Jornal da Ciência
Autor: Flamínio Araripe
06 de Jun de 2007
Mesa redonda sobre o tema na Reunião Regional não supera desconfiança e incerteza de secretário dos Povos Indígenas
O casamento entre o saber tradicional e o saber científico no âmbito de um curso de educação superior indígena na Universidade da Floresta, em Cruzeiro do Sul, não está fácil de acontecer. Depois de participar de mesa redonda na segunda-feira para debater o tema na Reunião Anual da SBPC, o assessor dos Povos Indígenas do governo do Acre, Francisco Pianko, conta que ele e as outras lideranças não sentiram segurança no projeto de educação indígena exposto por professores da Ufac.
"Há possibilidades grandes de a gente avançar, mas acho que precisa acima de tudo a Ufac assumir de uma maneira que transmita segurança para o público indígena e ao público da floresta", pontua Francisco Pianko. "Se a instituição não passar essa segurança, nós vamos estragar uma relação que está se iniciando. Isso pode voltar para o zero e essa Universidade não ter o conteúdo que se está buscando, para que a gente tenha realmente a Universidade da Floresta que tanto é comentada como valorizada".
Francisco Pianko observa que dentro da própria Universidade vê a dificuldade entre as instâncias da instituição para ter um entendimento e afinidade. "Nos discursos, nas rodadas de conversa isto aparece. Mas é visível por parte dos povos indígenas que ainda não dá para a gente ter certeza. Porque não passaram para nós essa certeza", afirma.
"Essa incerteza faz com que os povos indígenas fiquem pensando se devemos, se podemos nos colocar como parte desse projeto ou devemos aguardar que as coisas se definam melhor para entrar na hora certa na discussão certa", assinala Pianko. O secretário avalia que, para acontecer, o projeto do curso não depende da boa vontade de um professor, dois ou três cientistas. "Até agora são poucos que colocaram isso como uma bandeira de luta", disse ele.
Pianko relata que tem acompanhado a discussão da Universidade da Floresta desde 2003. "Avançou muito. Vejo que agora dá para fazer uma leitura dos pontos que precisam melhorar. Estou conseguindo perceber que está tendo alguma dificuldade, mas também compreendo que é um processo. É uma questão nova e a gente precisa de tempo para que as coisas vão se resolvendo", analisa.
Na Reunião Regional da SBPC do ano passado, Pianko lembra que viu a necessidade do projeto de dialogar mais com a sociedade civil, com os movimentos dos povos da floresta como um todo e especificamente com os povos indígenas. "Por mais que estivessem no discurso a importância da participação, os povos indígenas se sentiam ainda muito longe. Muitas vezes estavam trabalhando para os povos indígenas nessa construção, mas faltava a presença dos índios para ser um trabalho construindo junto", registra.
Na mesa redonda que discutiu o curso superior indígena, Pianko disse que faltou transmitir com mais clareza quais as dúvidas que a Ufac tem, quais as dificuldades e se ela está realmente preparada para já dar esse curso específico. Segundo ele, se percebe que ainda há uma falta de entendimento interno. Foi o que disseram as lideranças indígenas, e se colocaram à disposição para ajudar a construir, relata.
Para Pianko, este é um projeto que é novo, diferente, que busca fazer a coisa de maneira participativa, juntando esses dois conhecimentos e ver uma forma de andarem juntos. Segundo ele, ficou uma pergunta por parte dos povos indígenas: onde está a dificuldade, o que precisa ser feito por parte dos povos indígenas, como a Universidade está contando com eles para que a coisa saia da vontade e como isso vá para a prática? "A gente precisa dialogar mais para poder se sentir de fato parte dessa Universidade. Saber qual a contribuição que os povos indígenas podem dar", ponderou.
Conforme avalia Francisco Pianko "já é momento da gente passar da questão da vontade. Precisamos identificar e ser muito claro com aquilo que a gente tem para oferecer. Porque se a gente não tiver esses pontos identificados, nós podemos ter problema na condução desse projeto", constata.
"Uma questão que está faltando é a Ufac saber o que os índios querem e olhar porque querem, qual é a demanda indígena, para que em cima disso se tome uma decisão e trabalhe o seu desdobramento numa relação de construção participativa", pontua o secretário. "Isso ainda está muito na vontade. No discurso aparece. Mas na prática está havendo uma dificuldade muito grande. Os povos indígenas estão bastante preocupados".
De acordo com Pianko "há um grau de desconfiança ainda muito grande entre os povos indígenas e a Ufac, e também da Ufac para os povos indígenas. Porque ainda não se conhecem. É uma coisa nova um diálogo como esse, com uma vontade da construção de uma coisa como essa que está se pensando. Não dá para fazer só imaginando. Precisa se aprofundar mais", aconselha.
