, mas uma ampla gama de programas e projetos industriais para revitalizar a América. Idem para um New Deal energético. Se vamos enfrentar as mudanças climáticas e pôr fim ao nosso vício em petróleo, precisamos mais de tudo: energia solar, eólica, hidrelétrica, nuclear; álcool combustível, biodiesel, carvão limpo - e conservação.
Precisamos de um New Deal Verde porque, para impulsionar todas essas tecnologias a um patamar significativo, é necessário um projeto industrial de peso. Se você já instalou moinhos de vento no jardim e painéis solares no teto, Deus o abençoe. Mas só tornaremos o mundo mais verde quando alterarmos as bases da geração de energia. E isso é um projeto industrial de muito peso.
Para isso, as políticas do governo fazem diferença. São elas que impulsionam a inovação e a eficiência. E os preços também contam. Eles determinam o uso de energias alternativas mais limpas. Por isso, se as propostas a serem apresentadas pelo presidente não apontarem metas de eficiência e preços mais altos para os combustíveis fósseis, pode deixar o seu queixo cair. Vai ficar quente por aqui.
O Globo, 20/01/2007, O Mundo, p. 49
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