O Globo, Ciencia e Vida, p.22
08 de Mar de 2004
Livro desmistifica tubarões brasileiros
Ana Lucia Azevedo
Nenhum animal é tão temido quanto o tubarão. Mas um livro lançado este mês garante que também nenhum outro é tão injustiçado. Tubarões eventualmente atacam seres humanos - a morte de um banhista há uma semana em Recife está aí para provar. Todavia, segundo o biólogo marinho Marcelo Szpilman, esses ataques são raríssimos e a fama de devorador de homens é injustificada. Pior do que isso, devido à pesca intensiva, muitas espécies estão em extinção. Szpilman é o autor de "Tubarões no Brasil" (Mauad Ed.), que dá detalhes de 36 das 88 espécies registradas no litoral brasileiro.
- O tubarão, na maioria das vezes, teme o homem. Além disso, é muito raro encontrar tubarões. Em 30 anos como mergulhador, os vi apenas duas vezes. Para quem mora no Rio não faz o menor sentido ter medo de tubarão. Nas praias cariocas, furtos e afogamentos é que são os verdadeiros perigos - diz o biólogo, acrescentando que em 82 anos foram registrados 93 ataques em todo o país.
Ele observa que existe só um lugar nos cerca de oito mil quilômetros da costa brasileira em que há motivo para temer um encontro com o peixe. Trata-se de uma faixa de 20 quilômetros em torno de Boa Viagem, em Recife. Pernambuco é o segundo lugar do mundo em ataques de tubarões (46 em dez anos), só fica atrás da Flórida, onde no entanto os incidentes ocorrem numa área muito maior.
Uma combinação de fatores explica a freqüência maior. O primeiro é a existência de espécies agressivas, como o cabeça-chata e o tigre. Além disso, o Porto de Suape acabou com um mangue e diminuiu a oferta de alimentos. Fora isso, a região tem um canal submarino que leva os tubarões para a praia. E de outubro a fevereiro, na estação seca, as águas tornam-se mais turvas e salgadas - atraentes para os tubarões - devido a mudanças no regime de chuvas.
Szpilman lembra que a extinção dos tubarões causará um desequilíbrio nos oceanos e privará o homem de substâncias úteis. Não há qualquer fundamento na crença de que cartilagem de tubarão previne câncer. Mas no sangue desse peixe foram isoladas substâncias anticoagulantes. O extrato de cartilagem é estudado no tratamento de queimados e investiga-se a chance de seu fígado produzir substâncias que estimulam o sistema imunológico.
Saiba mais sobre tubarões
AGRESSIVIDADE: O macho do tubarão cabeça-chata ( Carcharhinus leucas ), entre as espécies mais agressivas, se não a mais agressiva, tem a maior concentração proporcional de testosterona de todo reino animal.
ESPÉCIES: Há cerca de 400 espécies no mundo, das quais 88 já foram registradas no Brasil. O menor tubarão mede apenas 0,10 centímetros. Porém, o tubarão baleia ( Rhincodon typus ) é o maior peixe do planeta e chega a 18 metros de comprimento.
EVOLUÇÃO: Os tubarões estão entre os mais antigos e bem-sucedidos animais de todos os tempos. Seus primeiros registros fósseis têm 400 milhões de anos (espécies extintas). O maior tubarão que já existiu foi o extinto Carcharodon megalodon , que chegava a 20 metros de comprimento.
RAIOS E MEGA-SENA: Em todo o mundo, o risco de ser atacado por um tubarão é de um em 300 milhões. É mais ou menos a mesma probabilidade de acertar na mega-sena. "Tem gente que ganha na loteria, outros infelizmente são mordidos por tubarão", diz Marcelo Szpilman. Todavia, é mais fácil ser atingido por um raio - uma chance em um milhão.
COCOS: Segundo o Arquivo Internacional de Tubarões, o risco de se morrer atingido por um coco ao passar sob um coqueiro é 15 vezes maior do que o de morrer atacado por um tubarão.
COBRAS: São os animais que mais atacam o homem. Há 250 mil ataques de cobras a seres humanos por ano no mundo contra 90 de tubarões.
O Globo, 08/03/2004, Ciência e Vida, p. 22
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