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Liderança quilombola, tia Uia morre de coronavírus

O Globo
Autor: Gilberto Porcidonio
16 de jun de 2020

O Quilombo da Rasa fica na praia que lhe dá nome, em Búzios, na Região dos Lagos, e é reconhecido como tal desde 2005

RIO - O Quilombo da Rasa fica na praia que lhe dá nome, em Búzios, na Região dos Lagos, e é reconhecido como tal desde 2005. Nele moram cerca de quatro mil descendentes de pessoas escravizadas que sobrevivem, principalmente, da pesca, do artesanato e do trabalho em pousadas da região turística. Carivaldina Oliveira da Costa, a Tia Uia, de 78 anos, era a matriarca do lugar. Uma das principais lideranças da causa no estado do Rio e no país, ela morreu no último dia 10, vítima da Covid-19, após ser internada no mesmo dia. Antes de ir para o hospital, ela relatou que estava sentindo fortes dores de cabeça havia quatro dias.

No momento, o quilombo tem, oficialmente, três mortos pela Covid-19, 14 pessoas infectadas e cerca de 40 com sintomas da doença, que estão em quarentena.

A matriarca lutava pela preservação da memória quilombola, uma missão que "herdou'' da mãe, conhecida como Vó Eva, que hoje tem 110 anos e vive no local. Lúcida e ativa, ela ainda é capaz de se lembrar dos cantos e das danças que aprendeu com seus pais.

Filha de agricultores e neta de uma ex-escravizada nascida na senzala da localidade Piraúna, que fazia parte da antiga Fazenda Campos Novos, Tia Uia chegou a trabalhar, aos 14 anos, na capital do estado, para ajudar a família. Depois retornou a Búzios, onde se casou e teve sete filhos.

- A minha tia era muito carismática e atuante, viajou o Brasil participando de seminários e encontros para defender a cultura e os nossos costumes. Nós estamos atônitos - disse a pedagoga Marta da Costa Cardoso de Andrade, que também mora na região. - Ficamos em um município que recebe muitas visitas de pessoas que vêm de fora e, infelizmente, essa doença chegou aqui da forma mais cruel possível, atacando a peça principal da nossa comunidade.

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De acordo com a Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro (Acquilerj) - entidade que teve Tia Uia como uma das fundadoras - 10% dos quilombolas da Rasa podem estar infectados.

- O governo do Estado nos disse que, a partir desta semana, vai providenciar um número maior de exames para a nossa comunidade, pois temos vários quilombolas com sintomas da doença e sem o teste. Além disso, como a cidade vive do turismo, muita gente está sem poder trabalhar, chegando a passar fome. A situação está crítica - relata a vice-presidente da Acquilerj, Bia Nunes.

Uma morte por dia no país
Ao todo, existem 48 comunidades quilombolas certificadas no Rio. De acordo com a plataforma Observatório do Covid-19, há uma média de um quilombola morto pela Covid-19 no Brasil por dia.

- O Rio capital, como a gente costuma falar, é a vitrine do Brasil, e os problemas de suas comunidades costumam ter mais holofotes. Porém, a gente não consegue ter quem fale da nossa situação de agora. É como se existíssemos apenas nos livros de história - desabafa Bia.

https://oglobo.globo.com/rio/lideranca-quilombola-tia-uia-morre-de-coro…

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