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Líder disputa prefeitura para viabilizar a implementação de reivindicações indígenas

Coiab-Manaus-AM
25 de Mai de 2004

"Ao longo das últimas décadas, reivindicamos os nossos direitos e conseguimos avanços significativos através do movimento indígena. Agora pretendemos entrar no movimento político partidário buscando a implementação dessas reivindicações", afirma o líder indígena Pedro Garcia, do povo Tariano, candidato à Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, Estado do Amazonas, nas eleições deste ano. O município tem uma população com aproximadamente 98% de indígenas.

Pedro Garcia é membro do Grupo de líderes que assessora à Coordenação Executiva da Coiab e sócio fundador da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), da qual já foi tesoureiro, secretário geral, coordenador geral e coordenador de projetos. Saiu candidato de uma lista tríplice discutida numa reunião de lideranças indígenas com professores, profissionais de saúde e líderes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Verde (PV) e do Partido Comunista do Brasil (PC do B).

Apesar das conquistas do movimento indígena, sobretudo depois da promulgação da Constituição Federal em 1988, para Pedro Garcia os povos indígenas do Alto Rio Negro ainda enfrentam muitos dificuldades para garantir os seus direitos. "Na área de fronteira, principalmente, continuamos vivendo a época do autoritarismo. Não tem diálogo com a população. E isso tem provocado descontentamento, especialmente entre nós, os que estamos a frente do movimento. Por isso queremos mostrar que somos capazes de administrar, tendo como preocupação a melhoria da qualidade de vida dos nossos povos e da população em geral. Por outra parte, a nossa participação na política quer ser a afirmação de que apesar dos ciclos de colonização nós, os povos indígenas, continuamos vivos, mantendo a nossa cultura. É preciso que o Brasil valorize a sua diversidade cultural, a sua natureza multiétnica", afirma o líder tariano.

Para atingir os seus objetivos, Pedro Garcia e sua equipe preparam um Programa de governo para o município de São Gabriel, que sem um plano diretor enfrenta até hoje dificuldades para se desenvolver. "Os não índios, porém, sempre colocaram a culpa em nós, considerando-nos empecilhos para o desenvolvimento local", critica o candidato indígena.

Esse Programa terá como eixos fundamentais, entre outras prioridades, o desenvolvimento sustentável para os povos indígenas; políticas de saúde e educação adequadas à região e que respeitem as formas tradicionais da cultura indígena; a participação dos índios na definição de políticas municipais.

Sobre as principais dificuldades encontradas na definição e desenvolvimento de sua candidatura, e uma possível administração indígena, Pedro Garcia analisa: "o diálogo dos povos indígenas com os governos Federal e Estadual tem sido difícil. Esperamos superar esse problema a partir da Prefeitura, por conhecermos amplamente os problemas e as necessidades locais", garante.

Outros problemas citados pelo ex-coordenador da Foirn, se referem à reação dos adversários políticos e à falta de recursos para financiar a sua campanha.
Pedro conta que na opinião dos adversários, principalmente da atual administração, a candidatura indígena é prematura, que os indígenas deveriam esperar mais tempo, que eles não têm conhecimento da política partidária e do funcionamento dos órgãos municipais, estaduais e federais, fator determinante para arrecadar recursos para o benefício da comunidade local e regional.

Pedro responde a esta provocação, dizendo: "Para nós, a vida em si é um aprendizado que se faz no dia a dia. Esse pessoal que diz ter experiência, também teve que aprender. Se a gente não entrar agora, não entenderemos nem aprenderemos como funciona a administração municipal, e as razões pelas quais os prefeitos fazem ou deixam de fazer determinadas ações. Por outro lado, o movimento indígena nos deixou muita experiência e acreditamos que isso vai nos ajudar", conclui.

Nas suas críticas, os adversários políticos também destacam o fato de contarem com o apoio do governo do Estado e de parlamentares estaduais e federais. Para eles, sem esse apoio o prefeito indígena teria dificuldades em administrar o município. Contrariamente, Pedro Garcia pensa que independentemente desses vínculos o governo tem que atender a toda a população do Estado e que com o apoio da base política que é o movimento indígena do Alto Rio Negro será possível negociar à altura com os governos Federal e Estadual.

Os políticos ainda afirmam ter um reduto eleitoral garantido. A Pedro não assusta esse argumento, ao qual ele responde: "Eles cantam a vitória antes de tempo. Como todo jogador entra no campo acreditando que entra para ganhar e não para perder, assim acreditamos que temos o apoio das comunidades, temos possibilidades de mudar o reduto eleitoral. Eles tiveram esse reduto, mas foi possível porque algumas lideranças trabalharam para eles. Hoje, a situação mudou. Várias lideranças estão dispostas a trabalhar por a nossa candidatura, buscando fortalecer a experiência política partidária dos nossos povos e organizações".

Com relação ao problema da falta de recursos para disseminar a candidatura junto às comunidades, Pedro Garcia acredita que será superado com o apoio de partidos políticos e entidades aliadas dentro e fora do Brasil, "para vencer a vantagem dos outros de terem a máquina governamental nas mãos".

A participação indígena na política partidária vem sendo discutida pelo movimento indígena do Alto Rio Negro desde 99, "para ver se a gente muda o jeito de administrar o município", declara o líder tariano Pedro Garcia.

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