"Qual a segurança que a gente tem que se está trabalhando realmente um projeto que vai nos atender? Até onde nós podemos confiar?", indaga Pianko. "Ainda estamos construindo ou estamos num momento de dialogar para ver as possibilidades para que a gente possa avançar", disse ele.
Os povos indígenas querem que lhes seja dada garantia de que não são obrigados a deixar de lado o seu próprio projeto de vida, de que os seus valores costumes, práticas, tradições não sejam apagados, disse o secretário. "Eles querem que não sejam ameaçados por esse sistema. É um cuidado nesse sentido, de que esse sistema não leve os índios a fazer uma passagem: sair do seu mundo, da sua ciência, da sua forma de viver, para vir seguir a um projeto estabelecido por esse sistema na forma da orientação comum que se vê hoje na educação formal".
"Os povos indígenas compreendem que essa Universidade possa servir ao mundo indígena de uma maneira que não façam competição, que não procurem saber que os índios são mais que os brancos ou os brancos são mais que os índios", explica Pianko. "Que a Universidade estabeleça uma relação de convivência de dois conhecimentos, um para ajudar o outro e manter esse equilíbrio onde a gente possa ir se conhecendo".
No âmbito dos valores, Pianko defende que "a Ufac não precisa certificar alguém, dar um título para um sábio de aldeias indígenas num papel para dizer que ele agora está formado. Que a Ufac possa compreender que o mundo indígena não se baseia nisso!", exclama.
"Eu sei que é muito difícil mas é possível fazer na medida que você vai compreendendo o processo. Nós precisamos de especialistas também que conheçam, mas especialistas que tragam com eles essa compreensão, que esse processo da formação traga para ele esse entendimento", diz o secretário.
É um processo muito complexo, reconhece Pianko. "É muito fácil criar um curso e botar os índios lá dentro. Botar os seringueiros. É muito fácil trazer os povos da floresta para dentro. O que se quer é que esses que venham não venham a ser engolidos e abandonar os seus valores, deixar de lado e entrar num processo desconhecido para ele, e que ele passe a ser uma pessoa sem identidade, passe a ser uma pessoa que vai viver competindo como qualquer um, buscando um espaço", justifica.
Segundo o secretário, "se tem que reconhecer que os povos indígenas, os povos da floresta já têm um espaço, já têm uma identidade. É isso que tem de ser trabalhado para que a Universidade fortaleça, reconheça isso e possa contribuir no sentido de garantir complementar e apoiar esse jeito ao introduzir alguma coisa que possa fortalecer essa cultura", indica Pianko.
O líder dos índios acreanos define que quer um curso indígena que possa oferecer técnicas que possam alterar a realidade, não para sair das aldeias, mas para fortalecer a segurança, a sustentabilidade e o planejamento na realidade dos povos indígenas. "A dificuldade está em poder ter um projeto que tenha essa cara".
"A Universidade da Floresta só vai ser diferente se tiver isso, se a gente entender que já existe uma identidade, um espaço garantido, uma ciência. Se souber como vai poder criar esse elo entre esses dois saberes", explica.
Os índios querem saber quem são os elementos intermediários para fazer esse diálogo de modo a que fiquem todos satisfeitos, conta Pianko. "E não querem correr o risco de que sejam tiradas as pessoas das aldeias para participarem de um projeto e depois eles percam a sua identidade, o seu espaço e vão começar a viver num mundo de competição em que muitas vezes não conseguem e findam sendo pobres e perdem as suas raízes", argumenta.
Conforme Pianko, a dificuldade que está acontecendo no projeto de educação é que os povos indígenas podem perder muito mais do que ganhar. "Tenho acompanhado. Eu queria muito. Tenho muito medo que esses valores se percam. Que alguns doutores, professores dessa Universidade possam estar preocupados em trazer os índios, seringueiros e ribeirinhos para dentro da Universidade como forma de atender a demanda. E não é por aí".
"Se fosse só isso, o Brasil, o mundo inteiro não tinha tanto problema como tem. Mudar um pouco essa visão é a grande luta nossa neste encontro", afirma Pianko. O secretário enfatiza que "os índios não estão lutando por espaço. Já conquistaram um espaço que não se apaga mais. Índios não podem ser vistos como problema. Podem ser a solução a partir do seu modelo de vida, sua forma de se organizar, a solução para muitos problemas que o mundo está enfrentando".
"Nós indígenas precisamos desses conhecimentos da Ufac para que eles nos fortaleçam. Para que possam levar nesse diálogo alguns conhecimentos que podem servir para esse novo momento que a gente está vivendo. Mas os índios estão precisando de parceria, de apoio e não sair dizendo que a gente está desesperado, não tem nada, não sabe nada. Sabemos o que queremos. Temos muito o que oferecer. Então a relação tem que ser outra", afirma Francisco Pianko.
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