CB, Cidades, p. 30
21 de Set de 2006
Livres para crescer no espaço
Sem gravidade, sementes de árvore do cerrado enviadas à estação espacial desenvolveram-se mais do que as plantadas na Terra. Pesquisadores querem decodificar o DNA da espécie para descobrir a causa
Marcela Duarte
Da equipe do Correio
As sementinhas da Gonçalo Alves (Astronium fraxinifolium), uma árvore típica do cerrado, que viajaram para o espaço em abril já estão de volta à Terra. Estão fortes e mais crescidas do que as que ficaram em solo firme. Uma surpresa boa para os pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que participam da Missão Centenário da Agência Espacial Brasileira (AEB). ]
Agora, os cientistas de Brasília tentam decodificar o DNA das mudas que chegaram do espaço e o das que não deixaram o planeta para identificar as alterações genéticas e o que causou o crescimento acelerado. A descoberta poderá revolucionar as pesquisas sobre germinação.
"Estamos nos primeiros passos, mas a viagem das sementes pode ter aberto portas para novas pesquisas. Uma delas é identificar se a planta germina mais rápido, quando está submetida a uma baixa gravidade. Isso é possível fazer na terra", explica o chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia do Distrito Federal, José Manuel Cabral.
As sementes da Gonçalves Alves foram escolhidas para participar do projeto pelo tamanho reduzido, pela germinação rápida e por serem resistente. O resultado mostrou que a seleção foi correta. O experimento viajou cerca de 360km, na bagagem do astronauta brasileiro Marcos Pontes, rumo à Estação Espacial Internacional. Elas foram submetidas à mesma quantidade de água e luz que as sementes cultivadas nos laboratórios da Embrapa.
O resultado foi surpreendente: as sementes do espaço cresceram quase 5cm. Já as que ficaram não passaram de 3cm. "A coloração também foi diferente. As que viajaram ficaram mais claras. Tudo isso será desvendado nos genes", adianta o chefe-geral da Embrapa. As sementes e os brotinhos foram divididas em amostras, congeladas e são estudadas por uma equipe com mais de 15 pesquisadores.
"Estamos descobrindo o DNA da planta. Para isso, fazemos o processo inverso, retirando as informações de RNA - os mensageiros de informações genéticas", explica a pesquisadora Ana Ciampi. Segundo ela, além do estudo sobre germinação, ao decodificar geneticamente a planta, os pesquisadores já terão motivo para comemorar. "Pouco se sabe sobre o Gonçalo Alves e com o código genético decifrado, poderemos ter base para uma infinidade de estudos", destaca.
Depois do código pronto, os resultados serão comparados com as sementes que ficaram na Terra. "Todo o processo foi fundamental para que não houvesse margem para erro. O experimento foi cuidadosamente planejado para isso", diz Ana Ciampi. A Gonçalo Alves é uma árvore muito utilizada no Brasil para a fabricação de móveis e lenha. Um pé adulto pode chegar a 30m de altura. Os dados da pesquisa foram apresentados pela Embrapa na terça-feira.
CB, 21/09/2006, Cidades, p. 30
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