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Limpar o Tietê exige mais de R$ 3 bi

OESP, Metrópole, p. C3
17 de Mai de 2007

Limpar o Tietê exige mais de R$ 3 bi
Estimativa da Sabesp leva em conta tratamento de esgoto dos 17 milhões de habitantes da Grande São Paulo

Eduardo Reina
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) não sabe quanto custaria a despoluição total do Rio Tietê, mas estima que, no mínimo, seriam necessários R$ 3 bilhões, entre financiamentos internacionais e verba do governo federal, para conseguir tratar todo o esgoto produzido pelos 17 milhões de habitantes da região metropolitana de São Paulo, um dos principais causadores da sujeira no rio. O Tietê ficou mais poluído em 2006, devido ao despejo de detergentes, de esgoto sem tratamento e de sujeira sólida, segundo estudo divulgado anteontem pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).

"São necessários 15 anos para tratar esse esgoto. A expectativa é saltar do índice atual de 62% de esgoto tratado na Grande São Paulo para 70% em 2008, quando será concluída a segunda fase do Projeto Tietê", disse Antonio Cesar Costa e Silva, da diretoria de Tecnologia e Planejamento da Sabesp.

O projeto teve início em 1992 e já consumiu US$ 1,5 bilhão (mais de R$ 3 bilhões). Houve financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Caixa Econômica Federal, além de recursos da Sabesp. Com as obras da primeira fase, os índices de tratamento aumentaram de 24% para 62% na Grande São Paulo. No início do projeto, falava-se em 20 anos para a sua conclusão. A finalização da segunda etapa é prevista para 2008. Não há previsão de uma terceira fase.

"Vai faltar 40% do esgoto para ser tratado - e a população vai aumentar. Não vejo a meta de despoluição em menos de 20 anos. Precisa de planejamento, integração das prefeituras e dos governos em todos os níveis", disse Gustavo Veronesi, do Núcleo Pró-Tietê da Fundação SOS Mata Atlântica.

Em Guarulhos, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) prevê R$ 110 milhões para tratar 38 milhões de m³ de esgoto produzido por ano, que é despejado no Tietê. A verba virá do governo federal. A despoluição do Rio Tâmisa, em Londres, começou há mais de cem anos e alguns resultados apareceram só agora. A limpeza do Rio Reno, que nasce na Suíça, custou US$ 15 bilhões.

Planos e Poluição

1900: Tietê começa a sentir impacto da atividade industrial. Recebe detritos de 160 empresas

1930: começa dragagem do rio

1940: cresce despejo de esgoto in natura de casas e do comércio

1944: a competição Travessia de São Paulo a Nado é realizada pela última vez no rio

1953: lançado pelo americano Greeley Hansen primeiro plano para salvar o rio, com criação de 6 estações de tratamento de esgoto

1964: um segundo plano prevê criar 4 lagos que funcionariam como estações de tratamento

1965: empresa americana propõe a criação de 4 estações de tratamento de esgoto

1970: Plano Solução Integrada também prevê 4 estações

1970: oxigênio na água zera

1974: espuma invade o leito

1976: lançado outro plano prevendo construção de estações

1992: tem início o Projeto de Despoluição do Tietê, no qual serão investidos US$ 1,1 bilhão

1999: termina a primeira etapa

2002: começa a 2.ª, com investimento de US$ 400 mi. Estado prevê encerrar essa etapa em 2008

Rio poderia ser despoluído com receita de tarifas

Os R$ 3 bilhões necessários para despoluir o Rio Tiete, em dez anos, podem ser obtidos apenas com o dinheiro das contas de água pagas pelos consumidores - sem financiamento internacional ou da União -, segundo a iniciativa privada . "Essa verba leva em conta tarifas em nove cidades, sem contar São Paulo. Projetamos concessão para 30 anos. Conseguiríamos universalizar os serviços de saneamento em dez anos", explicou Yves Besse, do Conselho Diretor da Associação Brasileira das Concessionárias de Serviços Públicos de Água e Esgoto. Seriam necessários R$ 270 milhões para água, R$ 1,3 bilhão para esgoto e R$ 1,4 bilhão para atender ao crescimento populacional. O plano atingiria São Bernardo,Santo André, São Caetano, Diadema, Suzano, Ferraz de Vasconcelos, Mogi das Cruzes, Poá e Guarulhos.

Na sujeira, crianças navegam e aprendem

Humberto Maia Junior

Na década de 1970, engenheiros e políticos sonhavam em dar condições de navegação ao Rio Tietê. Sonhou-se até a possibilidade de ligar São Paulo a Buenos Aires - eclusas ligariam o Tietê ao Rio Paraná até chegar ao Rio da Prata. Nada disso deu certo. Ontem, um barco cortava a superfície coberta de resíduos de esgoto, garrafas e sacos plásticos: era o Almirante do Lago, do projeto Navega São Paulo, que ensina crianças a preservar o meio ambiente. O barco faz passeios diários pelo rio, levando, principalmente, crianças que estudam em escolas públicas.

"O Tietê choca. Elas chegam e já reclamam do cheiro e da cor negra da água", diz a coordenadora do projeto, Fernanda Ricci. E só navegando pelo rio se tem a noção de como o Tietê é poluído. O primeiro impacto é sentido pelo nariz: mau cheiro, causado pelas bactérias que decompõem os resíduos orgânicos vindos dos esgotos. Segundo o gerente da Divisão de Qualidade das Águas da Cetesb, José Eduardo Bevilaqua, essas bactérias produzem gases como enxofre e nitrogênio.

Do barco pode-se ver a superfície do rio tomada por resíduos de esgoto - material fecal, óleos e gordura. Esses dejetos consomem o oxigênio da água, inviabilizando a existência de peixes e outros seres vivos.

Os detritos causam a coloração negra da água. "A matéria orgânica, não dissolvida, paira na superfície, bloqueia os raios solares e causa problemas ambientais." Para Bevilaqua, o rio não está morto. "Prefiro dizer que está num grau elevado de degradação."

OESP, 17/05/2007, Metrópole, p. C3

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